Valdivino Sousa

Valdivino Sousa é Professor, Matemático, Contador, Bacharel em Direito e Escritor.  Pesquisador sobre Engenharia Didática em Matemática; Modelagem; Construção do Conhecimento em Matemática;   Modelos Matemáticos e suas Aplicações. Semanalmente escreve para o Jornal da Cidade Online e JFC.

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A Dificuldade Na Operação Matemática De Divisão e os Vínculos Afetivos

A dificuldade na operação matemática de divisão e os vínculos afetivos. Geralmente, na idade escolar é que os distúrbios de aprendizagem tornam-se visíveis.
A criança tem dificuldades em áreas como a escrita, leitura e matemática, que muitas vezes são confundidos com falta de inteligência, preguiça ou desleixo. Mas é preciso saber que nem todos os casos são distúrbios de aprendizagem. Devemos olhar a criança como um todo. Quando ela apresenta uma dificuldade de aprendizagem é preciso avaliá-la em seus variados aspectos. Vê-la como um ser biológico, pensante, que tem uma história, emoções e desejos.

Os problemas de aprendizagem podem ser vistos como sintomas. E por isso crianças que apresentam dificuldades em operações matemáticas estariam representando um sintoma. Aqui vou me deter apenas às crianças com problemas na operação matemática da divisão. Tal dificuldade mostra uma disfuncionalidade do sistema em que a criança está inserida. Portanto, pode ser entendido como uma mensagem, um aviso de que algo precisa ser redimensionado. A origem das dificuldades ou problemas de aprendizagem não se relaciona apenas à estrutura individual da criança, mas também pode estar relacionada à estrutura familiar a que a criança está vinculada. A família é o primeiro grupo que o indivíduo participa. Sua dinâmica impõe alguns tipos de vínculos que irão interferir na formação da identidade da criança – somando-se aos fatores genéticos e sociais – como também na sua modalidade de aprendizagem, que vai se formando de acordo com as primeiras aprendizagens na família e sendo modelada ao longo da vida. A modalidade de aprendizagem se constrói pelo modo como os pais ou cuidadores reconheceram e desejaram a criança como sujeito que aprende e a significação que o grupo familiar deu ao ato de conhecer. Por isso a aprendizagem não começa na escola, e sim, a partir das primeiras relações com a mãe, com o pai e com a família. No início da sua existência, a criança vivencia um estado de indiferenciação e o adulto tenta ser capaz de satisfazer todos os seus desejos. Quem cumpre o papel de mãe é que se torna responsável por decodificar as necessidades e satisfazê-las, dentro do possível, frustrando-a quando pré ciso.

A frustração é que permite tomar contato com o senso de realidade e começar a perceber que existe o outro. Tanto a forma como é exercida a maternagem quanto à disponibilidade da figura paterna no trato para com o filho, influenciarão na dinâmica dessa família. As condições psíquicas para o aprendizado estão em íntima relação com o desenvolvimento dos primeiros vínculos afetivos e, no decorrer deste processo, com o próprio desenvolvimento da personalidade. A criança com dificuldades em fazer operações matemáticas de divisão pode estar sofrendo alterações em seus vínculos familiares. Alterações essas que vão desde a separação dos pais ao nascimento de um irmão. Questões do tipo “ Como me dividirei entre meu pai e minha mãe após a separação?” “Como dividir meu quarto com o novo irmãozinho?” “Como dividir a atenção de meus pais com meu irmão?” serão verdadeiros impasses na vida da criança se os pais não souberem sustentar as dificuldades de frustração da criança. É papel da família sustentá-las junto com a criança. Mas como será essa dinâmica fará toda diferença na forma da criança encarar a nova realidade dela. É preciso saber se existe uma expectativa da família para com aquele que aprende. Essa expectativa interfere diretamente na aprendizagem; ou seja, existe uma dinâmica de encorajamento diante de novas situações ou diante dos desafios? Ou será que existe um desejo inconsciente de que esta pessoa permaneça dependente emocionalmente para sustentar alguns segredos (como, por exemplo, comprar a criança com presentes para que, na separação, ela prefira morar com quem dá mais coisas)? Dessa forma como será que ficará o vínculo da criança com seu pai ou sua mãe? Provavelmente nada saudável. E não sabendo como dividir seu afeto entre os pais, nada mais coerente do que levar o sintoma para as operações matemáticas de divisão.

O problema não está em não conseguir realizar a conta de dividir, e sim em como se dividir nas novas situações da vida. Dividir a atenção dos pais com o irmão, dividir os finais de semana entre a casa da mãe e a casa do pai, dividir o carinho entre as amizades da antiga escola para as da nova escola, entre outras experiências que obrigarão a criança a ter que enfrentar e se dividir entre os novos vínculos. Portanto, dependendo de como aconteça esse vínculo com a aprendizagem, de como esteja a autoestima de quem aprende e de seus interesses conscientes ou não, a criança poderá trazer suas dificuldades existenciais para as operações matemáticas. Para que a pessoa se considere autora do seu pensamento, é necessário lhe oferecer a oportunidade de experienciar novas situações, correr riscos de forma saudável. Desde criança, por meio das brincadeiras, jogos e contato com os objetos do mundo a sua volta, essa possibilidade pode se concretizar ou não, dependendo da permissão que lhe for dada pelos pais. Saber que a chegada de um irmão não a fará perder o carinho dos pais, saber dividir a atenção, tudo isso faz parte da vida dela agora, e os pais podem ensina-la a agir dessa forma através de jogos e das situações que vão aparecendo a cada dia, dando a oportunidade da criança vivenciar a frustração. Só dessa forma, poderá enfrentar os obstáculos e, com o apoio necessário, construir uma autoestima positiva, baseada na confiança em si mesma. O problema de aprendizagem pode ser originado do fato do sujeito não confiar na sua capacidade e, consequentemente, não ter autoria de pensamento. Muitas vezes fica fixado no resultado e não no processo como um referencial para o seu crescimento. Portanto, o significado dado à aprendizagem pelo grupo familiar, o modo como os pais desejam essa criança como um sujeito que aprende, irão influenciar na construção da modalidade de aprendizagem. A dificuldade de aprendizagem pode ser a causa de um transtorno específico por parte do sujeito mas pode também ser uma linguagem para dar conta de um meio familiar disfuncional. É preciso buscar o potencial que existe em cada pessoa, não enfatizando a falta, mas entendendo que a origem do problema de aprendizagem não se encontra somente na estrutura individual. O sintoma se baseia em uma rede de vínculos familiares, que se entrecruzam com uma estrutura individual. A criança suporta a dificuldade, porém necessariamente seus pais devem ser os primeiros a darem o sentido.


Valdivino Sousa é Professor, Matemático, Contador, Bacharel em Direito e Escritor.  Pesquisador sobre Engenharia Didática em Matemática; Modelagem; Construção do Conhecimento em Matemática;   Modelos Matemáticos e suas Aplicações.  Site: http://www.valdivinosousa.mat.br



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