Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

O mercado de trabalho e a recessão econômica

A propaganda do governo federal insiste que eficientes providências de combate à recessão estão sendo implantadas em todos os níveis do poder, inclusive com a queda nas taxas de juros decretada pelo Banco Central. Na prática a recessão econômica, a inflação (apesar de ter diminuído o ritmo) e o desemprego continuam firmes. Bernardo Melo Franco não acredita nos marqueteiros oficiais, isto porque “O governo tropeça nas próprias pernas e continua a anunciar medidas que afetam os mais pobres”. Mesmo que tudo dê certo, a recuperação do mercado de trabalho será lenta e gradual, tal como acontecerá com as demais atividades econômicas.

No final do século IXX, início do século XX, devido às dificuldades tecnológicas e o baixo nível dos estoques, com necessidades crescentes, os economistas acreditavam que a oferta sempre provocaria demanda, ou seja, tudo o que se produzisse seria comercializado. Na crise de 1929 observou-se uma superprodução e um baixíssimo nível de demanda devido à ausência de renda em mãos dos consumidores, em consequência do brutal desemprego, Os teóricos tiveram que inverter a equação porque é a demanda que provoca a oferta, e a procura efetiva depende do nível de renda dos consumidores. Simples assim.

 John Maynard Keynes, no livro Teoria Geral, analisa as relações entre salário, emprego, distribuição de renda, demanda e oferta. Suas conclusões são, relativamente, incontestáveis porque podem ser observadas ao longo do tempo, particularmente no Brasil. Em um trecho de sua obra diz ele: “A quantidade de mão-de-obra que os empresários resolvem empregar depende da soma de duas quantidades, a saber: o montante que se espera seja gasto pela comunidade em consumo, e o montante que se espera seja aplicado em novos investimentos. Essa soma é o que chamamos de demanda efetiva”.

Se a demanda efetiva diminui, os empresários aumentam seus estoques e demitem mão-de-obra, baixando o nível de renda disponível para consumo, o que provoca, por sua vez, nova queda no consumo e nova rodada de demissões. O ciclo circular e acumulativo (negativo) se acelera, e o aparelho produtivo tende para a recessão econômico-social. Consumidores e produtores recorrem ao crédito bancário. Os banqueiros, para garantir seus lucros, aumentam as taxas de juros com a consequente diminuição do volume de renda disponível para consumo, além de impulsionar a inflação.

Esse fenômeno está acontecendo no Brasil de forma acentuada, apesar dos desmentidos oficiais e dos comentários otimistas da mídia sustentada pelos cofres públicos. Além dos mais de 12,1 milhões de desempregados (oficialmente) sem receberem salários, os salários reais dos que estão empregados foram corroídos, mesmo quando o salário nominal permanece o mesmo. Há que se considerar, também, o achatamento da renda dos aposentados, o escorchante sistema tributário e a desenfreada corrupção que assola os órgãos públicos e as empresas prestadoras de serviços.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo lembra, com propriedade, as palavras de Robert Reich, que foi secretário de Trabalho na gestão de Bill Clinton, em uma carta aberta endereçada aos capitães da indústria norte-americana: “Você se esqueceu de que seus trabalhadores são também consumidores”. Assim, quando o empresário demite empregados, ou quando empurra os salários para baixo, comprime a renda dos consumidores, diminuindo a demanda total do mercado de todos os produtos, inclusive da mercadoria por ele produzida.

Um exemplo prático é citado por Marcelo Sakate: “as vendas de carros novos caíram 20% (2,05 milhões de automóveis). As fabricantes de carros empregavam 130.500 trabalhadores em janeiro passado. Terminaram o ano com 121.200 funcionários”. Consequentemente, 9.300 famílias ficaram sem renda mensal, tendo que reduzir o nível de consumo e, talvez, cair na inadimplência e no endividamento crescente.

Mas esse é um fenômeno que atinge a economia globalizada. As estimativas são de que 60% dos empregos hoje existentes nos países desenvolvidos correm o risco de sumir, em médio prazo, repercutindo negativamente nos países em desenvolvimento. Segundo a OIT, a taxa mundial de desemprego continuará subindo em 2017, podendo chegar a 201 milhões de desempregados. Essa triste realidade ajudou a impulsionar a vitória de Donald Trump nos EUA.

É uma situação desagradável e preocupante para as autoridades constituídas. Entretanto, só quem está (ou já esteve) desempregado consegue avaliar a angústia e o desconforto de não ter renda para a manutenção de suas necessidades básicas. Pior ainda, considere que não são individualidades, mas sim famílias.

E o que propõe o governo brasileiro para reverter esse quadro? Pretende fazer uma draconiana contenção de gastos públicos, incluindo despesas com educação, saúde e segurança, mas excluindo o pagamento dos serviços e dos juros da dívida pública, as vantagens parlamentares e os gastos do Fundo Partidário por longos 20 anos. Enquanto isso a corrupção continua em todos os recantos governamentais e Henrique Meirelles ameaça com aumento de impostos.

O drama dos desempregados está longe do fim. Quem sobreviver verá.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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