Guilherme Rasador

Guilherme Rasador é acadêmico de Relações Internacionais.

Dawkins, a cegueira iluminista e os limites da ciência

Quando um cientista é mais conhecido por sua militância neo-ateísta, do que por verdadeiras contribuições à ciência, então podemos dizer que temos um problema. Ignorando completamente qualquer lógica ou coerência teórico-argumentativa, o cientista evolucionista Richard Dawkins simplesmente nega toda a orientação racional do dogma cristão, todos os séculos de esforços de conciliação do aristotelismo com a doutrina cristã, e por um comodismo prepotente rebaixa ao nível de misticismo toda a teologia. É realmente surpreendente que alguém que se julgue um intelectual use de espantalhos tão gritantes, dizendo: “You can't deny leprechauns until you've immersed yourself in the practice of leprechology” (Você não pode negar leprechauns até ter imergido na prática da leprechologia), em uma clara referência ao preceito de que é preciso primeiramente estudar o cristianismo e a doutrina cristã para após tal tirar suas constatações, como se uma teologia milenar fosse equiparável à fábula irlandesa. Um adolescente seguidor de Dawkins, por sua rebeldia e ignorância, é aceitável; um homem maduro, devidamente capaz e educado, este só pode ser caracterizado como adolescente tardio. Dawkins julga a si mesmo um indivíduo tão inteligente, que descarta toda a lógica do debate, recorre a falácias, piadas – jamais se dando conta de que assim só faz rebaixar-se ao nível de palpiteiro esnobe. Um intelectual que recusa os preceitos lógicos de um confronto ideológico, que burla a refutação de raciocínios através de sofismas, não é um intelectual de todo modo. Deste modo, compreenda você que está de frente para um oponente desonesto, que age de má-fé. Contudo, a problemática da questão é muito mais profunda, e reside na própria noção de “ciência” e “cientista”, por trás das quais protege-se Dawkins.

Há, em toda a construção de conhecimento, um limite para a investigação do objeto de estudo. Isso significa que você pode ir até determinado ponto e, a partir daí, não pode mais avançar. Nesse sentido, o maior problema que percebo no cientificismo, é que ele essencialmente também é aplicável através deste princípio. Ou seja, existem coisas sobre as quais é possível se produzir conhecimento científico, ou determinada carga de conhecimento acumulativo, e outras não. Desta forma, o que define o fanatismo dos entusiastas da ciência, é o ponto a partir do qual muitos concebem os limites investigativos de um objeto como os próprios limites da realidade do objeto. É uma lógica circular, e que demonstra uma deficiência de conhecimento teórico da própria teoria do conhecimento científico, ou seja, uma deficiência da teoria epistemológica. É porque a ciência não é capaz de explicar tudo aquilo que existe, que eles admitem que só existe aquilo que se é explicável, e que se portanto algo não se explica, então isso não existe. O que por sua vez não passa de argumentum ad ignorantiam, “o que eu não sei, isso não existe”. Esta é, em síntese, a maior problemática decorrente da efetivação universalista do método empirista como parâmetro qualitativo de uma verdade.

Nesse sentido, a casta cientificista desconhece quaisquer noções de filosofia, porque ignora as limitações da própria ciência, estas exemplificadas filosoficamente. Assim, tomam por ponto de partida aquilo que já é definido, e portanto não questionam o fundamento sobre o qual atuam. Desconhecem completamente, por exemplo, que em filosofia, o oposto do empírico é o racional. Em outras palavras, a ciência faz oposição à razão, dizendo: só razão não basta; porque pressupõe que a racionalidade humana é incapaz de conhecer a verdade, restringindo a condição de verdadeiro somente aquilo que pode ser comprovado cientificamente, embora (e aí reside um paradoxo da ciência) a ciência só possa existir enquanto submissa da razão, uma vez que está na raiz de toda constatação científica um desenvolvimento perceptivo racional. Dessa forma, por exemplo, Deus jamais será uma verdade, porque ele não é sensível (ou seja, não produzem-se provas materiais da existência de Deus), o que por si só ignora décadas de teologia lógico-racional (dizer teologia quer lógica, quer racional, é por si só uma redundância, uma vez que a teologia é em essência proveniente de pura aplicação da razão humana, equiparada esta no instrumento lógico), teologia esta que já demonstrou, pelas mãos muito competentes de homens centrais na história do pensamento ocidental como São Tomás de Aquino, a veemência da verdade divina. Desta forma, é difícil contrapor argumentos ateístas, primeiramente porque são de modo geral baseados em concepções falaciosas, e porque, em seguida, uma vez ignorantes de filosofia e lógica aristotélica, não possuem meios de compreender através de parâmetros verdadeiramente racionais aquilo que desconhecem.

O problema, desta forma, é que desconhecendo-se (1) os princípios básicos do instrumento da lógica, também (2) a submissão da ciência à razão, e então (3) a raiz racional da teologia, é que hoje associa-se fé a emoção, como se a fé fosse crença ancorada na irracionalidade, quando muito pelo contrário, em verdade têm-se a fé como oriunda do conhecimento. Em outras palavras, atinge-se a fé através do estudo, através da averiguação racional de fatos concretos, e não da imposição de uma força sobrenatural arbitrária, ou da submissão irracional a uma doutrina. São Pedro não acreditou ser Cristo o Deus por uma cegueira doutrinária; São Pedro acreditou porque viu dos milagres Dele, e acessou assim a verdade destes fatos. Se você espera uma manifestação divina para dizer “agora tenho fé”, então você provavelmente viverá na inépcia. Estuda-se para conhecer, conhece-se para ter fé.

Enquanto cristãos, estamos ancorados em grandes homens, outros grandes cristãos, que em sua humildade estudaram e construíram seu arcabouço a fim de conhecer. Richard Dawkins, por sua vez, só pode mesmo ter uma inteligência sobre-humana, uma sapiência que o destaca e o segrega dos outros homens comuns, reles “não cientistas”. Somente isto para explicar como ele é, assim, capaz de constatar a verdade absoluta do Universo e da vida, sem nenhuma comprovação lógico-argumentativa, sem quaisquer critérios de qualidade e valor. Talvez, quem sabe, a verdade resida no umbigo de Dawkins.

Guilherme Rasador

Guilherme Rasador é acadêmico de Relações Internacionais.

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