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Quando um filho perde a mãe

Por Robson Belo

O que dizer a respeito da morte de uma mãe para um filho? Este artigo é autorreferente e uma maneira de buscar minha cartase, um retorno às coisas mesmas. Há tempos em que ensaio escrever, há tempos em que refuto tocar no assunto, ou quem sabe apenas (re) vive-lo, por seguinte, a porta que se abre de volta a normalidade da vicissitude.
Outrora escrevi sobre o que provavelmente poderia sentir os pais quando do perder para a morte seus filhos; hoje me deparo tentando explicar o que sente um filho ao perder sua mãe para o mesmo destino. Seria fácil apenas dizer como eu particularmente me sinto, nesses já dois meses de luto, eu não estaria realmente buscando a intencionalidade da vivência do trauma.
O objeto intencional, a morte, é por si só em contexto e processo algo altamente temido; além da própria recusa ontológica de seres para a morte, como constructo irracional e contraditório, haja vista, em maioria acreditarmos na existência de uma alma e de lares espirituais como o céu e o inferno, ao mesmo que sugerimos em níveis subconscientes a desintegração da vida e da própria existência – o que por ventura nos leva a estados exacerbados de estresse.
Temer a morte do outro pode começar a partir do nosso próprio significado existencial, ou em termos neurológicos a partir dos nossos mecanismos de sobrevivência e recompensa. Estamos fadados a lutar pela vida, mesmo que esta já tenha entrado em estado de anomia, pois nem sempre um estado de anomia termina em suicídio e nem toda tentativa de suicidar-se tem significante à perda do prazer na vida. A depressão é uma manifestação psicopatológica de conteúdos negativos e de desequilíbrio neuroquímico, alterando o humor e o afeto, mas que é uma tentativa do organismo somático de existir/resistir.
A conjectura depressiva se explica muito bem pelas palavras do Psiquiatra Geraldo Caldeira: “perde-se o que se sente como algo de si mesmo”¹, nascemos incompletos, a completude da existência se dá primeiramente na díade mãe-filho e do narcisismo posterior a esse “primeiro encontro conflituoso”, donde há de vir a nossa capacidade de viver em grupos ou de sempre buscarmos o outro na complementação do eu.
Na perda do amor do outro, e neste caso falando da morte e do luto como causa, diferente da separação ocasional, emprestando o pensamento de Freud quando desta há uma heteroagressividade, na morte, a agressão se volta ao próprio sujeito em manifestações psicopatológicas que transformam a separação numa luta interna onde o eu adoece, é da simples falta de apetite à manifestação somática da dor física. Morre o eu e por consequência vai morrendo o outro e assim, vai-se elaborando a perda.
Muitas vezes a morte do eu chega a níveis extremos, acarretando o suicídio, por isso, a importância de se distanciar do eu interno e narcísico, e passarmos a buscar o mundo a nossa volta com a ressonância do fenômeno humano e do sentindo da existência.
Creio que esse é um ponto crucial: existir! Por que continuar?
Se a sustentação primitiva da existência se foi (mãe), por que devo permanecer em uma jornada a qual me parece ao calor dos fatos sem sentido? Qual é o sentido da vida? Aliás, já fiz esta pergunta em outro artigo. Voltar à vida normal seria irracional. Um discurso exagerado se não fosse à questão primária: a mãe é quem rege a vida – da geração, a maturação, até a preservação da vida de seus filhos.
John Bowlby cita, por exemplo, o “comportamento de vinculação” um sistema integrado de comportamentos que têm como objetivo restituir a segurança pessoal. É erraticamente similar a sensação posterior à aceitação do não mais existir materno [perder a defesa sob o ambiente ameaçador]. É se perceber andando pela casa/rua sem saber exatamente aonde ir/ficar/seguir. Quem sou eu? Não tenho mais como me re-assegurar.
Perde-se o elo com o equilíbrio da vida, é como se em dado momento regredíssemos e nos perdêssemos aos tempos iniciais de nossa existência com o agravante de que estamos sós para continuar crescendo.
E por que continuar?
Lutando contra o próprio EGO você acaba tendo a chance de entender que o sistema de vínculo não é apenas do eu-outro, mas gira em torno do outro-eu; sendo assim, entende-se basicamente que pessoas também precisam de você: não há amor objetal que subjugue o amor que você deva dedicar aos demais.
Vínculos se regeneram, sejam pelas relações amorosas, sejam no apego aos amigos, como na servidão ao outro – doar-se a causa de alguém ou de muitos. Continuar é parar basicamente de ter pena de si mesmo, é uma prova de amor ao outro e por ventura a si mesmo, e é assim e por isso, que eu em minha história pessoal continuo minha jornada.
Robson Belo
Psicólogo Esp. Psicopatologia Clínica
e-mail: [email protected]
http://psibelo.webnode.com

¹GERALDO, C. Os aspectos psicológicos da dor. In: G.C; M. J. D. Psicossomática: teoria e prática. 2ªed. Rio de Janeiro: Medsi, 2001, p. 200-201.