Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

O primeiro ‘isso nunca me aconteceu antes’ a gente nunca esquece.

Primeiro porque efetivamente nunca aconteceu mesmo - logo, ainda não se sabe como lidar com um evento dessa magnitude.

Segundo, porque - como a morte e a megassena - a gente acha que isso só acontece com os outros.

Doce ilusão. 

Ledo engano.

Se ainda não te aconteceu é porque a falência múltipla do órgão está só aguardando a ocasião propícia para o vexame ser ainda maior, e ter mais repercussão.

Falhar em casa, com a legítima esposa, naquela burocrática e rotineira transa de sexta-feira, é o menor dos males - e mera questão de tempo. 

Frequentemente, ela nem nota. 

Ou até nota - e agradece a Nossa Senhora de Fátima a graça alcançada.

Já falhar no motel, num primeiro encontro, aquele que você cavou semanas a fio e no qual apostava todas as suas fichas... aí, sim, é fogo.

Pior é quando já aconteceu antes e você, além de ter que mentir dizendo que não, precisa lidar com a sombria perspectiva de talvez esta não ser a última vez em que isso te acontece de novo pela primeira vez.

O que fazer quando não há o que fazer?

Conheço (mas só de vista!) gente que já passou por isso, e o que posso dizer é:

1. Aja naturalmente. 

Mas não tão naturalmente que pareça que isso te acontece todo dia.

2. Fale o menos possível. 

Nada de mimimi e, muito menos, de auto ironia.

Piadinhas autodepreciativas podem até servir para mostrar que você é um sujeito cool, capaz de rir das maiores desgraças (e não há desgraça maior) – mas esse tipo de comentário foi feito para que a outra pessoa te contradiga, e ache que você está sendo modesto. Neste caso, é grande o risco de ela concordar plenamente com você, o que será um tiro no pé.

3. Não tente ser criativo nessa hora. 

Tudo que você disser pode ser - e certamente será - usado contra você.

3. Finja surpresa - mas só se você for uma Meryl Streep de cuecas (no caso, sem cuecas). 

Se o seu talento dramático for igual ao do Fiuk ou de ator de novela bíblica da Record, nem tente.

5. Saiba que existem apenas dois caminhos a seguir: um, machista e covarde, é colocar a culpa na parceira. 

O outro, mais digno e elegante, é fazer com que ela se sinta culpada.

Você pode, por exemplo, dizer que ela devia ter te avisado que não estava com a depilação em dia, e agora você não consegue tirar o David Luís da cabeça e isso, definitivamente, é kryptonita para a sua libido.

(Se a depilação estiver ok, pode dizer a mesma coisa, mas invocando o ministro Alexandre de Moraes).

6. Não perca tempo com explicações (que ninguém quer ouvir) ou desculpas (nas quais ninguém vai acreditar).

Faça parecer que a queda no sistema foi intencional, que você achou que ela estava meio tensa e merecia uma massagem relaxante (enfatize bem que ELA parecia tensa, não você).

Vá com tudo na massagem e dali a pouco ela estará dormindo, o que te dará o tempo necessário para recuperar o ânimo ou (plano B) sair de fininho.

7. Haja o que houver, evite dizer “isso nunca me aconteceu antes”, principalmente na hipótese (bem provável) de já ter acontecido antes.

Nem precisa ter sido com ela.

Se foi com alguma amiga dela, ou amiga de alguma amiga dela, ela já saberá.

Isso, entre as mulheres, se espalha mais rápido que nude no uotiçape entre os homens.

8,. Não desista. 

A menos que, no enésimo “isso nunca me aconteceu antes”, você cometa o ato falho de dizer “isso nunca deixou de me acontecer antes”.

Aí é hora de pendurar a camisinha – e, quem sabe, investir no ramo da massagem relaxante, porque você já deve ter ficado bom nisso.

Eduardo Affonso

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