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Os guerreiros que comandaram o século XX. Fidel Castro Morreu?



Historicamente existem quatro aristocracias que governam o ciclo planetário Terra, ora sob a hegemonia de uma ou outra, sendo secundada pelas demais que a apoiam: a do dinheiro, a dos guerreiros, a dos teólogos e a da inteligência. Os guerreiros sempre estão presentes e assumem papel relevante em qualquer situação.

O século XX foi marcado por lideranças guerreiras, cruéis e sanguinárias, entre elas Vladimir Ilyich Ulyanov (Lenin) – chefe supremo da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, depois União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Adolf Hitler (Fuher – líder, ditador – do Reich Alemão), Josef Vissariovitch Stalin (secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética e do Comitê Central, de 1922 a 1953), Benito Amilcare Andrea Mussolini (primeiro-ministro da Itália, Il Duce, Primeiro Marechal do Império), Francisco Franco Bahamonde (chefe de Estado e ditador espanhol conhecido como Generalíssimo), Mao Tsé-Tung (líder revolucionário fundador da República Popular da China), Dwight David Eisenhower (comandante supremo das Forças Aliadas na Europa, na Segunda Guerra Mundial), Winston Leonard Spencer Churcill (primeiro-ministro do Reino Unido na Segunda Guerra Mundial e comandante do 6º Batalhão dos Fuzileiros Reais Escoceses na Primeira Guerra Mundial), Charles André Joseph Marie de Gaulle (general que liderou as Forças Francesas Livre na Segunda Guerra Mundial, depois fundou a Quinta República Francesa), Ho Chi Minh (“aquele que ilumina” – líder revolucionário vietnamita), e muitos outros de menor porte. Passaram para a história como estadistas que destruíram e reconstruíram a ordem social mundial por mais de uma vez.

O advogado, político e revolucionário cubano Fidel Alejandro Castro Ruz faz parte desse seleto grupo de guerreiros. Nasceu em Havana em 1926 e morreu em 2016. Um conhecido apresentador de TV comentou que o século XX terminava com a morte de Fidel Castro. Em outra televisão, outro comentarista dizia que líder do porte de Fidel não morre, entra para a história. Parece contradição filosófica, mas ambos têm razão e estão certos em suas conclusões. É questão de enfoque político.

Fidel ingressou na faculdade de direito da Universidade de Havana em 1945, participando ativamente das atividades acadêmicas. Em 1952 cogitou concorrer a uma cadeira de deputado, mas foi impedido pelo golpe militar de Fulgêncio Batista, um político de direita. Em 1953, tendo Raul Castro Fidel e Raul Castro ao seu lado, liderou 150 homens em um frustrado ataque ao quartel de Moncada – três guerrilheiros foram mortos e os demais presos e fuzilados. Fidel e seu jovem irmão Raul foram condenados a 15 anos de prisão mas, em 1955, foram anistiados e exilados no México, onde conheceram o argentino Ernesto Che Guevara. Fundaram, então, o “Movimento Revolucionário 26 de Julho”, começando o recrutamento para formação de um grupo de combate e o retorno armado à Cuba com o objetivo de derrubar o governo ditatorial. Bracelete do Movimento Revolucionário 26 de Julho 

Em 1956 Fidel, liderando 81 homens armados, partiu do México a bordo do iate Granma, desembarcando no sudeste de Cuba, onde foram recebidos pelas forças armadas de Batista. Nesse combate sobreviveram apenas Fidel, Raul, Che Guevara e nove guerrilheiros. Os sobreviventes fugiram para Sierra Maestra, onde recrutaram voluntários locais para a luta.

Em 1957, já com significativo apoio popular, o grupo conseguiu a primeira vitória no “Combate de La Plata”. No ano seguinte, Raul Castro, comandando um pequeno grupo 65 homens, estabeleceu uma base em Sierra Cristal (região militarmente estratégica), enquanto Juan Almeida seguiu para o norte de Santiago. Em dezembro o Exército de Batista fraqueja, começando a debandada.

Em 1º de janeiro de 1959, Fidel tomou Santiago de Cuba e Fulgêncio Batista fugiu para a República Dominicana, sob a proteção da CIA. No dia seguinte Camilo Cienfugos Gorriarán e Ernesto Guevara de la Serna, no comando de duas colunas guerrilheiras, adentraram Havana. O povo foi para as ruas em festivo apoio aos vencedores. Em fevereiro Fidel tornou-se primeiro-ministro, assumindo o controle do governo, com mão-de-ferro e sem piedade dos adversários. Nacionalizou fazendas e iniciou uma reforma agrária, reunindo multidões para ouvi-lo.

