Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

Radicalismo, ódio e intolerância

A desorganização econômica e social vigente é consequência direta da abertura desordenada dos mercados, da manipulação do câmbio e das taxas de juros pelos banqueiros e pelas empresas transnacionais ao longo dos últimos trinta anos. E esse estado de coisas é decorrente do Consenso de Washington (hoje desacreditado, mas vivo) que generalizou o neoliberalismo ora em crise. Tudo começou nos anos 1980, a década perdida dos brasileiros, época dos presidentes João Batista Figueiredo e José Sarney.

O mensalão, o petrolão, a privataria, o escândalo do Banestado e outras tantas maracutaias camufladas foram fermentadas nesse contexto.

John Williamson, do International Institute for Economy, liderando uma equipe de economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos EUA, em novembro de 1989, estruturou um conjunto de medidas que ficou conhecido por Consenso de Washington e se tornou a política oficial do Fundo Monetário Internacional em 1990. Os países emergentes que passavam por dificuldades econômicas foram convencidos (quase obrigados) a promoverem esse “ajustamento macroeconômico”.

As dez regras definidas por Williamson eram: disciplina fiscal, redução dos gastos públicos, reforma tributária, juros de mercado, câmbio de mercado, abertura comercial, investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrição, privatização das estatais, desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas), direito à propriedade intelectual. Essas medidas foram adotadas ao redor do mundo por dezenas de países, iniciando no Chile de Pinochet, sob a orientação dos “Chicago Boys”, na Inglaterra de Margareth Thatcher e nos EUA de Ronald Reagan.

A aceitação e popularização do Consenso de Washington foram facilitadas pela queda do muro de Berlim e a decadência do socialismo soviético. Estabilizar, privatizar e liberalizar tornou-se o “receituário mágico” de uma geração de tecnocratas que sobrevive até os dias atuais. Após a crise asiática (1997), da quase quebra da economia russa e da quebradeira da Argentina, o FMI abandonou o dogmatismo do Consenso. Mas era tarde e “Inês estava morta”.

A escancarada abertura da economia brasileira iniciou com Fernando Collor de Mello e se consolidou com Fernando Henrique Cardoso que implantou o mais esdruxulo programa de privatização da história. As políticas cambiais e monetárias estruturadas no governo FHC e aprofundadas no governo Lula, estrangularam a indústria nacional e alimentaram o mais eficiente sistema de corrupção implantado no hemisfério. Os políticos, as empreiteiras e os banqueiros ficaram satisfeitos com os aparentes resultados positivos e jogaram quirelas para o povão sedento. O aparelho produtivo nacional, entretanto, sofreu as consequências e o povo está pagando as contas com o desemprego, juros escorchantes e um sistema tributário desumano.

Os acordos internacionais de livre comércio também se expandiram e trouxeram frutos positivos, no curto prazo. O mundo começou a derrubar seus muros, suas barreiras e suas estruturas protecionistas: era a decantada mundialização social. Parecia que a globalização econômica provocava a fraternidade universal entre os povos. O maior exemplo foi a consolidação da União Europeia onde inimigos históricos se abraçaram: Inglaterra, França e Alemanha, atraindo os demais países e eliminando (aparentemente) muitos rancores.

O ser humano nem sempre se comporta racionalmente e deixa-se levar pela paixão e pelo ódio. A busca de melhoria social leva as pessoas a formarem grupos de interesses que, às vezes, perdem o sentido de cooperação e de fraternidade mutua, chegando mesmo às lutas fratricidas. Eis que, de repente, as coisas tomaram outros rumos. O Reino Unido decidiu sair da União Europeia e anunciou uma política protecionista, inclusive contra os imigrantes muçulmanos e latinos. A eleição de Donald Trump nos EUA foi outra lapiguachada dolorosa: revogou a adesão dos EUA à Parceria Transpacífico, autorizou a construção de um muro isolando o México e adotou severas medidas de restrições à migração, entre outras providências protecionistas que provocaram a cizânia internacional.

