Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

Mudanças para deixar tudo como era antes

As realidades permanecem e seguem suas trajetórias no curto prazo, mesmo que o calendário mude. Maynard Keynes já dizia que ‘No longo prazo estaremos mortos’, mesmo que nossas previsões estejam certas. A lei de causa e efeito, entretanto, continuará inexorável até para os poderosos que se julgam acima do bem e do mal. José Dirceu e Eduardo Cunha, entre muitos outros são exemplos palpáveis e indiscutíveis. José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho e Eliseu Padilha, ao que parece, são as exceções.

Prever o futuro é uma empreitada ingrata e perigosa, pois uma cortina se antepõe aos olhos dos temerários que se arriscam a tanto. Mesmo assim, muita coisa pode ser vislumbrada em relação ao futuro próximo. Os políticos que assumem o poder sempre dizem que, apesar da ‘herança maldita’ recebida, equacionarão todos os problemas e farão uma gestão inigualável. Eles se apresentam como super-heróis iluminados e imbatíveis. Os opositores, ao contrário, afirmam que o fracasso e o caos se instalaram no momento da posse dos novos dirigentes, e estão sempre disponíveis para acordos e acertos, contanto que recebam compensações.

O simples mudar de dirigente político, ou do calendário, de 2016 para 2017, não alteram a continuidade e as consequências dos fatos. A defenestração de Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer, por exemplo, não acabou com a corrupção, com o desemprego, com a inflação ou com a recessão econômica. Tudo continua como era antes, inclusive a política de privatização e a transferência de recursos públicos para a iniciativa privada, via financiamentos públicos a baixo custo.

Há erros de base que transcendem os factoides dos publicitários de plantão. A PEC dos Gastos Públicos, em tese, é louvável, mas quando deixa de lado o pagamento dos juros e dos serviços da dívida pública, se transforma em piada; quando deixa as mordomias e as extravagâncias parlamentares correrem soltas, é um escárnio sobre os espoliados brasileiros. Os aumentos de preços dos combustíveis e as bravatas de Meirelles ameaçando com novos impostos em nada ajudam. Ao contrário, geram expectativas desoladoras e depressivas.

Os Poderes da República (três constitucionais mais o MP), comprometidos com o status quo caíram no descrédito popular, o que é extremamente pernicioso para a democracia. Cinco fatos, entre inúmeros outros, se destacam: a negociação das dívidas dos Estados para com a União, a aprovação do Projeto 79/2016, pelo Senado em 30 de novembro, doando bens públicos para empresas privadas, a PEC dos Gastos Públicos, a reforma do Ensino Médio e a reforma da Previdência Social.

Gilberto Kassab, economista e corretor de imóveis, de ilibado saber em telecomunicações (sic), ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, justificou o Projeto 79/2016 que transfere ao patrimônio das empresas uma vasta infraestrutura pública (rede de cabos de cobre e fibras óticas, dutos subterrâneos, edifícios, lojas, centrais de comutação, centros de controle, etc.) que deveria retornar à União em 2025 com o término da concessão, dizendo que ele (o patrimônio) já está sendo usado pelas empresas desde a escandalosa privatização ocorrida em 1998, no governo de FHC.

Se isso tivesse acontecido nos governos petistas a Rede Globo teria noticiado em edição extraordinária e repetiria por vários dias, seria um escândalo fantástico. Agora se calou. Por que será? Se esse fato acontecesse no governo petista eu diria que estaria havendo corrupção, mas hoje, não creio que o presidente Michel Temer, professor de direito, permita propina aos seus ministros e diretores de Agências Reguladoras.

Um grupo de senadores da oposição recorreu à Justiça, que até agora não se manifestou. João Rezende, então presidente da Agência Nacional de Telecomunicações confirmou o repasse dos bens públicos para as empresas privadas, e ironizou: “Na época da privatização (1998), o valor desses bens era de cerca de R$ 100 bilhões. Hoje não valem nem R$ 20 bilhões”.  Simples assim.

Enquanto isso, a educação, a saúde e a segurança pública continuam depredadas. E os novos prefeitos e vereadores fazem promessas que não cumprirão e se preparam para voos mais altos em 2018, ou para a reeleição em 2020. Os 35 partidos continuam se locupletando no Fundo Partidário e os trabalhadores estão ficando cada vez mais pobres e desiludidos.

O saque ao erário público de Pindorama continua como era antes! Os parlamentares e os governadores prometem que farão as reformas necessárias, depois de 2018, e se preparam para a reeleição. E o triste é que muitos incautos acreditam que isso acontecerá. E tem aqueles que querem tirar um naco das quirelas e pedem que deixem os “homens trabalharem”, apesar da demagogia e da hipocrisia.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

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