Autista: próprio de um mundo pessoal

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Dia 02 de Abril é comemorado o dia mundial de conscientização do autismo; essa que é um Transtorno no desenvolvimento infantil, afeta por volta de 1 a cada 2000 habitantes no Brasil e tem uma variação de 4 meninos para cada menina com autismo.

Autismo é um termo que provém do Grego, onde “autos” se traduz por próprio e “ismo” por orientação, então, estamos falando de uma síndrome onde o sujeito tem uma orientação própria, ou seja, ele não segue as condutas comportamentais esperadas.

A psiquiatra Lorna Wing definiu essa característica própria por uma tríade: 1) Déficit na interação social; 2) Déficit na comunição e 3) Presença de atividades estereotipadas e de comportamentos repetitivos; sendo assim, ainda reforçado por Leo Kanner (1943) psiquiatra descobridor da síndrome, o autismo seria uma orientação para si próprio.

Esta questão que envolve sua orientação no espaço, na razão, ou para o mundo, concorre a sua diferença na capacidade de ler (compreender) condutas e manter a reciprocidade social, contudo, não o exclui da relação com o meio, afinal, não compreender algo, não o exclui das contingências ambientais.

A diferença não pode ser comparada e nem tão pouco deve ser encarada como uma oportunidade de alienar. O ser humano tem uma tendência ontológica de classificar e categorizar tudo, seja na zoologia, seja na botânica, seja na biologia. É uma concepção lógico-matemático, e é uma tendência cientifica de criar axiomas e sistematizar o saber.

Na escala de distribuição de Gauss, por exemplo, podemos descrever parâmetros de média e de desvios padrão; em estudos epidemiológicos ele é muito utilizado, inclusive, é um mecanismo gerador de concordância nos critérios para diagnósticos: nível saudável ou nível não saudável. 

Mas, essa tendência em objetivar e dar coorte a um fenômeno é tendencioso, pode levar um sistema social a copiar tais perspectivas; assim podendo contribuir no surgimento dos preconceitos que tanto lutamos para extinguir.

Essas práticas institucionalizadas tanto pelo saber quanto pela ignorância são mecanismos de segregação. Não devemos olhar a síndrome antes mesmo de entendê-la, o conhecimento prévio ajuda a desmistificar as crenças maladaptativas dos que consideram a diferença um problema.

Aliás, a diferença existe apenas para lembrarmos que o mundo é feito de diversidades; o fato é que não saímos de uma linha de montagem, não existe verdadeiramente um padrão único de comportamento, o que existe é a divergência que geralmente nos traz dificuldades de compreensão e nas relações de afeto.

Não é uma tarefa fácil cuidar e criar uma criança autista, a experiência familiar pode descrever melhor o caso; mas, creio que seja muito mais difícil sim, enfrentar a discriminação que a sociedade pode projetar para essa criança.

A discriminação constrói os rótulos e o estigma, esses mecanismos excluem, deformam a verdade, e formatam o preconceito que vai afetar diretamente as famílias, gerando crises na vida e grande sofrimento, mas, que também pode ser o início de uma luta pela inclusão dos seus.

A inclusão não é um modelo político-ideológico, é uma disposição humanista em dar acesso a todos àquilo que lhes é de direito e de pertencimento. Não é somente o direito a pessoa com deficiência, mas aos direitos constitucionais a todo e qualquer cidadão, independente de classe, cor, credo ou desvio.

O autista não é incapaz, e não tem uma doença, e um transtorno não pode ser considerado doença, o transtorno é consequente de um comportamento contraditório ou uma desordem funcional, inclusive a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF (2003) concorda que uma deficiência seja ela qual for não pode ser vista como uma doença e mais, essa percepção tem haver conosco, tem haver com as representações que fazemos da realidade. 

É uma questão que vai envolver sim o contexto ao qual nos incluímos, e nunca à capacidade funcional ou de desempenho da criança com autismo. A questão por fim, é o respeito à individualidade, ao tempo de cada um, a realidade própria de cada cidadão, aliás, isto é cidadania: é respeito, igualdade, e fraternidade.

Aos pais, aos parentes, e aos amigos dos autistas, um feliz dia mundial de conscientização do autismo, é dever nosso cuidar, incluir e resguardar direitos, além, informar e divulgar para a promoção da união e do esclarecimento, assim se formando uma sociedade igualitária e engajada na luta pelos direitos humanos.

Robson Belo

Psicólogo, Psicopatologista e Psicoterapeuta

Clínica, Educação e Empregabilidade

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Robson Belo

Psicólogo

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