Jorge Hori

Articulista

Por que tanta rejeição?

Sem dúvida, o PT foi aniquilado nas eleições de 2016. O que ainda não está suficientemente explicado é o que levou o eleitor brasileiro a massacrar de forma tão avassaladora o ex-principal partido de esquerda. 

A explicação mais simples é o envolvimento dos principais dirigentes do PT com a corrupção, resultando na prisão de alguns deles. A imagem do PT ficou inteiramente associada à ‘ladroagem de dinheiro público’. 

A visão do eleitorado em 2016 foi que essa ladroagem é a causa principal dos maus serviços públicos: ‘se esses políticos não roubassem tanto, nós teríamos melhor atendimento’. Dai a vitória de muitos candidatos que se abstiveram de prometer medidas específicas e compromete-se a ‘não roubar’.

Mas seria só isso? 

Partidos menores, obtiveram muitos mais votos, elegeram mais Prefeitos e vereadores que o PT.

Uma trajetória explicativa da ascensão e queda

O PT surgiu com base nos operários sindicalizados do ABC paulista, reivindicando melhores condições de consumo. O seu objetivo não era ideológico, socialista ou comunista. Era consumista. Os metalúrgicos queriam ter acesso aos equipamentos domésticos que produziam e até alcançar o automóvel que saia de suas mãos. Era a efetivação da visão fordista: ‘eu quero que todo meu operário tenha o carro que fabrica’.

Esse núcleo inicial, organizou uma Central Sindical, sempre associada ao PT, rompendo a estrutura institucional das federações e confederações, consideradas ‘pelegas’ e se difundiu pelo Brasil, angariando, principalmente, os metalúrgicos, os bancários e os petroleiros.

Dai surgiram as principais lideranças sindicais que alçaram a direção partidária, além de Lula: Jacob Bittar, Jair Meneguelli, Vicentinho e outros metalúrgicos, Gushiken (precocemente falecido) e Berzoini dos bancários, Eduardo Dutra (também falecido) e Jaques Wagner dos petroleiros e petroquímicos. 

Por se contrapor com sucesso ao governo militar, mobilizando multidões, o que os partidos de esquerda nunca haviam conseguido, conquistou o apoio dos intelectuais de esquerda, da igreja e de outros grupos progressistas, assim como ativistas do movimento estudantil. Entre esses emergiu José Dirceu. 

Mas o que levou o partido a sucessivas vitórias, mantendo-se durante 12 anos no Poder Central foi a conquista de dois grupos sociais menos favorecidos, prometendo e cumprindo a ascensão econômica e social. 

Os miseráveis ascenderam à condição de pobres, mediante benefícios pecuniários diretos: bolsa-família, previdência rural, loas e outros. Ainda que limitados a um salário mínimo passaram a ter capacidade de consumo, movimentando um imenso mercado.

Esse mercado popular deu condição a muitos pobres ascenderem economicamente, através do comércio e da prestação de serviços. 

Políticas adicionais de valorização real do salário mínimo, facilitação do crédito ao consumidor, subsídios educacionais e outros mecanismos levaram milhões de brasileiros a melhorarem as suas condições de vida. O que Governo e analistas caracterizaram como a ‘nova classe média’.

O apoio desses grupos sociais levou o PT a sucessivas vitórias, desde a primeira eleição de Lula, após três derrotas, a sua reeleição, a eleição da sua sucessora e posterior reeleição.

As conquistas foram turbinadas por um amplo esquema de corrupção, que veio a ser desvendado e dado a público pela Operação Lava-Jato. 

Em 2012, penúltima eleição municipal, o PT ainda estava em alta, apesar de já trazer a carga negativa do "mensalão". Ampliou o número de Prefeitos, alcançando mais de 600 Prefeituras,  um número significativo, ainda que abaixo dos seus planos pré-mensalão e conquistou a Prefeitura de São Paulo. 

