Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Meu álbum de figurinhas

Em minha biblioteca, junto dos clássicos do pensamento econômico e político, tenho livros de história do Brasil e um precioso e extenso acervo bibliográfico sobre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Porém, reservo um cantinho, que trato com muito carinho, onde mantenho uma coleção iniciada nos tempos de menino, no interior de São Paulo, com 269, até o momento, álbuns de figurinhas. Parece coisa de criança, mas não é. Tanto é verdade que em 1985 foi defendida na USP uma dissertação de mestrado, na área de comunicação, fazendo uma análise de álbuns de figurinhas.

As figurinhas surgiram na Europa em 1872 como cartões de propaganda contendo assuntos não comerciais, em embalagens de extrato de carne. No Brasil, os cromos apareceram em 1885. As figurinhas tiveram, no seu início, a função de informação e de educação complementares, sobretudo pela escassez de bibliotecas e de circulação de livros, justificando assim o seu caráter enciclopédico.

Os assuntos eram os mais variados como plantas, flores, pássaros, animais, geografia e história, e curiosidades entre outros. Vinham gratuitamente em balas, como as famosas “ balas holandesas” (1930), ou em caixas de produtos, como as estampas que se encontravam nas caixas do sabonete Eucalol. A partir de 1949 as figurinhas também passaram a ser vendidas acompanhadas de balas. As balas eram de péssima qualidade e, como tempo, melavam facilmente, manchando inclusive as próprias figurinhas.

Depois vieram as figurinhas vendidas em envelopes. Existiam as figurinhas carimbadas que tinham um alto grau de dificuldade para o preenchimento total do álbum. Muitos álbuns davam prêmios, mas o bom mesmo era completá-los. Para colar as figurinhas era preciso fazer cola de farinha de trigo ou polvilho, ou usar a famosa “goma arábica”. Hoje, elas são autocolantes e para mim perderam muito do seu charme.

Passo a folhear um velho álbum de futebol, o famoso “Ídolos do Futebol Brasileiro” de 1956, que os editores alardeavam ser o “mais completo álbum de craques dos nossos gramados”. Além de belas figurinhas, todas coloridas, medindo cada uma 7 x 4,5 cm., traz em sua parte final as regras oficiais do futebol, um histórico das copas do mundo e dos craques brasileiros. Ali estavam registrados muitos jogadores que hoje fazem parte da gloriosa história do futebol brasileiro. Foi a época em que o Brasil já havia superado o trauma de 1950, quando em pleno Maracanã perdemos a copa do mundo para o Uruguai.

De acordo com este álbum de 1956, a seleção de Mato Grosso apresentava uniforme azul com uma faixa transversal branca, o distintivo “FMD” e era formada por Dito, Hélio Nunes, Uir, Samuel, França, Totó, Nelsinho, Leônidas, Batista, Jaquinha e Vidal Ibanhez. Abaixo de cada figurinha estava registrada uma pequena biografia do jogador.

Continuo a folhear o álbum e vejo outros times e jogadores conhecidos. O Corintians, por exemplo, consagrado campeão do quarto centenário da fundação de São Paulo em 1954, contava com Cláudio, Luizinho e Baltazar. O São Paulo aparecia com De Sordi, Pé de Valsa e Dino Sani; o Palmeiras com Liminha e Jair da Rosa Pinto; o Flamengo com Dequinha e Joel; o Fluminense com Castilho, Tele e Didi; o Vasco com Bellini, Ademir e Pinga; o Botafogo com Nilton Santos e Garrincha; o Bangu com Zizinho e Zózimo.

A velha Portuguesa de Desportos contava com Djalma Santos, Juninho e o corumbaense Airton Diogo. Na sua biografia constava: “atacante. Nasc. em Corumbá (M. Grosso) em 23.11.929; Slt., 1,80 m. de alt.. Surgiu no Corumbaense F. C. em 1947, jogando depois no Fluminense do Rio, no E. C. Pelotas, Internacional de P. Alegre e, desde nov. de 1954, na Port. de Desp. Campeão amador em Corumbá em 47, vice-aspirante do Rio, campeão de Pelotas em 51, gaúcho em 53 e do Rio São Paulo em 55”.

No Linense, time do interior de São Paulo, aparecia também o corumbaense Fragão. Na sua biografia constava: “ (José Gonçalves de Carvalho). Centromédio. Nasceu em Corumbá (M. Grosso) em 7.9.926; casado, 1,78 m. de altura. Surgiu no E. C. Motorista de Corumbá em 1945, jogando depois no Bauru A. C, onde se fez profissional em 1946, e desde 1949 no Linense. Campeão pelo Brasil em 1946, pentacampeão de setor em 1949/50/51/52/53”. Aparecia também nesta galeria o técnico do América F. C. de Belo Horizonte, o polêmico corumbaense Yustrich (Dorival Knippel). Nascido em Ladário, ficou registrado como corumbaense porque a pequena cidade, nessa ocasião, integrava o município de Corumbá.

Termino de folhear o meu velho álbum de figurinhas e sonho. Sonho que Mato Grosso do Sul ofereça mais campos de futebol de várzea e que as autoridades ligadas ao esporte, estaduais e municipais, estimulem a prática de esportes amadores. Torço para que um dia Mato Grosso do Sul tenha um forte esporte profissional e com isso as crianças passem a colecionar álbuns sobre esporte, troquem figurinhas e joguem “bate e vira” (ou “bafinha”) com figurinhas de craques do nosso estado.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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