Em 1960 as empresas norte-americanas, incluindo refinarias, foram nacionalizadas, desorganizando a produção. O general Nikita Khruschov, Primeiro-Secretário do Partido Comunista da União Soviética (1953-1964) – sucessor de Josef Stalin, e primeiro-ministro da União Soviética (1958-1964) – sucessor de Nikolay Bulganin, dá integral apoio à Revolução Cubana. Os EUA, em represália, declararam um embargo parcial, que se tornaria “embargo econômico total” em 1962.

Em 1961 Cuba (Fidel Castro) e EUA (John Kennedy) rompem relações diplomáticas; Cuba é declarada Estado socialista. Também aconteceu a fracassada invasão da baia dos Porcos pelos exilados, patrocinada pela CIA. No ano seguinte Cuba se une à União Soviética (URSS). Fidel Castro soube aproveitar esses fatos e passou a ocupar um lugar entre os grandes guerreiros do planeta.

Era o auge da “guerra fria” onde o capitalismo e o comunismo se digladiavam na massiva busca de adeptos. A extremada propaganda anticomunista transformou Fidel e Che Guevara na “besta demoníaca” que destruiria a tradição ocidental cristã, e a extremada propaganda anticapitalista transformou-os (Fidel e Guevara) em “anjos armados com espadas de fogo” que construiriam um mundo melhor para os trabalhadores do terceiro mundo. Eles acreditaram e se revestiram desses papéis mitológicos.

Fidel Castro teve o apoio e a cobertura de três comandantes de colunas, importantes, fundamentais para a vitória final e a implantação do governo revolucionário. Raul Castro, seu irmão mais jovem, formado em ciências sociais e um socialista convicto liderou os guerrilheiros que cruzaram a antiga província de Oriente, abrindo a “Frente Este Frank Pais” até noroeste. É general máximo das Forças Armadas Revolucionárias desde 1959. Ocupa a presidência do Conselho de Estado da República de Cuba, desde 2008, substituindo Fidel.

O cubano Cienfuegos nasceu em 1932, formou-se na Escuela Nacional de Bellas Artes e morreu em outubro de 1959, em um acidente de avião. Foi uma das personalidades mais pragmáticas da Revolução Cubana, no período de 1953 a 1959. Ele e Guevara receberam a missão de levar a luta armada para o ocidente da Ilha, cada um comandando uma coluna de guerrilheiros. Conquistou popularidade devido à sua personalidade humilde, jovial e natural desprendimento. Ficou conhecido como “El Comandante del Pueblo, “héroe del sombrero alón” e “Héroe de Yaguajay”. Foi o primeiro comandante do Exército Rebelde a entrar em Havana e o responsável por tomar o Regimento Columbia, um dos maiores símbolos da força militar governista. Foi nomeado “Jefe de todas las Fuerzas Armadas em la província de la Habana” e, posteriormente, “Jefe de Estado Mayor del Ejército Rebelde”. Fidel e Ernesto Che Guevara 

O médico argentino Ernesto Guevara de la Serna, nasceu em 1928 e morreu em 1967. Foi um dos comandantes e ideólogo da Revolução Cubana. Exerceu altos cargos na administração revolucionária, sendo encarregado das missões internacionais, como se fosse um ministro de relações exteriores, quando de fato era Ministro da Indústria. Levou a luta armada revolucionária para o Terceiro Mundo, tornando-se o maior inimigo do governo norte-americano, caçado pela CIA em todos os lugares possíveis e imagináveis. A revista norte-americana Time o considerou como sendo uma das cem personalidades mais importantes do século XX.

Com a extinção de URSS, em 1991, tudo indicava que o regime cubano também se extinguiria. Mas eis que surge o folclórico Hugo Chaves trazendo os recursos do petróleo venezuelano para socorrer a ilha de Fidel Castro e o mito comunista das Américas. Novos tempos surgiriam. Os irmãos Castro e Hugo Chàvez 

Os adolescentes e jovens daqueles tempos certamente ainda se lembram das repercussões desses acontecimentos históricos. Em 1959 o Brasil era presidido por Juscelino Kubistchek e Jânio Quadros estava em campanha presidencial; Mato Grosso era governado por João Ponce de Arruda e Wilson Barbosa Martins era o prefeito de Campo Grande, que não tinha televisão nem telefone interurbano. Os jornais de grande circulação aqui chegavam com 24 horas de atraso, e as revistas eram semanais. Não havia computador nem internet, o isolamento era uma realidade palpável.

Fidel Castro se impôs como líder mundial, o que não é fácil, considerando que ele governou uma pequena ilha (que de fato é um arquipélago de 109.884 km quadrados e cerca de 11 milhões de habitantes) encrustada nas proximidades da maior potência militar e econômica do mundo moderno.

A humanidade passou por fantástica evolução tecnológica ao longo de seus 57 anos de poder de Fidel, governante totalitário, duro, cruel e sanguinário para com os adversários, sem dúvida, mas é idolatrado e demonizado, ao mesmo tempo. Ao lado de Che Guevara, outro mito da Revolução Cubana, passará para a história como um dos maiores líderes do século XX.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.