“Tudo que leio é um estímulo para que eu estabeleça um diálogo com as minhas próprias produções”.
“Escrever é um trabalho árduo. Trabalho e re-trabalho. É preciso tempo, paciência e dedicação para lapidar um bom texto”.
“O Corifeu assassino é um romance policial que mistura ficção e realidade. A história se passa paralelamente nas cidades de São Paulo e Teresina em tempos atuais, mas com os vultos históricos dos anos 90, que culminaram na saída do presidente Collor do poder e na morte do empresário PC Farias”.
“Eu não sei se gostar é o termo certo. Mas que o brasileiro não tem o hábito da leitura, isso não tem”.
“Também existe um outro problema: o hábito da leitura é visto pela grande maioria dos brasileiros só como um mero passatempo. Ainda existem famílias que atribuem o ato da leitura ao ócio”.
Fale um pouco de sua vida e trajetória como escritor.
Acho que minha aspiração para escrever veio assim que me descobri leitor. Comecei a narrar antes mesmo de apreender a ler. Ainda muito pequeno eu ganhava da minha mãe os gibis do Mauricio de Souza e como nem sempre tinha um adulto disposto a ler pra mim, eu inventava as histórias de acordo com o que via nos quadrinhos. Aos doze anos, ganhei uma coleção com 15 livros do Sitio do Pica Pau Amarelo, mas na maioria das vezes eu não concordava com o final e então as reescrevia da minha maneira. Para alterar o curso da história era preciso intervir de alguma forma e para isso eu criei um personagem, o Marcelinho, que surgia como um amigo urbano dos personagens de Monteiro Lobato. Na adolescência passei a escrever poemas, na maioria das vezes, dedicados as meninas da escola. Mas não tinha coragem de mostrar. Cresci inventando e escrevendo histórias, mesmo sem ter ainda muita noção quanto aos gêneros literários. Quando terminei meus estudos primários, optei por cursar Tecnologia Eletrônica. Mesmo assim, continuei escrevendo. Meu primeiro emprego foi na indústria gráfica e, para minha alegria, vez ou outra conseguia um livro antes mesmo de ser lançado no mercado.
Você tem alguma herança literária na família?
Herança literária propriamente não. Mas minha mãe sempre leu muito e fazia questão que eu e meus irmãos lêssemos. Foi ela quem nos apresentou os gibis, depois a literatura infanto-juvenil. Ela lia antes e depois nós conversávamos a respeito. Também nos levava ao cinema com freqüência. Isso tudo foi importante para despertar nosso interesse e prazer pela leitura e, no meu caso, também pela escrita.
Quais são suas referências literárias?
Difícil falar em referência. São muitas. Boas e ruins. Tudo que leio é um estímulo para que eu estabeleça um diálogo com as minhas próprias produções. Se fosse mencionar todos os autores, teríamos páginas e mais páginas de nomes. Mas é impossível não citar Machado de Assis, Graciliano Ramos e Drummond na poesia. Gosto muito de Milton Hatoum. Mas tem também o Cristóvão Tezza, Sérgio Sant anna, Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, que ganhou o Jabuti esse ano, entre tantos outros. É complicado listar, sempre ficam mais nomes de fora. Dos autores que movimentam o atual cenário literário paulistano: Antônio Prata, Marcelino Freire, André Sant anna, Xico Sá, Ronaldo Bressane, Ferréz, Sérgio Vaz, Sacolinha, entre outros que mantenho contato. Também gosto muito de ler autores que estão iniciando e que ainda não foram publicados, que mostram seus textos em saraus ou publicam em antologias de maneira independente.
Como funciona com você a questão do processo criativo? Como surge a idéia?
Eu costumo dizer que a matéria prima está ai, no dia a dia, nos pequenos encontros e desencontros da vida. Normalmente as idéias surgem de algo que vi ou que vivi. Algumas histórias que amigos contaram, ou até mesmo um conversa que ouço no bar. Às vezes andando pela rua vem uma lembrança que gera um conto. A idéia inicial, em si, não é o problema e sim o depois, como trabalhar e ordenar as informações, experiências e vivências das situações. Escrever é um trabalho árduo. Trabalho e re-trabalho. É preciso tempo, paciência e dedicação para lapidar um bom texto.
Você lança um novo livro no dia 12 de novembro – O Corifeu Assassino – fale sobre sua obra?
O Corifeu assassino é um romance policial que mistura ficção e realidade. A história se passa paralelamente nas cidades de São Paulo e Teresina em tempos atuais, mas com os vultos históricos dos anos 90, que culminaram na saída do presidente Collor do poder e na morte do empresário PC Farias.
Há desvios financeiros em uma grande indústria de papel, que são descobertos por um funcionário exemplar que resolve denunciar ao diretor da empresa, sem saber que o próprio era quem chefiava os roubos. O diretor, consciente de que o funcionário constitui uma ameaça, planeja um atentado contra a sua vida. Para isso, conta com a ajuda de um matador profissional, o mesmo que supostamente teria matado PC Farias, em Alagoas, por encomenda. Os fatos não saem exatamente como o programado e outros crimes acontecem. A polícia local não se interessa pelo assunto, com exceção do delegado Borges, um solitário e frustrado advogado, que resolve investigar e, seguindo as poucas pistas do suposto acidente, descobre uma grande teia de corrupção e crimes. Ao final do romance, temos um emaranhado de situações, que se misturam: a corrupção policial, as negociatas políticas no governo, a compra de favores e as insanidades cometidas por dinheiro e poder.
Você é escritor, está lançando um livro. Da mesma forma você é usuário da internet, possuindo site e blog. Qual a sua opinião sobre o comentário de que, com o advento e as facilidades da internet, a biblioteca e o livro estariam com os seus dias contados?
