Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

Temer, evidentemente, está tranquilíssimo

Tão tranquilíssimo que os advérbios - em particular o ‘evidentemente’ - já não lhe bastam. A fase agora é dos superlativos.

Neste momento particularíssimo de sua trajetória política, o ‘Presidento’ lembra muitíssimo o agregado José Dias, de ‘Dom Casmurro’.

‘José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia a prolongar as frases. (...). Cosi-me muito à parede e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola’.

Temer não usa calças brancas engomadas, presilhas, rodaque (seja isso lá o que for) ou gravata de mola. Mas abusa da gomalina e das mesóclises, e contorce as mãozinhas ao falar com se as ensaboasse virtualmente (não há quem toque guitarra no ar? Temer ensaboa sem sabão, enxágua sem água, u'a mão lavando a outra e ambas continuando tão sujas quanto antes).

Não tendo o que dizer (sem se incriminar), prolonga (dilui, esvazia) as frases com advérbios - e superlativos.

José Dias (para quem não se lembra porque só leu ‘Dom Casmurro’ na sétima série) não é parente: é um agregado. Aderiu à família de Bentinho depois de aplicar um golpe - dizia-se médico homeopata, e não era médico coisíssima nenhuma.

Perdoaram-no, foi ficando e acabou sobrevivendo a quase todos os personagens do livro (‘Talvez a esperança dele fosse enterrar-me’, diz Bentinho, com aquela sua franqueza docemente pontiaguda).

‘Se naquela situação José Dias era vagaroso, em outras era ágil, risonho ou grave, conforme melhor se encaixasse na cena’.

‘Ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade’.

Machado de Assis fala de Temer ou de José Dias? esse personagem secundário, que vive da troca de favores, da dissimulação, da conveniência - ora ágil ora lentíssimo, sempre com seu larguíssimo riso sem vontade.

Na doença que o levaria, ainda que tivesse posado de homeopata a vida inteira, José Dias preferiu a medicina tradicional.. Morreu, do mesmo jeito.

("Morreu sereno, após uma agonia curta. (...) soergueu-se e olhou para fora; após alguns instantes, deixou cair a cabeça, murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo.").

A última palavra que Temer disse antes de retornar - precipitadamente - do G20 foi ‘tranquilíssimo’.

Estamos todos convencidíssimos de que ele estava, evidentemente, sendo sincero. 
Sinceríssimo.

Eduardo Affonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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