Na América do Sul as coisas também não vão bem. Brasil e Argentina não se entendem, apesar de os dois países adotarem o neoliberalismo. A Venezuela se esfacelou; o Paraguai e o Uruguai seguem o mesmo rumo da crise regional. O MERCOSUL fracassou, e as velhas rabugices voltaram a predominar nas relações comerciais e sociais. O narcotráfico e a violência aumentaram, na mesma proporção da impunidade, da discriminação e da intolerância.

Já passou da hora de se repensar o receituário do Consenso de Washington, sem voltar aos erros anteriores. Entretanto, Henrique Meirelles, ministro da Fazenda e representante dos banqueiros, ainda adota o neoliberalismo puro, afundando o país cada vez mais. Por outro lado, os políticos brasileiros ora são companheiros e ora são adversários entre si, mas nunca são inimigos porque ideologicamente são iguais e se protegem mutuamente do inimigo comum que é o surgimento de novos políticos.

O mesmo não acontece com a “plebe fanatizada” que desconhece os bastidores do poder: para estes os companheiros são “bandidos do bem”, enquanto que os adversários são “bandidos do mal”. É um comportamento irracional, principalmente quando os ex-inimigos mudam de partido, se tornam companheiros e se santificam como os antigos companheiros.  Deixam de serem inimigos e seus erros são esquecidos porque agora defendem as mesmas ideias e compromissos.

Desde 2016 os políticos destilam ódio e as massas populares fomentam a guerra de “honestos contra corruptos”. Em 2017, entretanto, descobriu-se que não há honestos e que a corrupção é generalizada: que os 36 partidos são facções de um mesmo “grupo” que se locupleta nos cofres públicos. Mas o ódio e a cizânia continuaram sendo lançados contra os inimigos defenestrados do poder, como se os governantes de Pindorama tivessem o padrão ético dos países escandinavos.

As 36 siglas que sugam o Fundo Partidário, em se considerando a estrutura ideológica e programática que apresentam, em nada se diferenciam, são “farinha do mesmo saco”. E seus filiados também o são: ora estão em um partido, ora em outro, dependendo das vantagens pessoais. Enquanto isso, os fanáticos se agridem, se insultam e se tornam inimigos porque para eles os bandidos sempre estão do outro lado.

Quando Dilma Rousseff tentou nomear Lula para um cargo de ministro, a Rede Globo, o PMDB, o PSD, o PSDB e os demais partidos da linha auxiliar fizeram um estardalhaço. Diziam que a Constituição estava sendo violentada para acobertar um individuo citado em delações premiadas. As massas antipetistas se levantaram denunciando a manobra que pretendia dar fórum privilegiado ao ex-presidente. A nomeação não se concretizou.

Agora Michel Temer, ex-vice-presidente de Dilma, também citado nas delações, criou um Ministério para Moreira Franco (PMDB) se safar da Operação Lava Jato e, apesar das 34 referências na delação premiada de Claudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, a nomeação foi consagrada. Depois foi suspensa pela justiça que, despois liberou, tornou a suspender e o STF autorizou a posse do famoso “Gato Angorá”.

A Rede Globo e os partidos aliados amenizaram o fato e até justificaram a jogada política. Os senadores Renan Calheiros, Aécio Neves, Romero Jucá, Jader Barbalho e Aloysio Nunes, além do faraônico José Sarney (todos citados nas delações premiadas da Lava Jato) se solidarizaram com Moreira Franco, que faz parte do grupo de “homens fortes” da presidência da República, e é considerado um dos principais confidentes do presidente.

Michel Temer justificou o ato presidencial dizendo que a nomeação teve por objetivo melhorar a administração interna do Palácio do Planalto. E como a oposição criticava a ausência de mulheres e de negros na equipe do atual governo, criou-se um ministério para uma mulher negra.

E como se isso não fosse suficiente, o deputado Carlos Marum (adorador de Eduardo Cunha) preside a Comissão Especial que analisa o sistema previdenciário. Os políticos esculhambaram com Pindorama e avacalharam com o povo brasileiro.

LANDES PEREIRA. Economista com doutorado; é professor de Economia Política.

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