Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Pena de morte em Corumbá

A década de 1920 foi marcada em todo o país por agitações políticas e revoltas militares. Assim, em 1922 ocorreu no Rio de Janeiro o levante militar no Forte de Copacabana, dando início ao movimento tenentista. Neste mesmo ano fundou-se o Partido Comunista. Dois anos depois, o general Isidoro Dias Lopes iniciou uma revolta militar em São Paulo, cujo rastilho propagou-se por vários estados. Era também uma reação aos políticos e ao governo de Arthur Bernardes, que só conseguiu governar o país sob estado de sítio.

No estado de Mato Grosso, o governador Pedro Celestino, do Partido Republicano Mato-Grossense, herdou do governador D. Aquino Corrêa um estado falido e em crise econômica.

O jornal “A Cidade” de Corumbá, de 01.11.1924 afirmava: “Estamos numa época negra. Tudo está rareando de tal forma que estamos no direito de nos manifestar um tremendo pessimismo pelos dias que virão. De modo como vai subindo o preço de todos os artigos, podemos dizer que o povo, amanhã, não poderá suportar as dificuldades da vida”. O funcionalismo estadual estava com oito meses de atraso em seus salários. Em Cuiabá, a Força Pública revoltou-se, sendo logo debelada pelo governo.

Em Corumbá, na madrugada de 27 de março de 1925 revoltaram-se os soldados do 17 BC, que tinham fortes ligações com o movimento tenentista. O sargento ajudante Aquino Pompeu de Barros (que depois virou nome de rua em Corumbá), de tradicional família cuiabana, juntamente com o cacerense sargento Alberto Granja lideraram a revolta no quartel. Com apoio de populares prenderam o seu comandante capitão Luiz de Oliveira Pinto, e ocuparam militarmente o correio e o telégrafo. Segundo o Boletim Diário n. 82, também publicado no jornal “A Cidade”, de 08.04.1925, participaram da liderança da revolta os sargentos João Leite de Figueiredo, Marcondes Fontes Esperidião Ferraz, Bertholdo de Souza Papa e o cabo Arlindo.

No entanto, os revolucionários não impuseram restrições aos direitos e liberdades dos corumbaenses. Até o próprio comandante preso ficou em liberdade dentro do quartel, o que lhe permitiu articular uma contra-revolta com apoio de amotinados arrependidos e prendendo os cabeças, inclusive os sargentos Aquino e Granja.

O levante deixou um saldo de quatro mortos e duas dezenas de feridos com combates, não só no quartel como também nas ruas Frei Mariano e Antonio Maria. Por outro lado, desmentindo boatos da adesão da marinha aos revoltosos, o monitor “Pernambuco” posicionou os seus canhões no porto da cidade contra os revoltosos. O primeiro ato do comandante Luiz de Oliveira Pinto foi mandar fuzilar os dois cabeças do levante. Instalou-se, assim, a pena de morte em Corumbá, executada no 17 BC. Segundo tradição oral, o primeiro pelotão de fuzilamento recusou-se a cumprir tal ordem. O segundo pelotão, comandado pelo sargento Antonio Pécora, cumpriu a ordem do comando e o sargento Aquino morreu fuzilado nas barrancas do rio Paraguai, ao lado do quartel. Já o sargento Granja num golpe de audácia, conseguiu escapar atirando-se no rio Paraguai.

Com relação à inusitada fuga do sargento Granja, circularam versões não oficiais que ele teria desaparecido após ficar escondido no pantanal, na fazenda Alegria. Contudo, evadiu-se para São Paulo, onde foi preso e depois deportado para o campo de concentração de Clevelândia, às margens do rio Oiapoque (Amapá).

Granja faleceu nos campos insalubres de Clevelândia entre 1925 e maio de 1926, junto com outro militar do 17 BC, Nestor da Costa Magalhães.  Foram mandados para este mesmo campo de concentração os irmãos Ângelo Cuviglio Torre e Giuseppe Cuviglio Torre, italianos presos no hotel Colombo, de Corumbá, filhos do proprietário do jornal “A Tribuna”. O sumário fuzilamento do sargento Aquino, sem qualquer julgamento, somente se explica pela grande liderança que exercia sobre seus comandados. Esta liderança militar, por certo, tornava-o um exemplo perigoso à ordem estabelecida e precisava ser eliminado.

Por outro lado, o movimento de rebeldia, que se enquadrou no movimento maior do tenentismo, colocou em lados opostos famílias e tradicionais laços de amizade na cidade. O tenente Arthur Xavier Sobrinho, por exemplo, que participou diretamente no combate aos revoltosos, era parente do próprio sargento Aquino. Além disso, os que mais sofreram foram as famílias dos militares envolvidos na revolta. Sem amparo, ficaram totalmente desprotegidas. Sem pensão ou qualquer outra remuneração, a família do sargento Aquino, que deixou filhos pequenos, passou grandes privações nessa época. Já o sargento Marcondes Fontes da Costa e Silva, como outros militares, preferiu emigrar para a Bolívia onde constituiu família.

Bem mais tarde, com a anistia, muitos militares foram reincorporados ao exército, inclusive sendo promovidos, como o caso do sargento Marcondes. A viúva do sargento Aquino passou a receber uma pensão referente à patente de capitão. Por ironia do destino, descendentes dos envolvidos neste episódio histórico encontraram-se décadas depois numa situação traumática e adversa. O neto de um dos comandantes da repressão, já oficial do exército, veio até Corumbá fazer uma inspeção no 17 BC, onde morreu com a explosão de uma granada. Alunos do Colégio Santa Tereza foram convidados para formar uma guarda de honra no velório e, entre eles, encontrava-se um bisneto do sargento Aquino.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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