Um palmo e meio de proseio

Poeta: Dia 19, estaria completando 100 anos. Mas desde quando decidiu se aboletar praqueles bandos de nuvens azuis, as lesmas, os gafanhotos, as rãs e os caramujos celestiais, todos livres, úmidos e nus, tal como sonhou, abandonaram suas preguiçosas igñoranças e deram de ler seus poemas concebidos sem pecados na Gramática Expositiva do Chão. 

E, como um bom fazedor de amanhecer o melhor de todos na minha modesta opinião - foi logo  recomendando (só mesmo a pedido de um Anjo, posto nunca foi poeta de  sugerir nadica de nada), para não se esquecerem  do Compêndio para uso dos pássaros, pois  que tudo é Matéria de Poesia

E, recuperado do seu morrer que tem uma dor de árvore, encontra-se já exercendo sua função de lecionar andorinhas, sendo puxado por ventos e palavras. 

O filho João se achega trazendo no bolso um sol com passarinhos : “viu, pai, um passarinho abrido naquela casa que ele veio comer na minha mão?  Você apenas ri com seu olhar pretinho que só. Seguidinha chega Pedro, de invejável memória,  alardeando:  -“Meu córrego é de sofrer pedras!!!” e sorrindo de suavezito, completa: “mas quem beijar seu corpo é de brisa”  Os três  se despetalam em risos : Durante borboletas com abril, esse córrego escorreu só pássaros”.   Exclamam, ainda, usados de murmúrios... Bem que o pai Maneco havia lhes  revelado, quando ainda viviam todos em chão de barro:  “sofreremos alguma decomposição lírica até  o mato sair na voz”, cuja palavra amplia o silêncio.   Pois não é que foi bem  isto o assucedido? Afinal, todas as suas palavras já estavam consagradas de pedras. E foi assim, exatamente assim, que, vendo outonos mantidos por cigarras, revendo lamas fascinando borboletas, por gosto de estar entre pedras e lagartos, essa viagem lhe socorreu a pássaros. Desde então, insetos cegaram nosso sol, nos fazendo lembrar de um menino repetindo as tardes naquela  casa da Rua Piratininga, onde, de sua  janela de auroras,  sentia os ventos pelos caminhos  e via  o sol dourando os cabelos negros e os olhos de sua  amada Stella.

Pois é,  Manoel de Barros: quando você afirmou que queria apenas dar sentido literário aos pássaros, ao sol, às águas e aos seres, e que  pudesse  cumprir esta tarefa sem que seu texto fosse engolido pelo cenário, ainda bem que não determinou que os Anjos - e tudo o que no céu existe - não fizessem dos seus versos um maná dos deuses. Pois é do que eles vêm se alimentando  desde o dia 14/12/2014. E por isso já os pressinto mais doces, mais humanos, mais exagerados em azul, mais compromissados com as aves, com as águas, com o verde  vegetando nas  roupas das guaviras. Sua chegada ao céu, Poeta, os tornaram garças que dormem na beira da cor. Talvez estivessem   rodeados de um silêncio  branco.

Agora, nas entranhas destas lagoas de nuvens, os sapos tocam viola. Nesta hora de escândalo amarelo, os pingos do sol nas folhas cantam hinos ao esplendor...

Penso até que as horas bíblicas deste recanto invadiram sua infância inquieta despertando rumores de peixes, enquanto  os arrebóis latejam. Ao seu lado também está  o Bernardo da Mata, um ser cuja palavra amplia o silêncio.  Não. Ninguém o  abandonou e nem o abandonarão jamais sobre as pedras infinitamente nu, e seu canto que reboja . Ninguém deixará o mato tomar conta do seu abandono. Continuará, Manoel,  ad aeternum,  no pleno uso da poesia.

E se nos perguntar de novo: Pode um homem enriquecer a natureza com sua incompletude?” Guardando água no olho, responderemos sempre:  Pode, Poeta. Pode. Desde que seja você.  Feliz Aniversário”.

Sylvia Cesco

Professora, poeta, mulher do mato.

da Redação

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