2014 foi conquistado por uma situação socioeconômica supostamente favorável, ainda com um grande volume de empregos e controle dos gastos públicos. Esse sustentado por ‘pedaladas contábeis’. Com a emergência dos fatos reais a sociedade organizada se mobilizou, foi às ruas e com a ajuda de políticos ‘suspeitos’ e obteve o afastamento da Presidente Dilma, filiada ao PT.

Em 2016 os diversos segmentos que apoiavam o PT, na sua maior parte o abandonaram o que explicaria o debacle do PT. 

A análise e avaliação segmentada é importante, porque o todo mascara diferenças que são importantes para as considerações em relação ao futuro.

O segmento inicial, isto é, os operários do ABC paulista abandonaram o PT pela piora nas condições de emprego. A indústria automobilística, a principal empregadora dos metalúrgicos, sempre jogou com a força da CUT junto aos Governos para obter benefícios. Ainda que não desse a contrapartida de empregos em níveis suficientes. Com a crise fiscal e as denúncias contra os benefícios dados à indústria como um das principais fontes da crise, o Governo - ainda do PT  - não teve condições de mantê-los e sustentar os níveis de produção. O que acabou acarretando sucessivas quedas no nível de emprego e, consequentemente, aumento do desemprego.

A piora nas condições do mercado de trabalho teria sido a principal causa do abandono do PT por esse segmento. O PT não conseguiu eleger um Prefeito sequer na Região Metropolitana de São Paulo. E foi derrotado em diversos bolsões industriais, Brasil afora. O Partido dos Trabalhadores foi rejeitado pelos trabalhadores. Apenas uma pequena minoria, mais ligada aos movimentos sindicais - principalmente petroleiros - e à CUT teriam se mantido fieis. 

O principal segmento de apoio do PT, ampliado ao longo dos seus governos e que teria sustentado a vitória de Dilma Rousseff em 2014, regrediu nas suas conquistas. A sua ascensão foi truncada e os sonhos de diploma universitário, viagem de avião e até carro próprio, tornaram-se pesadelo para quem aproveitou durante a ascensão. As dívidas se tornaram impagáveis, carros e casas tiveram que ser devolvidos com perda da poupança. A aspiração principal que sempre foi de um emprego com carteira assinada se tornou inalcançável. O sonho acalentado pelo PT de transformar o Brasil em um país de classe média se esvaiu.

Esse segmento sentiu-se frustrado ou até mesmo traído e teria votado maciçamente contra o PT. Muitos candidatos, embora queridos, não tiveram votos tão somente por serem candidatos pelo PT: 13 não! A rejeição foi muito maior do que as projeções otimistas dos oponentes e pessimistas dos próprios petistas. Para esses o desastre foi catastrófico.

O segmento esquerdista das classes média urbana se dividiu. Uma pequena parte se manteve fiel, desprezando as denúncias, aferrando-se ao argumento de que não existem provas, mas apenas convicções. E que a direita usa a Operação Lava-Jato para tentar destruir todas as conquistas, os avanço sociais promovidos pelo PT. Aparentemente a parte que se mantém fiel é minoritária e não votaram nos candidatos do PT. Alguns preferiram outras alternativas à esquerda. Este segmento tem um pequeno peso eleitoral, embora pela sua visibilidade pública, aparenta ser mais volumoso e importante do que é. Mas é importante dentro da organização partidária e será o responsável pela ‘reinvenção’ do PT ou o ‘coveiro’.

O segmento que aparentemente se manteve mais fiel, apesar de muitas defecções foi o dos beneficiados diretos dos programas sociais. Em 2014 o PT fez ‘terrorismo’ eleitoral, alertando que a oposição, se eleita iria acabar com os programas. Foi eficaz e Dilma foi reeleita. Em 2016 essa mensagem negativa teve pouco efeito, pois tratava-se de escolhas locais, embora muitos acreditassem na influência ou importância dos Prefeitos nas concessões dos benefícios. Não houve unanimidade, porque os ‘bolsistas’ foram afetados pela desconfiança da origem ‘suja’ do dinheiro.

A imagem de ‘PT ladrão’ pode ter afetado o voto de muitos deles.

Jorge Hori 

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