Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

De Gonzaguinha a Luiz Inácio, explode coração!

Quando morreu o Gonzaguinha, em mil novecentos e mandiopã, as emissoras de rádio desandaram a tocar suas músicas em loop.

Eu morava, nessa época, no Paraná, onde nunca acontece nada. E o acidente do Gonzaguinha foi lá. Logo, não se falava noutra coisa. E praticamente não se ouvia nada no rádio que não fosse música do Gonzaguinha.

Tudo bem - não fosse o fato de eu não suportar o Gonzaguinha.

Achava as melodias melosas, as letras muito cheias de gerúndio, e a voz... sem comentários.

Tinha ido a um show dele, em Viçosa, em 1975. Ele chegou bêbado, ou drogado - possivelmente os dois - e não conseguia cantar. Levou uma pequena vaia. Como continuasse não conseguindo emitir qualquer som audível, levou uma vaia média, a seguir uma vaia grande, e a vaia cresceu em progressão exponencial até poder se candidatar ao Guinness de "maior vaia jamais dada a um cantor sem que ele cantasse, ou talvez por isso mesmo". Quando, finalmente, conseguiu soltar a voz, a minha já tinha ido embora de tanto vaiar.

Não foi um começo muito auspicioso.

Cheguei a admirá-lo mais adiante (se é que se pode chamar aquilo de admiração), nos tempos de faculdade, pelas canções engajadas (eu tinha uma bolsa amarela, daquelas a tiracolo, com foto do Che Guevara, o que explica tudo).

Aí me formei, apurei o gosto, e isso coincidiu com a fase brega (ops, "romântica") do cantor. Mas eu gostava era de brega de raiz (Waldick Soriano, Cláudia Barroso, Núbia Lafaiete, Evaldo Braga, Odair José) e não ia desperdiçar minhas papilas auditivas com genéricos.

Pois morre o Gonzaguinha no interior do Paraná e - igual a Simone em época de Natal - não havia como escapar dele se entregando, sangrando, cantando, vivendo, sofrendo, chorando, gritando, sem parar.

Me lembro, depois dessa overdose de homenagens póstumas, de ter dito ao um amigo: só espero morrer antes do Júlio Iglesias!

Não sei que fim levou o hiperbronzeado menestrel espanhol que cantava em Castelhano em qualquer idioma, e pouco se está falando hoje no finado Gonzaguinha. Mas me pego pensando: não me importa que o Lula fique impune, se reeleja, roube o triplo do que já roubou e acabe de arruinar o país. Só não quero estar vivo quando isso acontecer.

E não é pra não passar dificuldades econômicas. É pra não ter que ouvir os petistas rompendo, tomando, rasgando, sorrindo, adorando, gritando feito loucos alucinados e crianças, sentindo o seu rancor se derramando.

Não vai dar pra aguentar o bode que vai ser essa eleição.

Eduardo Affonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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