Henrique Guilherme

Economista, mestre em administração pública e especialista em matemática, estatística e administração de empresas. Apresentou os programas "O Patriota: A Voz da Resistência" no canal de rádio www.blogtalkradio.com/opatriota, é conservador, de direita e nerd.

Tudo que você precisa saber para entender (e não falar besteira) sobre a crise com a Síria

Como sempre, a direita faz um favor ao mundo. Do mesmo modo que Jair Bolsonaro fez as vendas do livro ‘A Verdade Sufocada’ bater recordes ao falar do coronel Brilhante Ustra, Donald Trump fez com que todos de repente se interessassem pela Síria com sua decisão de bombardear uma base militar na região.

Esse interesse não surgiu quando observadores internacionais relataram mais de 60.000 mortes no começo de 2013. Naquele mesmo ano, o conflito chegou a 100.000 mortos, mas ninguém ligou. Em agosto de 2014, já se falava em quase 190.000 mortos, sem que houvesse todo esse alvoroço. Quando a ONU parou de contar as vítimas, outro grupo passou a calcular as baixas, divulgando em 2016 um total de quase 400.000 mortos e dois milhões de feridos, mas quem se importou?

Em agosto de 2013, houve outro ataque do governo sírio, dessa vez usando armas químicas contra a população na região de Ghouta. O número de mortos diverge conforme a fonte, mas franceses contaram 281 mortos e americanos falaram em 1.429. O que evitou uma intervenção militar na época foi que o presidente dos Estados Unidos (Barack Hussein Obama) não encontrou nenhum terno que combinasse com sua bolsinha rosa. Não. Na verdade, foi um acordo que os americanos fizeram com os russos para “forçar” os sírios a entregar “cada pedaço” de arma química que havia com eles.

Mas como todo esse inferno começou? De forma bem resumida, o partido de Assad já mandava na Síria antes mesmo do seu pai se tornar o ditador absoluto. Desde 1970, quem manda na Síria é a democrática família de Bashar al-Assad, sendo que o pai do atual ditador ganhou todas as eleições por unanimidade até o ano 2000, quando morreu. Hafez al-Assad era um produto do seu partido, chamado Partido Ba’ath, que defende o socialismo e o nacionalismo árabe. A família Assad sempre foi aliada da Rússia, que os ajudou a chegar ao poder e fornece boa parte das armas usadas pelo governo sírio para oprimir o seu povo. Mas eis que em 2011, por bons ou maus motivos, os sírios tiveram a oportunidade de derrubar o ditador cuja família estava no poder havia mais de 40 anos. O governo Assad reagiu como qualquer ditadura socialista faria: atirando em todo mundo, causando a morte de pelo menos 800 pessoas. E a guerra civil não havia nem começado: ela só começou alguns meses depois quando tropas militares deserdaram para formar as forças de oposição à ditadura socialista de Bashar al-Assad.

Portanto, a guerra civil que assola a Síria começou no final de 2011, com a intensificação da insurgência militar. Desde então, a vida não está fácil para quase ninguém por lá, de modo que já morreram cerca de 400.000 pessoas e outras quase 5.000.000 fugiram do país. E eu entendo que grupos terroristas aproveitaram a oportunidade para avançar sua agenda usando rebeldes e refugiados sírios. Mas é importante ter consciência de que nem todos que são contra o governo Assad são terroristas escrotos que DEVEM ser mortos, mas que se há alguém decente na Síria ele está lutando contra o ditador.

Depois de quase seis anos de guerra civil, é fato que Assad nem venceu nem tem previsão de vencer. Pode não parecer para os “especialistas de última hora”, mas há uma GUERRA ocorrendo na Síria. Assad está no poder, mas a situação não é tão boa assim para ele. Todos os meses, todas as semanas, suas tropas perdem homens em conflito com as forças rebeldes. E o que ele pode fazer é continuar lutando contra esses grupos que querem a sua cabeça. E foi exatamente por isso que ele ordenou o ataque contra Khan Shaykhun em 4 de abril, que é um reduto das forças rebeldes.

Então aqueles analistas geniais perguntam se achando inteligentes: “Mas por que ele atacaria a própria população com armas químicas?”. Bem, deve ter a ver com a GUERRA CIVIL que se arrasta por seis anos e ele não conseguiu vencer. Deve ter a ver com o fato de ele não ter se incomodado quando fez a mesma coisa em 2013. Deve ter a ver com as dezenas de milhares de mortos que seu governo ditatorial já provocou ao longo dessa guerra. Também deve ter a ver com o fato de a cidade que ele atacou era um reduto rebelde. Claro que havia o risco de o mundo descobrir que ele ainda tinha armas químicas, mas o que pesa mais nas decisões de um ditador desesperado: a possibilidade de descobrirem seus brinquedos perigosos ou a de perder o poder? Afinal, a amizade com a Rússia já livrou a sua cara da primeira vez, por que não livraria de novo? Por mais que houvesse a possibilidade de retaliação, a guerra que Assad trava todos os dias com os seus opositores é muito mais REAL e tem muito mais IMPACTO para ele do que isso.

