Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

A sociedade, os usos e os costumes evoluíram

Até o final dos anos 1950, início dos anos 60, muitos homens ainda usavam chapéu como parte da indumentária cotidiana. Quando ia cumprimentar alguém, tirava o chapéu em sinal de respeito. Nessa época não se falava palavrões na presença de senhoras e senhoritas; os cavalheiros se levantavam quando da aproximação de uma mulher porque esse comportamento fazia parte da etiqueta, e era esperado. Nos bailes os casais (homem e mulher) dançavam aos pares, raramente sozinho, mesmo em se tratando de rock, twist e outras novidades. Aos poucos as coisas foram mudando e hoje é comum as mulheres falarem palavrão em público e os homens permanecerem sentados quando as senhoras e senhoritas se aproximam.

As pessoas tendem a definir antecipadamente o modo de se vestir, falar e se comportar em determinadas situações e ambientes – é a moda. Quando tudo acontece conforme as normas previstas diz-se que o evento foi convencional, formal, de acordo com as regras: um evento protocolar, ritualístico, oficial. Às vezes ocorre o formal grotesco, como nas sessões parlamentares onde os nobres representantes do povo se insultam e se desacatam mutuamente, tudo “cerimoniosamente”.

O informal acontece quando as coisas ocorrem espontaneamente, não cerimoniosa, não protocolar, mais a vontade: uma festa em família, uma reunião entre amigos. As festividades de Momo (o carnaval) é a explosão da informalidade, onde vale tudo, inclusive dançar homem com homem e mulher com mulher, segundo Tim Maia.

No mundo dos negócios, quando se chega a um acordo, propõe-se a formalização do acordado por meio de um contrato. Às vezes, quando há confiança e respeito mutuo, os negociadores fazem acertos informais e não documentados oficialmente. Nas correspondências observam-se, também, os aspectos formais (quando a mensagem tem caráter oficial, de negócio ou solene - um convite de casamento ou de formatura) e informais, coloquiais, quando a mensagem é entre familiares ou amigos.

Educação formal é adquirida nas instituições escolares seguindo ementários e currículos previamente definidos e preparados por especialistas. Educação informal, ao contrário, é empírica e conquistada ao longo dos tempos, no dia a dia. Atividade econômica formal é a que obedece todas as “formalidades” burocráticas exigidas pelas autoridades fiscais; e atividade informal é quase clandestina porque não está legalizada segundo os parâmetros governamentais, não são fiscalizadas nem controladas por quem quer que seja. Algumas atividades informais são consideradas criminosas, como o contrabando, o tráfico de drogas e a exploração sexual.

Por outro lado, não se deve confundir formalidade com trâmites burocráticos, emperrados e, muitas vezes, injustificados e grosseiros. O atendimento em um órgão público deveria, obrigatoriamente, ser formal, cordial e sem excessos burocráticos. Uma cerimônia de casamento, no civil ou no religioso, sempre é formal, apesar das informalidades causais.

A solenidade de colação de grau (formatura de curso superior) já foi formal, seguindo rígidos protocolos. Até o final do século XX, início do XXI, nas Universidades Públicas Federais, depois da solene entrega dos “canudos”, falava o orador da turma, o paraninfo e o professor que presidia a mesa, e encerrava-se o evento sem qualquer firula. Em determinada formatura a “comissão organizadora” solicitou à reitoria autorização para que o Patrono da Turma (um ex-ministro muito popular na época, mas que fazia denúncias contra a política econômica do governo) fizesse uso da palavra. Foi negado sob a legação de que quebraria o protocolo, e isso era inadmissível.

Certa ocasião, na UFMS, o professor Mônaco (ex-diretor regional da NOB) era patrono de uma turma de engenharia civil e quis homenagear os formandos com uma placa de prata personalizada – o reitor não permitiu porque não estava previsto no cerimonial aprovado pelo MEC. Ao final da cerimônia o patrono saiu à procura dos formandos para entregar o “mimo”.

Na semana passada participei das festividades de formatura de uma turma de uma das universidades públicas de nosso Estado. O curso é o mais nobre da estrutura da instituição. O culto ecumênico (um padre, um pastor luterano e um orador espírita) foi formal e solene, muito agradável. O jantar também foi quase formal (a maioria dos homens usavam terno, e as mulheres estavam elegantes), ocorrendo algumas escorregadelas devido às propagandas da empresa de eventos e as “informalidades” (algumas grosseiras – em determinado momento os formandos foram convidados a dançarem “Na Boquinha da Garrafa”: e todos dançaram) da banda que animava o evento.

A cerimônia solene da colação de grau (entrega dos canudos) exageradamente informal. Ao chegarmos ao anfiteatro da Instituição Universitária uma pergunta ocorreu às nossas mentes: estaríamos no lugar certo? Isto porque grupos de pessoas trajando camisetas com fotos de um ou outro formando, alguns de calça jeans, outros de bermuda e chinelo, muitos portando cornetas, apitos, instrumentos de percussão, cartazes, faixas e balões, numa alegria própria de quem chega a um estádio para assistir um jogo de futebol entre Flamengo e Corinthians. Os que chegaram primeiro guardavam lugares para os retardatários das torcidas organizadas. Acomodamo-nos nas fileiras mais altas, olhando para o auditório quase vazio mas com todas as poltronas “reservadas”.

Os formandos deram entrada ao recinto tendo como música de fundo um “pancadão” digno de um baile funk, muitos dançando e levantando os braços em saudação ao público. O barulho foi ensurdecedor: as cornetas estridentes, os apitos, os tamborins e os surdos foram acionados, sempre acompanhados de gritos a cada anuncio de um novo doutor. Depois da entrega dos “canudos” falou a oradora da turma, o paraninfo, o patrono, o professor que deu o nome da turma. Diversos formandos fizeram uso da palavra: agradecendo a Deus, agradecendo aos professores em geral, agradecendo aos pais e parentes presentes, homenageando aos pais e parentes ausentes, homenageando aos pacientes. Depois vieram as homenagens aos “mestres especiais” com entrega de placas e abraços emocionados.

Quando pensávamos que não haveria mais homenagens, o pessoal da “Atlética” adentrou e começou a homenagear com medalhas e diplomas os formandos que ao longo de seis anos, de uma forma ou outra, haviam participado de alguma atividade desportiva. Depois falou a professora que representava a Reitora naquele ato.

Finalmente entrou uma bateria de escola de samba e a alegria tomou conta dos presentes. Os novos doutores mostraram que sabem sambar e cantar. Tudo na maior informalidade possível. Ou talvez na formalidade dos novos tempos.

LANDES PEREIRA. Economista com doutorado; é professor de Economia Política.

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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