Rosângela Moro conta a sua história de vida ao lado de Sérgio Moro

Rosângela Moro, esposa  e advogada do marido, numa ação movida pelo ex-presidente Lula.

Desde março de 2014 ela teve sacudida sua rotina, em razão do início da maior operação contra corrupção da história, a 'Lava Jato', comandada brilhantemente pelo juiz Sérgio Moro, com quem é casada há 17 anos.

Na entrevista feita pela revista Cláudia, Rosângela fala da infãncia, do casamento, da Lava Jato, entre outros assuntos.

Vale a pena conferir.

Como foi sua infância?

Sou filha de uma alfabetizadora de escola pública e um mestre de obras; tenho uma irmã mais velha. Fui feliz sem eletrônicos ou exageros. Eu ganhava uma calça no aniversário, em maio, e uma blusa no Natal. Nunca as duas juntas. Não viajava nem comia fora. Meu pai pagou nossos estudos, coisa que ele não teve. Queria uma filha doutora e impôs: “Pode escolher ser médica, engenheira ou advogada”. Como não gosto de sangue e de construção, entrei no curso de direito, aos 17 anos.

Quando conheceu o juiz?
Meu marido foi meu professor de direito constitucional. Eu estava namorando; ele tinha uma pessoa. Um ano depois de formada, reencontrei Sergio em uma festa. Quando nos casamos, há 17 anos, ele já era juiz. A cerimônia foi em 30 de janeiro, passamos fevereiro em lua de mel e em 1º de março nos mudamos para Cascavel, a 400 quilômetros de Curitiba. Sem parentes por perto, ficamos muito unidos – até porque, se brigássemos, não teríamos com quem conversar. Como Moro era o único juiz da cidade, ficamos expostos. Desde então comecei a seguir a cartilha dele – não aceitar favores nem presentes.

Moro declarou que não imaginava que a Lava-Jato ganharia tal proporção. Houve um momento em que ele avisou, em casa, que as coisas ficariam complicadas?
O Sergio é uma pessoa muito equilibrada. Ele não traz a Lava-Jato para dentro de casa. Até porque é juiz, não investigador. Então, em nenhum momento disse que as investigações estavam se aprofundando, porque não faz parte do trabalho dele. Em casa, não pergunto quem vai ser preso, nem quando, nem por quê. Não tenho nenhuma informação privilegiada, exceto quando se refere à segurança da família.

Você se tornou defensora de seu marido na ação que alega abuso de autoridade por parte do juiz. Aceitou a ideia de defendê-lo de imediato?
Defender Sergio? Claro, de imediato. A defesa não é da Lava-Jato. É dele, magistrado e marido, porém como se fosse qualquer cliente. E não é a primeira vez que advogo para ele.

Não teme que, ao misturar as esferas de trabalho, o relacionamento, que vinha preservando até aqui, possa ser afetado?
Não.

A sua área é tributarista e, em sua carreira, especializou-se no direito das associações. Sente-se confiante para atuar na área criminal?
Não atuo nem pretendo atuar na área criminal. Foi uma exceção por se tratar de uma questão pessoal, o que não significa que não possa fazê-lo com técnica.

Tê-la como advogada de defesa chama ainda mais atenção para o caso.
Qualquer coisa que diga respeito a ele passou a chamar a atenção. Quando vamos a uma festa, é para chamar a atenção? Para sair na coluna social? Devemos então nos privar de fazer o que pretendemos? Deixaremos de ir a algum evento porque a mídia irá divulgar? Aí, sim, a Lava-Jato passaria a entrar na minha família. E eu não procurei a imprensa para divulgar isso.

Acusados alegam que a Lava-Jato tem foco político-partidário. Receia que esse tipo de motivação possa afetar o julgamento da ação em questão?
Minha atuação é puramente técnica e acredito nas instituições. TRF, STJ e STF proferem julgamentos técnicos.

A ação correrá sob segredo de Justiça?
Cabe ao Tribunal decidir isso. Da parte do cliente, não se vislumbra nenhuma necessidade.

Qual é o risco, em sua avaliação, que o juiz Moro se torne réu na ação proposta pela defesa de Lula?
Confio no Judiciário.

Procuradora da Federação das Apaes, você defendeu no STF os alunos com deficiência intelectual. A mídia noticiou mais o fato de ter chegado lá sob escolta que a sua sustentação oral. Isso a incomodou?
Fui lá nove vezes esperando pelo julgamento. O Supremo decidiu que a pessoa com deficiência, para estudar, deve pagar o mesmo valor que os outros alunos, sem taxas extras, e receber assistência para uma educação efetiva. Fiquei feliz, representei 250 mil pessoas. Mas não tenho controle sobre o que a mídia divulga.

