Redes Sociais:

O mundo do Selfie e refletividade na Alta Modernidade

Por Robson Belo

Não é de hoje que discutimos o narcisismo imperativo na sociedade pós-moderna, a construção do eu como identidade una, imutável e indivisível. Contudo, carregamos estranhamente um senso de ambigüidade como citam Anthony Giddens, Ulrich Beck e Scott Lash – ao mesmo um fim e ao mesmo um começo, como afirmaria o sociólogo Boaventura de Souza, a modernidade nasce da identidade e com ela. É onde se dá a construção da subjetividade. Então, quem somos nós?
A subjetividade é constituída do eu e das relações communitas (outro) [individuo/coletivo/contexto/universo], é para Anthony Giddes um “encontrar a si mesmo” mediante o “ser-em-si” estar tão inapropriado a sua condição reflexiva ao que é atual ao alcance das relações humanas.
Por isso estamos num momento histórico em que precisamos refletir sobre nós ao ponto que devemos refletir retrospectivamente sobre o si-mesmo. Precisamos encontrar soluções que nos adéqüem a modernização social, nos redescobrindo e rompendo com as tradições e o pragmatismo, e nos direcionando a um novo sistema político e a uma universalidade ética como nos sugere Habermas.
Eu não discuto benefícios e malefícios de tradições institucionais ou políticas, mas o incomodo à “crise” que se instalou em nossas vidas -, um critério de banalidade, desorganização, a um amordaçamento da coletividade.
Relações médicas que antes se importavam basicamente com a nosologia da doença passam a ser inundadas em queixas com a refletividade do dia a dia, das relações amorosas em crise, ao capital que sustenta o estilo de vida de cada paciente.
Parafraseando Giddens, sugiro ser a resposta mais comum à Alta Modernidade, é a Ansiedade. Um aspecto natural a ameaça na busca de adaptação, comumente expressado em nossa época por nós em: dor, preocupação e o luto (esta última das perdas simbólicas) – é a nossa autocategorização refletida no âmbito da nossa crise existencial e condizente com nosso atual momento social.
Vivemos em uma época a qual a imaginação já superou a informação, mesmo que este segundo seja um ponto culminante de nossas perturbações e das nas nossas escolhas atuais, contudo, essa imaginação propriamente dita é ‘unilateral’ ao ponto em que a criação da realidade passa a ser unidirecional, e não universal. 
O século XXI é o tempo das relações líquidas, do imediatismo em que tudo pode acontecer e se desfazer simploriamente, as tendências sociais as quais a Globalização nos acarreta, estas contraditórias ao sentido primeiro do global [universal] que se referiria a “laços”, são na verdade caracterizadas pela dialética do “distanciamento” em contexto global e local (estado-nação / pobre-rico), daí a explosão da solidão e a demolição das relações; são condutas de controle majoritário [poder] sobre as nossas motivações e comportamentos.
O selfie é um exemplo interessante para caracterizar nosso momento atual, selfie – autorretrato – que se origina do self (eu); vale ressaltar que essa modalidade de fotografia esta relacionado diretamente com redes sociais (irônico). 
No mesmo sentido do unidirecionamento da realidade da qual comentei, sugiro neste caso, uma ambigüidade ante as mudanças, pensando no principio da construção desta resenha pela ideia de fim ou de um começo, quem somos nós (quanto identidade) se não a expressão da dúvida.
Este momento social é o selfie à diferenciação ambígua na ecologia social, uma fotografia de nós perdidos entre o desejo inerente de identificação o qual pode ser o endividamento por nosso isolamento, estando claro mediante nosso grau de comparações aos outros. 
E se pensarmos no Brasil, eu entendo que seja o momento de realmente nos percebermos mediante nossos discursos sobre tolerância(s), os quais, nem sempre realmente refletem nossa história e cultura e as ideias que propagamos. 
Na verdade temos construído a cada dia mais sistemas discriminatórios os quais apenas confirmam o que sempre fomos, mas que moralmente é uma primeira tentativa (e deveria) de aperfeiçoarmos nossos sistemas institucionais e democráticos numa (re)definição pós-moderna de nossa identidade social. O Self pode ser um olhar de si a si mesmo na busca de novos padrões e olhares a partir de uma função metalingüística de se relacionar e de se estabelecer novos comparativos em base de um processo mais equilibrado de autoconceito.
Robson Belo
Psicólogo, Psicopatologista e Psicoterapeuta