Não acredito que os livros impressos possam acabar. Toda vez que temos uma novidade, discute-se a possibilidade do antecessor cair por terra. Com o surgimento do cinema, cogitou-se o fim do teatro; quando Graham Bell inventou o telefone, decretaram o fim das cartas escritas, foi assim também no surgimento do fax e do e-mail. Na estréia da televisão, os primeiros comentários eram de que o rádio ia acabar. E nada disso aconteceu. Na chegada da Internet e dos noticiários on-line nos provedores - foi decretado o fim do jornal impresso, ledo engano, pois o contato com o noticiário no formato jornalístico, divulgado pela Internet, acabou despertando a curiosidade e interesse de novos leitores aos jornais impressos.
Acredito que acontecerá o mesmo entre os livros impressos e os e-books, os blogues. O eletrônico não veio para acabar com os impressos, mas, para se complementarem, pois ambos apresentam vantagens e desvantagens em relação ao outro, quem sabe, assim como aconteceu com o jornal, a internet não possa despertar o interesse pela leitura e até aumentar o consumo dos livros impressos, pois facilitará a divulgação logo após o lançamento de novas obras, tornará acessíveis livros de autores fora da mídia e desconhecidos da grande maioria dos leitores, dificilmente encontrados nas grandes livrarias. Assim como tornará acessível também os grandes clássicos, como Machado de Assis, que agora é domínio público e sua obra completa já pode ser baixada. Em resumo, tornará os autores e os livros, impressos ou eletrônicos, mais acessíveis àqueles que não têm o costume de freqüentar livrarias. Além do mais, quem gosta de livros, como eu, costuma passar horas numa livraria pelo prazer de escolher, analisar, olhar, tocar, ficar na dúvida se leva um ou outro, talvez apertar um pouco mais o orçamento e levar os dois. Sinto necessidade de tocar o livro antes de decidir por levá-lo pra casa. Sentir o cheiro do livro novo. Parece pouco, mas não é. Ver os detalhes da capa, ler dedicatórias, observar a fonte em que foram escritos, entre tantos outros pormenores.
Já no caso das bibliotecas, acho mais complicado. Porque hoje em dia as pessoas já não mantêm o hábito de fazer a carteirinha, emprestar um romance para ler em casa. As bibliotecas vinham sendo usadas somente para consultas, pesquisas e isso realmente ficou muito mais fácil e prático com a internet. Acho que uma solução para atrair público seria a biblioteca como espaço cultural, com atividades e apresentações literárias como saraus, encontros literários, lançamentos de livros, debates. Excursões escolares para visitação como ambiente para leituras coletivas, com contadores de história etc.
Você concorda com a opinião de que o brasileiro não gosta de ler?
Eu não sei se gostar é o termo certo. Mas que o brasileiro não tem o hábito da leitura, isso não tem. E não só pelo valor do livro, como se costuma atribuir a culpa com aquela velha história de que a grande oferta e a baixa procura elevam os preços devido aos custos da produção. O brasileiro não é educado para ler. O que deveria acontecer desde os primeiros anos na escola e não acontece. Pelo contrário, as escolas ainda violentam os alunos obrigando uma criança de 12 anos totalmente despreparada para a literatura a ler Machado de Assis. Um verdadeiro crime com essa criança que passará a odiar o autor de Memórias Póstumas, e com o próprio Machado.
Também existe um outro problema: o hábito da leitura é visto pela grande maioria dos brasileiros só como um mero passatempo. Ainda existem famílias que atribuem o ato da leitura ao ócio. Coisas do tipo: “menino sai desse sofá, larga esse livro e vê se vai fazer alguma coisa de útil.” Ler pode ser um bom passatempo, mas também é aprendizado, conhecimento. Numa leitura em que a compreensão do que se lê é alcançada, diversos tipos de conhecimento estão em interação. Normalmente se diz que é necessário um conhecimento prévio de mundo para a compreensão de determinadas leituras, mas o contrário também pode acontecer, a cada leitura a visão de mundo desse leitor também se amplia e ele vai aprendendo e assimilando cada vez mais, ajudando em sua formação de caráter e como sujeito leitor, cidadão. Sem falar na aprendizagem gramatical, semântica, léxica, ortográfica que o leitor vai assimilando sem que ele mesmo perceba. De maneira muito mais agradável que o convencional ensino da língua portuguesa feito somente com gramáticas.
O que você espera de “O Corifeu Assassino”? Como está sendo o processo de divulgação do trabalho?
Essa é a pergunta mais difícil. Ainda mais antes do lançamento. Poderia responder sinceramente que espero que agrade aos leitores, que tenha uma boa vendagem, que vá para a segunda edição e que me proporcione condições de continuar trabalhando com a certeza de que virão outros trabalhos e publicações futuras. Mas isso não pode ser considerado um fato concreto. Posso garantir que é um trabalho mais maduro que meu primeiro livro, O espúrio, e dizer que já estou trabalhando um novo romance e um livro de contos, que provavelmente serão ainda mais “maduros” que o Corifeu. O livro está saindo por uma editora pequena e a divulgação vem sendo feita por meio de revistas, jornais e canais como esse, que abrem seu espaço para a nova literatura e a divulgação de novos autores. Sem falar na internet como um meio barato e potente de divulgação. Mesmo assim, em nosso país tão grande, e de tão poucos leitores, acredito que o “boca a boca” ainda é a poderosa forma de divulgação. A indicação conta muito para escolha de um livro entre o público leitor.
da Redação
Os livros de Marcelo Nocelli podem ser adquiridos nos seguintes locais:
Livraria da Vila
Livraria Cultura
Lojas Saraiva Megastore
Americanas.com
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E pelos sites:
http://www.marcelonocelli.com.br
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