Um bandoleiro solitário

Na história de Mato Grosso do Sul, as primeiras décadas do período republicano foram marcadas por um cotidiano de violência e de relações conflituosas preexistentes na região, motivando também um banditismo endêmico. Aliás, a presença de bandidos e de bandos em épocas passadas foi um fenômeno comum em áreas em processo de desbravamento e de colonização.

Resultante de peculiaridades regionais e condições favoráveis, como também a instabilidade na fronteira sul do estado, o banditismo mato-grossense, à época, desenvolveu-se de maneira banalizada e apresentou-se com características eminentemente rurais, raramente assumindo um papel destacado no meio exclusivamente urbano. O banditismo que agitou essa região de Mato Grosso esteve também atrelado às constantes lutas coronelistas envolvendo grandes proprietários de terras como parte integrante de suas forças e sobrevivendo na órbita desses coronéis.

Frequentemente, esses bandidos atuavam organizados em bandos, como poucos ou muitos elementos. Na verdade, existem poucos registros do aparecimento e da atuação de bandidos de forma isolada. Um deles, que teve notória presença na região fronteiriça, foi Franck Six Moritz, um bandido de comportamento cinematográfico e sui generis. Mais conhecido pela população como Sismório, nascido em Corrientes (Argentina), de pai inglês e mãe paraguaia, chegou a ocupar um posto na polícia de Concepción como tenente. No início do século XX, estabeleceu-se na fronteira sul de Mato Grosso.

Segundo o escritor Umberto Puiggari, que escreveu um belo livro sobre a história da violência no sul do estado, chamado Nas Fronteiras de Matto Grosso. Terra Abandonada,  editado em 1933, Sismório “ impunha-se pela bela apparencia de gaúcho de fino trato e maneiras gentis. Estatura elevada, corpulento sem ser obeso, pelle muito claro e rosada, cabelos louros, olhos azues, sobrancelhas arqueadas e ligeiramente crespas, bigodes atrevidos e bem cuidados, nariz regular e umhando tanto grosso, lábios finos, desenhando uma boca pequena, com dentes iguaes e alvíssimos, tendo os caninos ligeiramente salientes. Impressionava as mulheres com o seu pitoresco trajar de uma elegância gauchesca, pouco comum: riquíssimo pala de vicuña, bem dobrado e negligentemente atirado ao hombro esquerdo, deixando ver acima do franjado um S entrelaçado num M, em relevo, bordado á seda escarlate. Chapéo de feltro com abas muito largas, botas altas e retrilhantes, chilenas de prata lavrada, tilitantes, completavam o todo de Franck Six Morits que nunca se mostrava sem o lenço colorado, preso ao pescoço por um argolão de ouro em complicados arabescos”.

Sismório iniciou sua trajetória no banditismo por volta de 1906, mas somente no ano de 1911 o governo de Mato Grosso tomou medidas para combater suas ações, principalmente após ter participado da revolução do coronel Bento Xavier. Alertado por seus amigos da própria polícia, Sismório fugiu para o Paraguai e, depois, para a Argentina. Ao retornar ao Brasil, pela fronteira do Rio Grande do Sul, foi feito prisioneiro e fuzilado sumariamente.

 Além desse pitoresco caso, outros bandidos, à frente de seus bandos, notabilizaram-se na história de nossa região, incluindo uma mulher que ocupou uma posição de destaque no cenário da fronteira. Mas como dizia Monteiro Lobato, através de seus personagens maravilhosos da literatura infantil, isso é uma outra história que fica para uma outra vez.

Valmir Batista Corrêa

da Redação

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