Campanhas eleitorais sem dinheiro

O ‘tsunami’ já chegou, os depoimentos foram tomados, o processo já está no Supremo e vai demorar muito para uma avaliação maior dos danos.

Já estamos diante de um passado. O que vai sendo divulgado ou vazado já ocorreu e é irreversível. O presente será de condenação de pessoas, por fatos passados. 

Será um momento de grandes emoções, mas vencida a fase mais crítica, com o ‘enterro dos mortos’ a vida continua para os demais e é preciso cuidar dos feridos e do futuro.

O quadro do poder estatal é o mais crítico. A quase totalidade é de sobreviventes, com estados críticos diversos. O Presidente, está em estado estável e não corre risco de morte. Pela sua condição institucional. Os seus companheiros, sem a mesma salvaguarda, terão morte política. O esforço é de prolongar a sobrevida. Alguns pedirão para desligar os aparelhos. Outros resistirão.

O momento crítico é outubro de 2018. Muitos dos moribundos tentarão se recuperar com o voto dos seus eleitores. Alguns terão sucesso. Outros sucumbirão de vez. 

A menos de um improvável (mas possível) golpe militar, em outubro de 2018 o povo real - e não apenas os das Avenidas - irá as urnas e dará a sentença final: culpados - não serão reeleitos - ou absolvidos - serão reeleitos e voltarão ao Congresso.

Como será a composição do Congresso, a partir de 2019? Os nomes serão os menos importantes. O importante será o modelo de funcionamento que vai prevalecer. Será a tentativa de reconstruir o modelo que ora foi destruído pelo ‘tsunami’. Ou será a construção de um novo modelo, mais ‘republicano’, mais ao desejo das vozes das Avenidas: um Congresso mais ético, com os parlamentares mais voltados a interesses gerais, do que pessoais ou grupais. 

Para a avaliação dessas questões é preciso ver um passo anterior que será a campanha eleitoral de 2018.

As revelações do Sistema Odebrecht-Políticos, mostram que a grande força eleitoral do PMDB, nos Estados menores foi irrigada por um grande volume de recursos, com amplo uso do Caixa Dois. O PT buscou usar o modelo, mas apelando mais para as ‘doações legais’. 

Para 2018 as doações legais das empresas ainda deverão estar suspensas. O Congresso tentará restabelecer mas a pressão das avenidas poderá evitar. Tentará ademais a ampliação dos recursos públicos, através dos fundos partidários. Neste caso, o PMDB será o mais favorecido e poderá manter o mesmo modelo de conquistar força política pela eleição dos seus partidários nos Estados menores. 

Já o caixa dois não deixará de existir, mas contido, com movimentações, voltando a ser exclusivamente ao tradicional ‘dinheiro vivo’, a ‘mala preta’, muitas vezes disfarçada em sacolas de lojas. Por razões físicas estará restrita. Nem mesmo o uso dos carros fortes será viável, em escala. 

Os mecanismos mais sofisticados de transações no Exterior, que foram aperfeiçoados pelo Esquema Odebrecht-Políticos, se tornaram inviáveis pelo controle internacional mais rigoroso sobre os crimes de lavagem de dinheiro. O objetivo principal desse controle não é a corrupção e sim o tráfico de drogas e de armas, mas o controle sobre o dinheiro da corrupção acaba sendo envolvido.

Por outro lado, os grandes e ‘generosos’ doadores estão sem recursos. 

Os volumes de recursos financeiros para as campanhas eleitorais de 2018 serão restritos, tanto para os cargos executivos, como para os legislativos.

Dentro desse novo contexto será necessário avaliar quais serão as condições e estratégias dos principais partidos. 

O PT terá como principal custo a campanha presidencial, qualquer que seja o candidato. Se for Lula, terá melhores condições de captar recursos, ainda que pelo Caixa Dois. Se não for, correrá o risco de falência econômica. O montante das dívidas não dará nem para a recuperação judicial.

Terá ainda que gastar muito para tentar manter governos estaduais e ainda tentar reconquistar outros. Poderá mais uma vez ter o Acre como o seu último e único reduto. 

A consequência é que terá poucos recursos financeiros para sustentar campanhas de candidatos aos legislativos. As suas bancadas diminuirão substancialmente em 2018. Poderão ficar com poucos representantes da ala esquerda do povo das avenidas. Concorrendo como PSOL. Tendo que buscar na contribuição pessoal dos militantes as fontes de financiamento das respectivas campanhas.

Duas incógnitas - por enquanto - precisão ser analisadas: como fará o PMDB para manter a sua hegemonia no Congresso? E quais serão as estratégias do PSDB?

Antecipo aqui duas colocações para análise posterior: o PMDB provavelmente irá priorizar as eleições parlamentares, abrindo mão de participar da chapa presidencial. Em 2018 o setor privado que terá dinheiro não será a indústria paulista, tampouco os empreiteiros de obras públicas. Será o agronegócio, em todo o Brasil, mas concentrado no Centro-Oeste com ramificação pelo Centro-Nordeste. 

O novo Presidente do Brasil, em 2019, será um candidato apoiado pelo agronegócio. Mas não necessariamente do agronegócio. 

Jorge Hori

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