Como vê a atuação da ministra Cármen Lúcia na presidência do Supremo, criticado por manter Renan Calheiros na condução do Senado, mas considerado avançado por colocar em pauta a ação que admite o aborto se a mulher estiver contaminada com zika?
Essa eu vou passar. Envolve a ministra, é da minha atividade e também se relaciona a políticos.

Considera um direito interromper a gravidez em caso de zika?
Concordo com a decisão do Supremo: o aborto deve ser possível até o terceiro mês (em referência ao entendimento firmado no STF, em novembro do ano passado, sobre processo específico de funcionários de uma clínica clandestina, no Rio de Janeiro, processados por realizar abortos).

O Brasil registra grande desigualdade de gênero e sete assassinatos de mulheres por dia. Como você vê as pautas do feminismo?
As reivindicações são justas. Compreendo. Defendo direitos iguais, mas não gosto de radicalismo. Sou pelo respeito à diferença de opiniões.

O que considera radicalismo?
Aquelas situações: “Um ministério tem que ser dividido em iguais frações para homens e mulheres”. Não concordo com cotas. Acredito mais na capacidade técnica para a tarefa.

Acha que estamos representadas com apenas 10% de mulheres no Congresso Nacional?
Eu me preocupo mais com a qualidade da representação, independentemente de ser homem ou mulher.

Você foi criticada por feministas por criar a página “Eu Moro com Ele”? Não teme ser vista como a mulher atrás do homem?
Não me criticaram. E eu adoro a página. Fiz um trocadilho. “Moro com ele” é como “Moro num país tropical”… Muitos acharam que fiz por ser ciumenta, querer demarcar… Não é nada disso. Sei do meu valor, sou responsável pelo meu sucesso. Aos 16 anos, já trabalhava como secretária. No começo da operação, me sentia desconfortável por ser a esposa do Sergio Moro, e não mais Rosangela Wolff Moro. Com o tempo, vi que era muito maior que eu e não conseguiria me dissociar disso. Ainda sobre as feministas: adoro gentilezas. Sergio abre a porta do carro para mim até hoje, e eu acho isso o máximo. Fiz a página no Facebook para agradecer às pessoas que mandavam bonés, santinhos, caricaturas, desenhos, artesanato e mensagens de fé. Decidi tirar fotos dos presentes e postar. Perguntei se Sergio se importava. Ele gostou. Também chegam recados assim: “Vocês não deviam receber presentes, pega mal”. Entendo a preocupação. Mas são mimos de valor afetivo. Não tem nada de joia, carro. No máximo, camisetas com frases engraçadas. Eu posto e perguntam onde estou vendendo. Explico que não estou vendendo nada.

Nos vídeos que mostram o juiz sob aplausos, você está sempre muito vaidosa dos feitos.
Sim. Sempre o tive como referência e o admiro. Mas ele está apenas cumprindo seu trabalho. Essa situação incentivou outros magistrados a mostrar que o Judiciário pode ser forte.

E a foto do juiz vestindo a camiseta com a frase: “Em Rô eu acredito”?
Aquilo foi uma piadinha. A gente brinca em casa. Qualquer coisa que coloco ali repercute demais.

O vídeo em que ele lê um texto sobre corrupção, de Theodore Roosevelt, ex-presidente americano, foi ideia sua? Ou o juiz pede para gravar?
Ele não pede. Alguém até criticou o vídeo: “Você tremeu muito”. Gente, é uma postagem caseira. Nas próximas vou me esmerar. Era noite de sábado, ele sentou com o livro e, do nada, começou a ler em voz alta. Eu disse: “Que bonito. Escrito há tanto tempo e tão atual. Posso gravar? Posso postar?”. Coincidentemente, foi na véspera das eleições. Mas não planejamos.

Para conversar com CLAUDIA nesta tarde, você conversou com o juiz? Ele achou uma boa ideia?
Você sabe que a gente nem se viu nos últimos dias? Eu estava em um compromisso em Nova York e ele no Mato Grosso. A gente se encontrou em São Paulo, mas só falei com ele por e-mail. Daí ele foi para a Alemanha e eu para Brasília. Hoje vou perguntar o que ele acha.

Você sempre o consulta?
Sim. Tenho receio de prejudicá-lo.

Por questão de segurança, o juiz deixou a bicicleta e a corrida. O que mudou na sua rotina?
A regra de ouro da segurança é não falar em segurança. Senão, ela não funciona.

O assédio dos fãs fez a família alterar os hábitos?
O que queremos fazemos. No entanto, a gente se privou de coisas por causa do assédio. Embora as pessoas cheguem com carinho, às vezes eu falo: “Desculpem, não vou tirar fotos”. Se tem selfie com um, logo vem outro e outro. São poucos momentos em família. É preciso preservar a intimidade e curtir.

