Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

Novas indiretas a vista

Nos ‘anos de chumbo’, aos poucos, os militares foram perdendo a governabilidade, a partir das greves do ABC paulista. Veio a abertura política, lenta, gradual e segura para os donos do poder que conservavam as tropas nas ruas por precaução. Mudanças foram feitas, mas de tal forma que tudo continuou como estava. Aconteceu a anistia, ampla e irrestrita, incluindo torturadores e guerrilheiros.

Com a anistia também veio o retorno dos políticos exilados e a reorganização partidária. Vários partidos foram criados, entre eles o PMDB (os “autênticos” criariam o PSDB), o PDS (viraria PP), o PDT, o PTB, o PCB (se transformaria em PPS), o PSB, o PT e muitos outros. Entre os primeiros petistas estavam Apolônio de Carvalho (combatente na Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa), Mário Pedrosa (crítico de arte), Antônio Candido (crítico literário), Sérgio Buarque de Hollanda (historiador e jornalista), Paulo Freire (educador) e Plinio Arruda Sampaio (advogado).

Era um fato novo no contexto da década perdida que se iniciava, merecendo destaque na imprensa internacional.

O povo entusiasmado gritava por eleições diretas. Os militares achavam que não estava na hora e nos deram as eleições indiretas, deixando tudo como estava antes. Com a morte de Tancredo Neves (avô de Aécio Neves), que havia derrotado Paulo Maluf, José Sarney, antigo presidente da ARENA, é nomeado Presidente; sob a orientação de aventureiros decretou o Plano Cruzado ( que foi um desastre econômico) e jogou o Brasil em uma recessão nunca vista neste País.

No final dos anos 1980 a grande imprensa apoiou Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás, que derrota Lula e implanta mirabolantes planos econômicos; adere ao Consenso de Washington e escancara as portas do mercado brasileiro para o capital multinacional. Ao recusar dividir o butim com os aliados, foi defenestrado da Presidência.

Com o impeachment festejado pela nação, Collor é substituído por seu vice, Itamar Franco, que produz o Plano Real, de grande aceitação popular; entretanto, a corrupção não diminuiu e os banqueiros continuaram ganhando. Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda de Itamar, venceu Lula, aprofunda o neoliberalismo, decreta a privataria, ao mesmo tempo em que acontece o escândalo do Banestado; Cardoso se reelege novamente derrotando Lula. Os banqueiros continuaram ganhando muito dinheiro e a impunidade continua.

A insatisfação popular é grande e Lula, nesse sombrio contexto de incertezas, se elegeu presidente da República derrotando o tucano José Serra. Entretanto, traiu suas propostas e deu continuidade ao neoliberalismo implantado pelos tucanos, trazendo Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central. Essa atitude provocou descontentamentos nas bases esquerdistas, mas os banqueiros deram integral apoio. A mídia internacional destacou os fatos com estardalhaço. Apesar do escândalo do “mensalão” Lula se reelegeu e depois elegeu Dilma Rousseff para a Presidência, que por sua vez se reelegeu ao derrotar Aécio Neves. A corrupção e a impunidade cresceram assustadoramente, explodiu o “petrolão” e o aparelho produtivo se desorganizou. “Forças ocultas” derrubaram Dilma e Michel Temer, seu vice, assumiu a Presidência, trazendo Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda. Os banqueiros continuaram ganhando e a corrupção aumentou.

Agora chegou a vez da substituição de Michel Temer.

Os irmãos Batista, Joesley e Wesley, proprietários do grupo J&F, inesperadamente jogaram “farinha no ventilador” dos governantes, que se diziam acima de qualquer suspeita. O presidente Temer (PMDB) foi gravado falando sobre a compra do silêncio do ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB). Ficou acertado que o frigorífico daria uma “mesada” para Eduardo Cunha e outra para Lúcio Funaro, ambos presos, para que ficassem calados. O deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB), que está com o mandato suspenso, foi designado pelo Presidente para receber a propina de Joesley e depois repassar para os beneficiários. Assim foi feito, mas o empresário filmou e gravou a operação, entregando os mesmos em uma delação premiada para o STF.