De fato, como foi a reação norte-americana? O presidente Donald Trump estava vendo TV, como todo mundo, e os jornalistas mostraram imagens de crianças tossindo e mulheres mortas por causa das armas químicas. Ele se indignou, ligou para o pentágono e mandou exatamente 58 mísseis Tomahawk atacarem Assad. Não. Não foi assim. Mas tem muita gente que acha isso. Que o presidente dos Estados Unidos toma decisões com base no que vemos na TV ou ouvimos nos rádios. Nada disso. Em primeiro lugar, Trump tem informações do próprio Pentágono sobre o que ocorre praticamente em qualquer lugar que tenha uma base americana (e pelo menos até o ano passado, havia cerca de 200 militares norte-americanos estacionados na Síria e quase 26.000 acampados no Oriente Médio). Depois, que ele tem os serviços de inteligência norte-americanos (NSA e CIA) para brifá-lo com o que sabem. E ele ainda tem a inteligência das nações amigas, como o serviço secreto britânico e a Mossad israelense, para orientá-lo (de fato, Israel o apoiou na decisão).

E com base em um sem-número de informações sobre o ataque, e numa estratégia geopolítica para a região, Trump retaliou de modo até suave. Os 58 mísseis que ele mandou mataram menos de 10 pessoas. O ataque foi totalmente direcionado à base militar de onde saíram os aviões que lançaram as bombas contra a população síria. E ele ainda avisou os russos com meia hora de antecedência para que retirassem seus soldados da base (o que pode explicar o pequeno número de mortos, já que COM CERTEZA os russos avisaram seus amiguinhos sírios que uma chuva de bombas estava a caminho). Na minha opinião, foi uma retaliação até tímida tendo em vista a gravidade dos ataques de Assad contra a população de Khan Shaykhun.

A grande polêmica é se os sírios usaram ou não armas químicas. Nem os russos nem o governo sírio atribuíram aos rebeldes um “ataque” químico. O que eles disseram foi que o bombardeio pode ter destruído um depósito de armas químicas dos rebeldes sírios, o que provocou as imagens chocantes de crianças morrendo sufocadas. Mas aí que vem a grande pergunta: como rebeldes no meio do nada conseguem armas químicas? A Síria está uma zona assim, que qualquer um tem acesso a bombas químicas? E por que os geniais rebeldes, cujas forças também não são muito grandes, jogariam suas armas mais poderosas APENAS e EXCLUSIVAMENTE nas cidades que elas dominam? NÃO TEM SENTIDO.

E como o governo Assad conseguiu essas armas? Oras, da mesma forma que ele havia conseguido antes. Os russos são aliados dos sírios desde que os socialistas assumiram o poder. Nos conflitos com Israel, os russos sempre estiveram lá para ajudá-los. É bem provável que tenham sido os russos que forneceram tais armas à família Assad. Também surge a suspeita de que o acordo de 2013 não foi respeitado e que Bashar al-Assad escondeu alguma coisa ao fornecer o inventário das armas químicas que tinha para serem destruídas. Os russos parecem não ter fiscalizado tão bem a aderência da Síria ao acordo. Mas ninguém vai questionar nada disso. Os espertinhos parecem mais céticos sobre como aquela alma graciosa e pura seria capaz de lançar bombas químicas contra a própria população do que com a capacidade de rebeldes maltrapilhos conseguirem armas químicas. Eles preferem acreditar na genialidade estratégica de usar as armas mais poderosas contra as próprias forças do que na necessidade real do governo sírio de se livrar da oposição.

“Mas e você, Guilherme, o que acha?”. Veja bem, depois dos ataques químicos promovidos por Assad contra a própria população em 2013, houve esse acordo orquestrado pela Rússia para apaziguar os ânimos norte-americanos. Esse acordo envolvia a destruição das armas químicas sírias e a promessa de não usá-las mais contra a população. Tudo indica que Assad desobedeceu ao acordo, de modo que se o presidente Trump nada fizesse, iria parecer um idiota afeminado como Barack Hussein Obama. A retaliação cirúrgica e tímida dos Estados Unidos não passou disso: um aviso de que, pelo menos em relação a esse acordo, eles estão falando sério. Um aviso de que é bom Assad manter sua parte do acordo, porque se não o bicho vai pegar. Nada mais do que isso. Portanto, podem relaxar. Por enquanto, os únicos que têm motivos para ficar alarmados são o Assad e aquele gordinho idiota que mora na Coreia do Norte.

Henrique Guilherme

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