Guilherme Rasador

Guilherme Rasador é acadêmico de Relações Internacionais.

A censura como ganha-pão: editoras covardes pagam militantes para calar críticos

A nova tendência do mercado editorial estrangeiro, os ‘leitores sensíveis’, ou ‘sensitivity readers’, finalmente chega por aqui.

Primeiramente, um ‘leitor sensível’ é um funcionário contratado que avalia originais procurando devidas ofensas contra minorias, mas que não considera isso censura, e sim uma simples ‘edição’, parte do processo editorial.

Ótimo. A tendência, que encontrou terreno fértil em selos juvenis – em outras palavras, livros pensados para um público sedento por justiça social e representação –, dificilmente permanecerá restrito por muito tempo aos subgrupos editoriais. A fome por ativismo em massa, em um ambiente cultural medíocre como o brasileiro, onde o feminismo é considerado legítima manifestação cultural, em breve estará ‘editando’ grandes obras de literatura, filosofia, e ciências sociais, por serem ‘ofensivas’.

É um cenário distópico, onde a polícia do politicamente correto, primeiro amordaça as editoras por dentro, reduzindo suas publicações a livros água com açúcar, pró-diversidade e amaciadores de ego. Em seguida, não demora muito e ela começa a perseguir os pequenos acervos pessoais.

Em um cenário assim, poucos nomes mantêm-se fiéis a si mesmos, mas entre eles Michel Houellebecq, francesinho racista, misógino e “islamofóbico”, que não se dobra à intolerância pós-moderna, e que por esse mesmo motivo acaba sendo um oásis literário em uma sociedade esmerdeada pela ditadura politicamente correta. Houellebecq pagou um preço caro pela liberdade de expressão, e hoje vive com proteção 24h. Ele não foi o único, Rushdie também: seu livro “Os Versos Satânicos” rendeu-lhe uma fatwa: sentença de morte promulgada pelo então líder supremo do Irã, Aiatolá Khomeini.

Hoje, os censores pós-modernos agem assim: primeiro removem obras indesejadas de bibliotecas públicas, restringindo o contato do público, e em seguida de escolas, como se fossem de alguma forma cancerígenas aos próprios estudantes, mentes ainda em formação e suscetíveis a militância, por essência ignorante. Em seguida, tratam de barrá-las nos vestibulares, removendo-as das universidades por meio de pressão no ambiente acadêmico; exigem que famigerados autores brancos não sejam mais obrigatórios no currículo universitário, considerando seu legado cultural mero “privilégio de homem branco”, para dar mais protagonismo a inofensivas autoras negras de qualidade inferior e peso literário secundário.

Ora, estudar a língua portuguesa, renegando a preciosidade de Camões, é aleijar como um todo a própria língua! Os censores descartam séculos de esforço intelectual pela mera cor da pele de seus autores, lesando o legado cultural do Ocidente. Depois afirmam, logicamente, que não há racismo contra o homem branco. Ao fim desse movimento em massa pela supressão do conhecimento, invocar o nome de determinados autores se torna uma agressão, violência digna.

Em uma recente pesquisa organizada pela Universidade de Brasília, o painel literário brasileiro foi endossado como “elitista” e excessivamente branco. A militância se traveste de instituição séria, socialmente responsável.  Segundo a pesquisa, os autores brasileiros, em sua maioria, são brancos (93,9%) e homens (72,7%), e seus personagens são, em sua maioria, “homens (62,1%) e heterossexuais (81%)”. Percebemos a sutileza destes discursos, permeados pela áurea santa da ‘tolerância’, quando sempre começam comendo pelas beiradas, com movimentos suaves, primeiramente transferindo a culpa, como se o monstro fosse o autor, por escrever, ou o leitor, por lê-lo. Deveríamos nos questionar: queremos que nos imponham aquilo que podemos ler?

A pequenez intelectual do brasileiro tem como característica principal sempre superar a si mesma; dessa forma, nada mais natural de que uma tendência estrangeira, desprezível e digna do último dos buracos do inferno, seja abraçada como uma revolução cultural. E tudo em nome, vejam bem, da pluralidade de ideias. Revolução cultural seria o brasileiro acordar para estas mazelas, livrando-se como de um tomate podre.

A linha da censura é extremamente tênue, e censura politicamente correta ainda é censura. Um gesto como este, marca de nossa decadência cultural latente, pode acabar em um movimento político contra a liberdade de expressão daqueles que, acima de tudo, dizem a verdade.

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Guilherme Rasador é acadêmico de Relações Internacionais.

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