João Henrique de Miranda Sá

Poeta, escritor, escultor, ator, pintor, fotógrafo, idealizador e realizador de elementos arquitetônicos inusitados, objeto e fruto da arte, mais um daqueles que amam e fazem arte, assim como fazem... amor.

Dependência Química - O estigma como paradoxo numa sociedade cínica, dissimulada e covarde

O estigma como paradoxo numa sociedade cínica, dissimulada e covarde

'Balada', 'esquenta', 'dar uma esticadinha', 'ferver', ou mesmo, 'fritar'.

As palavras acima, no atual contexto social, induzem quase todo aquele que comunica, que as ouça ou as pronuncie, a projetar ou imprimir no imaginário, aura radiante de noite bem vivida, repleta de alegria, amigos e êxito nas conquistas amorosas.

Corroboram essa ilusão, por exemplo, a infinidade de fotografias das mais variadas bebidas, mesas repletas dos mais caros e raros rótulos, tudo com muito glamour e pompa.

Há entre nós, inclusive quem defenda o uso e legalização de drogas, ora ilícitas, tendo como argumento o fato de que há drogas lícitas, como o cigarro, a bebida alcoólica.

Há quem reforce tal argumento alegando finalidade ‘terapêutica’ de substâncias psicoativas sabidamente nocivas e causadoras de danos irreversíveis e dependência. Somos cínicos ao adotar essa postura.

Grosso modo, somos suficientemente cínicos para enxergar e travestir de aliados alguns de nossos moires algozes, em nome do prazer, é claro.

Oras, por que considerar nocivas substâncias que me proporcionam percepção de mundo muito mais intensa, colorida e vibrante? Se admito todo o mal estar, ressaca moral, danos materiais e físicos, toda ‘roubada’ que me meti ao não avaliar as consequências das resoluções tomadas imerso nestes estados alterados de consciência, teria eu obrigação de rever minha conduta, minhas escolhas, meu comportamento. Então eu nego tudo isso, e aqui sou dissimulado.

Belo dia, percebo que os fiascos do meu amigo que bebe - nunca os meus - são cada vez mais frequentes, noto que ele já destruiu o carro diversas vezes embriagado. Conheço alguns que já mudaram pra sempre a vida de famílias inteiras ao machucar de forma importante, ou mesmo matar alguém num ‘acidente’.

Fico chocado e me pergunto: “Como pode alguém chegar a esse ponto?”, ou então a clássica “Fulano perdeu a linha”, “...está fora da casinha”, e outras formas de designar alguém em crise comportamental grave. Sempre percebo, critico, maldigo, tenho dó e até faço piadas desse mal, no outro. E aqui sou covarde.

Tudo isso faz parte duma linha paradoxal que tem num extremo tudo o que foi citado acima, e no outro o preconceito com que são tratadas as pessoas desfiguradas pelo vício, além das instituições e profissionais que prestam assistência a esse doente. Sim, doente.

Infelizmente, não há como tratar do preconceito da sociedade para com ela mesma quando o glamour se converte em baixaria, cenas tristes, perdas e danos.

Precisamos mudar uma série de valores nos quais pautamos as relações sociais.

É triste ter de usar termos como cinismo, dissimulação e covardia para a descrição do comportamento da sociedade num aspecto de Saúde Pública, que muitos consideram de Justiça. É quando meu filho precisa de tratamento médico, acredito que aquele que o viciou merece cadeia... percebem?

Eu gostaria de poder usar, creio que um dia alguém vá usar palavras como solidariedade, caridade, compreensão, gratidão e perdão; em detrimento de conflito, contradição e paradoxo, no trato deste contexto real e concreto que vivemos... todos vivemos.

Haverá de chegar o dia em que eu verei no outro – em qualquer outro - um irmão. Haverá de chegar o dia em que cada irmão será só amor. Nesse dia, entenderei que problema do meu irmão é problema meu, que gol dele, é gol meu.

O “dedo de seta” perderá o sentido e a vez, já que as mãos estarão estendidas em socorro e amparo.

Tenho fé.

João Henrique de Miranda Sá é escritor e redator, autor de Memórias do Menino Que Pedalava
joaohenrique.mirandasa@gmail.com
67.98126-4663

João Henrique de Miranda Sá

Poeta, escritor, escultor, ator, pintor, fotógrafo, idealizador e realizador de elementos arquitetônicos inusitados, objeto e fruto da arte, mais um daqueles que amam e fazem arte, assim como fazem... amor.

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