Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Era uma vez um balão de gás

Uma das alegrias das crianças, numa época em que se brincava nas ruas, era correr arrastando balões coloridos inflados a gás. Era uma festa a chegada de circos e parques de diversões trazendo o homem das “bexigas” e o seu enorme cilindro de gás. E o descuido das crianças era fatal, quando um balão sumia no céu para o desespero de seu pequeno condutor. Hoje raramente se vê crianças admirando esses balões coloridos.

Houve ainda uma época em que automóveis de passeio e de trabalho começaram a ser objetos de desejo de muito poucos endinheirados. Era o sensacional “Ford Modelo T” ou “Ford Bigode”. Aliás, esses fordinhos trilharam e forjaram as estradas da fronteira com o Paraguai e do Pantanal, substituindo os carros de bois que traziam e levavam mercadorias e passageiros. Ao mesmo tempo, o mundo também mudou acelerado pelas transformações e rupturas provocadas pelos avanços da tecnologia nas comunicações, na energia, nos transportes e outros mais, e em decorrência dos conflitos mundiais que aconteceram até meados do século XX.

A Segunda Guerra Mundial foi um desses acontecimentos que afetou o Brasil e enviou soldados para o “front” europeu, onde muitos perderam suas vidas. Enquanto o território brasileiro permaneceu distante da crueza do front, esse grande conflito permitiu que o país se voltasse ao esforço de guerra, produzindo bens de consumo para o abastecimento das áreas conflagradas. Isso permitiu, coisa rara na história brasileira, um acúmulo favorável no saldo da nossa balança comercial.   

Com o fim da guerra, as nações vitoriosas e poderosas, mas endividadas, passaram a “empurrar” sucatas industrializadas e quinquilharias diversas aos países pobres, como o Brasil. Em pouco tempo voltamos a amargar o velho e histórico déficit da balança comercial. Era presidente, na época, o general Eurico Gaspar Dutra, cuiabano de “chapa e cruz”. Em contrapartida, a modernidade espalhou e democratizou bens de consumo por todos os rincões brasileiros.

O velho fogão de lenha foi superado pelos fogões a gás. As primeiras geladeiras domésticas que surgiram na praça podiam funcionar a gás ou a querosene, onde a energia elétrica ainda era um luxo. O petróleo tornou-se vital, com seus derivados, na construção e no desenvolvimento das grandes potências. Foi a peça fundamental na mobilização das tropas no conflito mundial, e motivou muitas outras guerras pelo seu controle.

Pouco tempo depois, o governo de Juscelino Kubitschek com seu plano de desenvolvimento para avançar “cinquenta anos em cinco”, teve como prioridade o setor de transportes com a implantação de indústrias estrangeiras de montagem de carros. O país foi paulatinamente inundado de automóveis de todos os tipos, mas com uma malha rodoviária muito limitada, frágil e esburacada como queijo suíço.

De lá para cá, dependendo do fornecimento e das oscilações no mercado internacional de petróleo, e sofrendo suas cíclicas crises, o Brasil anunciou outros caminhos (incluindo a Petrobrás e seus esforços para desenvolver tecnologia de ponta), com o surgimento de uma idéia luminosa: utilizar o gás como alternativa barata para movimentar a gigantesca frota de veículos do país. Assim, incentivados pelo merchandising do governo, muitos proprietários de carros de passeio e utilitários embarcaram nessa canoa furada. Mas, ao “vender” no mercado interno a panaceia do gás, o governo federal não desenvolveu o setor das indústrias de base e de infraestrutura, como a construção de termoelétricas, fundamentais para a economia nestes tempos de crise energética e de “apagões”.

O governo tirou ainda outro coelho da cartola:  investiu nas reservas de gás boliviano e na construção de um imenso gasoduto. Mas esqueceu de combinar com os bolivianos o que eles deveriam fazer diante dos investimentos brasileiros em seu país. O atual (que parece eterno) presidente da Bolívia, Evo Morales, cumprindo suas promessas de campanha, deu uma rasteira na política energética brasileira, quebrou contratos, nacionalizou a Petrobrás em seu território, impôs arrochos tributários e provocou um desastroso prejuízo na nossa economia. Até os corumbaenses ficaram no prejuízo, pois esperavam uma injeção de desenvolvimento a partir do gasoduto e da construção (abortada) de termoelétricas na região.

Além do fantasma do “apagão elétrico”, tivemos em certa época um “apagão de gás” no eixo Rio-São Paulo, deixando muitos donos de carros movidos a gás veicular a pé e com cara de trouxas, e ainda empresários e responsáveis por termoelétricas, apavorados.

Na época, muito espertamente, o presidente Lula reagiu com declarações minimizando a crise do gás e afirmando que foi uma “coisinha de nada” e que não faltaria gás. Na contramão dessas declarações, o seu ministro de Minas e Energia, Nelson Hubner, deitou falação desaconselhando conversões de carros a gás, deixando como bobos os empresários que acreditaram na propaganda do governo e investiram na prestação de serviços para a modificação dos carros e na adaptação de postos de combustível. O governo de Mato Grosso do Sul gastou milhões para quebrar o asfalto e instalar uma caríssima rede de distribuição de gás.

Até a minha sogra, Dona Maria Ignez, que não é a velhinha de Taubaté, mas acredita em tudo que vê e ouve na televisão, ficou ressabiada diante do anuncio feito pela então ministra Dilma Roussef, sobre as maravilhosas descobertas de novas reservas de petróleo e de gás. 

Dilma tornou-se presidente, sucedendo Lula e nada mais nada foi dito sobre a necessidade de investir pesadamente em novas tecnologias para explorar os milhares de barris de petróleo, que dizem existir nas profundezas do mar.  Seu governo acabou, explodiu o escândalo do Petrolão, e todos sabemos em que situação vivemos hoje. A Petrobrás continua pelo terceiro ano consecutivo a amargar prejuízos. Agora é colocar todas as nossas esperanças na Lava Jato e nas possíveis mudanças na política de investimentos em energia e demais urgências.

O futuro de estabilidade econômica, de desenvolvimento sustentável e de (pelo menos) diminuição da desigualdade social está voando nos céus como um balão de gás colorido, lindo, mas quase irrecuperável.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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