A Espanha criou o termo “juiz-estrela” para magistrados que viram celebridade. Tudo que se relaciona a Moro é manchete, incluindo o salário. Esse tipo de exposição é ruim?
Não nos afeta em nada o que as pessoas comentam. O Portal da Transparência traz os rendimentos dos servidores públicos. E juiz-estrela é um título que… Alguns o personificam como herói. Em casa não tem isso. Sergio é juiz há 20 anos; a Lava-Jato tem só três. Já estávamos acostumados. E a operação é institucional. Da Polícia Federal, do Ministério Público e dos 30 servidores que atuam no gabinete do Sergio.

Segundo a mídia, chegam insultos ao juiz e ameaças de morte. Como lidam com isso?
As pessoas não são obrigadas a concordar. Críticas ajudam a crescer. Algumas ofensas passam do limite e a gente apaga. Uma amiga me ajuda a filtrar. Dedico uma hora por dia ao Facebook.

Chegam ameaças de morte?
Essa eu passo.

Moro se inspira no juiz da operação Mãos Limpas, o italiano Giovanni Falcone, que foi assassinado. Você reza, pede ajuda ao campo da espiritualidade?
Não tenho medo, me sinto blindada pelas orações dos fãs e rezo também. Na igreja, pedi ao padre uma bênção especial. Quando ele soube quem eu era, falou por 30 minutos de política. Nos 20 segundos finais, disse: “Mantenha a serenidade”. Então, concluí: “É, Rosangela, só se fala em Lava-Jato. Até o padre”. Ali caiu a segunda ficha: “Isso é muito grande!”. A primeira havia caído em agosto de 2015, nas manifestações. Faixas e cartazes apoiando a operação e personificando Sergio como o grande admirado. Eu via pela TV em lágrimas. De verdade. E pensei: “Nossa, tenho em casa uma das engrenagens que está mudando o país”. A corrupção tira dinheiro da escola, da saúde, é um crime brutal. A população quer ver o Brasil se livrar da crise e voltar a crescer. Eu também. Quando a multidão gritou: “Mooooorooo!”, postei: “#Emocionada”. Fui à rua de verde e amarelo. Completamente no anonimato. Tanto que não repercutiu em lugar algum. Na página já repliquei convocação para atos públicos, do (movimento) República de Curitiba.

A queda do avião em que viajava o ministro Teori Zavascki fez com que os cuidados de segurança de sua família se intensificassem?
Sobre nossa segurança, não comento. Sobre o doutor Teori, o que posso dizer é que fiquei consternada com esse trágico acontecimento.

Setores da sociedade defenderam a indicação de seu marido para ocupar a vaga de Teori no STF. Vê essa possibilidade com bons olhos?
Nada a comentar.

Em dezembro, uma pesquisa do Datafolha apontou Moro em segundo lugar para presidente da República, na frente do senador Aécio Neves e do deputado Bolsonaro… Como vê isso?
Sergio já se manifestou publicamente. Chance zero de ele se imiscuir na carreira política. Nasceu para ser juiz.

Você respondeu com um “PQP” aos opositores que a associaram ao PSDB, o que, como eles dizem, levaria Moro a poupar o partido.
Respondi assim às mentiras que as pessoas publicam: “Nunca fui advogada do PSDB, do PT, do PDT nem da PQP”. A acusação se deve ao fato de o ex-vice-governador do Paraná (Flávio Arns, do PSDB) ser umbilicalmente ligado à causa das pessoas com deficiência. Ele me indicou para ir, no lugar dele, a uma audiência pública em Brasília para defender uma lei relacionada ao setor. Não sou nem nunca fui advogada dele.

O livro Lava-Jato – O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação Que Abalou o Brasil, do jornalista Vladimir Netto, vai virar série da Netflix, com direção de José Padilha. Que atriz quer ver no seu papel?
Não tenho informação nem sei quem fará o papel. É ficção, né? Deve ser sobre a ação institucional. Não é uma série para a Rosangela.

Você deu autógrafos no lançamento desse livro, não?
Foi engraçado. Alguém me perguntou: “Você autografa?”. Respondi: “Eu? Não tenho participação”. Então, só fiz um coraçãozinho ao lado da assinatura do Sergio. As pessoas abordam com carinho e cabe a mim retribuir.

Sergio Moro é muito assediado pelas mulheres?
Sim. Ele me mostra as mensagens: “Olha aqui, que engraçado”. E recebe também músicas românticas de madrugada. Não me preocupa. Enquanto o assédio estiver longe…

As críticas a ele, em geral, são de que prende muito, leva insistentemente à delação e divulga. O que acha?
Não vou falar nada sobre o trabalho dele. Passo.