Restam quatro caminhos para Michel Temer: a renúncia (que ele rejeita porque, além de perder o foro privilegiado, significaria o reconhecimento do crime), o impeachment a ser decretado pelo Congresso (513 deputados e 81 senadores, a maioria está denunciada por corrupção) que não tomará a iniciativa, ação penal (uma grande incógnita) e cassação da chapa Dilma/Temer (que há meses está parado no TSE).

Os estamentos políticos trabalham nos bastidores do poder tentando demonstrar que seria um desastre para o país uma mexida radical no governo. Para tanto, tentam salvar Temer, ou na pior das hipóteses, preservar as “conquistas democráticas” mantendo tudo como está. A classe dominante está relutante porque não sabe, ainda, qual será a reação do povão frente às denúncias. A Constituição (Artigo 51) determina que a escolha do substituto seja por eleição indireta, caso a Presidência vague, o que agrada os banqueiros e o empresariado. O presidente da Câmara assumiria por 30 dias, o que agrada os parlamentares comprometidos nas denúncias de corrupção.

No último imbróglio político-financeiro, o senador Aécio Neves (PSDB) também foi gravado pelos irmãos Batista pedindo (e recebendo) R$ 2 milhões para cobrir despesas com advogados. O dinheiro foi entregue a um primo do senador (que foi suspenso de seu mandato e perdeu a presidência do partido), em ação filmada pela Polícia Federal. Sua irmã (intermediária da operação), seu primo (que recebeu o dinheiro da JBS) e um assessor de outro senador mineiro foram presos.

Agora surgiu um instrumento mais forte que o habeas corpus, a “delação premiada”, onde o delator não precisa, de imediato, comprovar nada. Mesmo assim, as denúncias são vazadas para a imprensa “especializada” e arrebentam a reputação de quase todos os políticos brasileiros, da oposição e da base governista. Poucos escaparam. E nesse entrevero, a mídia, em nome da ética e da transparência, alimenta a cizânia entre “militantes fanatizados” que não distinguem verdades de factoides. Enquanto isso, os congressistas relacionados na Lava Jato se preparam para a reeleição e transformam o Congresso em verdadeiro “bunker antipovo”, nas palavras de André Barrocal.

Nos últimos dias os alvos foram Lula, Michel Temer e Aécio Neves, que já foram condenados pelos “cientistas políticos” da mídia institucionalizada - principalmente a Rede Globo. As cenas dos depoimentos dos irmãos Batistas e as denúncias de Mônica Moura, mulher de João Santana, foram exaustivamente reprisadas por vários dias.

Esses fatos desgastaram as instituições brasileiras no mundo globalizado e deixa a impressão, para nós observadores leigos, que o objetivo não é prender Lula, mas sim desgastar sua candidatura em 2018. Michel Temer não tem condições de permanecer no poder, e já se discute sua substituição por eleição indireta. O PSDB fala em Tasso Jereissati, mas sonha com Fernando Henrique Cardoso; o DEM e o baixo clero querem Ronaldo Caiado, mas falam em Rodrigo Maia; o PMDB acena com propõe Nelson Jobim, que afirma ter livre trânsito nas Forças Armadas; Raul Jugman (PPS, ex-PCB) se diz candidato das Forças Armadas. Os banqueiros estão com Henrique Meirelles (de fato ele já é o Presidente, falta apenas a legitimação).

Eis que de repente Maduro (Ops!), Temer põe as Forças Armadas nas ruas para garantir o seu mandato e, talvez, influenciar o seu julgamento no TSE. Os brasileiros mais antigos ainda se lembram das tropas armadas cercando a Esplanada dos Ministérios em nome da lei e da ordem. Será que a história começa a se repetir?

Os místicos acreditam que Pindorama é o coração do mundo, pátria do Evangelho e que, por isso, voltará a ser o paraíso, apesar dos políticos que a governam. Resta orar para que isso aconteça.

LANDES PEREIRA. Economista com doutorado; é professor de Economia Política.

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