Uma foto de Moro com Aécio Neves virou meme, viralizou e serviu para os adversários o acusarem de julgar de forma seletiva. Vocês se irritaram com esse episódio?
Achei até divertido. Mas a foto foi divulgada de maneira infeliz.

Você pede ao marido conselhos para realizar o seu trabalho?
Ele é um leitor voraz. No máximo, peço indicação de um autor que escreveu sobre tal assunto.

O seu escritório tambem defende associações de pacientes com doenças raras. De que forma?        
Vi em uma das Apaes, em 2008, um menino que usava um remédio que custava 8 mil reais. Eram necessários três por mês. Estudei um meio jurídico de obter o medicamento, já que o SUS não fornece. O mesmo caminho adotei na defesa de pacientes de Niemann-Pick C (doença em que moléculas gordurosas se acumulam no fígado e no cérebro, afetando o sistema nervoso), que gastariam 48 mil reais por mês.

Na carreira, ajuda ou atrapalha ser a mulher do juiz Moro?
Se eu fosse para a área empresarial, talvez atrapalhasse. Empresários poderiam ficar com receio. Ser a esposa não atrai mais cliente, em absoluto.

No site JusBrasil, você ilustra o perfil em que oferece seus serviços com uma foto ao lado dele.
No site JusBrasil? É, tem uma foto minha com ele, mas não me beneficia.

Você ajuda a comprar os ternos escuros, as gravatas e as camisas pretas do juiz?
Não.

Existe patrulha sobre o que você veste e quanto gasta? Um Patrícia Viera (vestido que levou como opção para fazer as fotos) não é barato.
Admiro estilistas que criam uma moda ética e sustentável. Meu guarda-roupa não é caro. É o que tenho condições de usar. Mas em algumas ocasiões… O vestido foi uma gentileza da Patrícia Viera (a assessora intervém: “Foi um empréstimo”).

Circulou a informação de que o juiz fará um ano sabático fora do país. Você irá junto?
Passo.

Você cozinha?
Pouco. Minha rotina não permite.

Quem se responsabiliza mais pela educação dos filhos?
O Sergio sempre foi participativo. Nossa filha mais velha acordava de noite, ele ia pôr para dormir. Com a sobrecarga de trabalho dele, ficou a meu encargo. Me desdobro para conciliar tudo. Só depois da primeira gravidez deixei minhas atividades por um ano e meio e não foi legal. Talvez a cabeça, desocupada, se preocupe com coisas que não são importantes. Sou muito, como posso falar? Adoro trabalhar – são 12 horas por dia. Delego a administração da casa a uma pessoa que já é praticamente da família. Tenho suporte para a locomoção das crianças e quando viajo conto com as avós.

Está realizada na profissão?
Ainda quero escrever um livro sobre a judicialização da saúde.

Qual é o programa de férias preferido pela família?
Adoro praia. E passar frio na Europa. Um passeio inesquecível foi em Jericoacoara, no Natal. Dei 20 reais para cada filho comprar presente de amigo secreto. Passamos, os quatro, com o pé na areia, comendo salada e camarão. Quando acabar a Lava-Jato, quero viajar por uns quatro meses.

E o inverno europeu inesquecível?
Teve vários. Principalmente, os que passamos em Paris.

O que acha de as pessoas, desgostosas, afirmarem que vão deixar o país?
No nosso caso, o Sergio é funcionário público, não temos essa opção. Acho triste as pessoas irem embora por não ver perspectivas para elas e seus filhos.

E sobre pedirem, em passeata, a volta dos militares ao governo?
Eu passo. Não posso me manifestar.

Nesta entrevista, você precisou medir as palavras? Tem tomado cuidado com o que fala?
Sim, sim. Só digo o que quero em casa. Na rua, aprendi a me policiar.

O que não perguntamos e você gostaria de contar?
Anotei umas coisinhas (tirou um caderninho da bolsa). Tem uma muito bacana, relacionada a mim: uma associação catarinense elegeu madrinhas para vestirem bonequinhas que foram, depois, à leilão. Achei sensacional uma Barbie de Rosangela, com o mesmo coque e vestido preto que usei em Nova York (acompanhando Moro, premiado pela revista Time). Não sei por quanto saiu a minha Barbie, mas fiquei lisonjeada.

Que instituição promoveu o leilão?
Chama-se Soroptimistas, acho. Desculpe, é tanta informação. Acabo não guardando detalhes. Mas o projeto era lindo.

O crédito da Matéria é da Revista Claudia e pode ser visualizada neste link: VEJA AQUI

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