Guilherme Rasador

Guilherme Rasador é acadêmico de Relações Internacionais.

Salvando a Igreja Católica da doutrinação esquerdista e da propaganda cientificista

 Algum tempo atrás, quando defendi, de modo muito justo, a Idade Média e, nesse sentido, a própria Igreja Católica, apresentei uma bibliografia composta por diversos historiadores, contudo, grandes historiadores, desde o holandês J. Huizinga até a francesa Règine Pernoud. Desse modo, devido a minha ingenuidade, advinda de meu apreço pela verdade, acabei surpreso quando ouvi: “Seus autores são questionáveis. Minha bibliografia é simples, aulas de história”. Logo aí, minha reação foi um tanto estranha; momentaneamente eu ri, mas por dentro fiquei desesperado, não por mim, claro. Grande parte destes sentimentos se devem ao fato de que por muito tempo eu também estive naquela posição.

O que define hoje o brasileiro no quesito história, de modo geral, é a sua deficiência investigativa, e sua carência de bom senso. O maior exemplo disso, como tenho dito, concerne a Idade Média e a Inquisição. Fale em Idade Média, e automaticamente as pessoas ao seu redor pensam em: Inquisição, torturas, pessoas na fogueira. Quando a Inquisição Católica surgiu, o Papa Gregório IX, ao instituí-la, desejava criar um julgamento formal e justo através do qual católicos hereges pudessem reconhecer seus erros e redimirem-se. Ninguém ensina isso.

Hoje, grande parte dos historiadores já reconhecem que a Inquisição, apesar de todos os seus erros (os quais aqui não tenho a intenção de negar ou diminuir), não foi a instituição sangrenta e bárbara que durante tantos anos difundiu-se como verdadeira. Antes da Inquisição, assuntos relacionados à Igreja eram julgados pelo poder secular, que em grande parte promovia verdadeiros circos e linchamentos públicos, com condenações brutais e muitas vezes injustas. Simples pesquisas em fontes históricas demonstram que monarquias e governos absolutistas eram muito mais violentos e injustos que a Igreja Católica. Henrique VIII executou na Inglaterra cerca de 70 mil católicos enquanto autoridade da Igreja Anglicana. Elizabeth I executou, por sua vez, mais católicos em uma década de reinado, do que as próprias Inquisições de Portugal e Espanha juntas em um período de três séculos de existência.

Foi neste contexto que a Inquisição surgiu e, do mesmo modo, foi fundamental para a instituição das primeiras noções do que era um julgamento justo, amparado em fatos e munido de juíz e defesa, além de plantar as raízes do que viriam a ser os direitos humanos. Não o bastante, a Inquisição atingiu seu ápice nos Séculos XVI e XVII, ou seja, em plena Idade Moderna, um século antes da Revolução Industrial. Não é preciso de muito senso crítico para compreender que o período mais ativo da Inquisição faz parte, portanto, ironicamente, do Renascimento, e não do medievo. Logo, a Inquisição é tão medieval quanto o McDonald's, mas tão moderna quanto a física de Newton.

Tudo isso não passa, senão de burrice, então de uma enorme campanha para desmoralizar a Idade Média, e todas as suas contribuições ao desenvolvimento do Ocidente (tema para outro artigo) e a história do pensamento. Ah, pensar em todos aqueles monges copistas! Mas eles foram, claro, grandes bárbaros mulherengos, que passavam o dia assistindo pornografia na internet, jogando videogames e tocando tambor na universidade. Estudar? Nunca. Assistiam uma que outra série televisiva ou documentário no History Channel, canal do qual sabemos a sua imprescindível importância para o avanço da historiografia moderna. (É por isso que digo, e meus amigos riem-se, que no futuro será requisito para a graduação nas faculdades de história uma cadeira em “documentários televisivos”, ou então, pior, em “filmes hollywoodianos”, que sabemos serem de uma precisão histórica astronômica).

Como já é de praxe, a Idade Média tornou-se algo como um bode expiatório para todas as mazelas de períodos posteriores, enquanto a Igreja Católica, em grande parte, tornou-se no bode dos separatistas. A título de exemplo, um dos episódios mais fantásticos associados à Igreja, é o das conhecidas bruxas de Salém. Salém, em Massachusetts, que fazia parte das hoje antigas Treze Colônias, era composta em grande parte por cristãos separatistas (puritanos), que buscando fugir da repressão anglicana na Inglaterra, viajaram às Américas e povoaram a costa atlântica dos EUA. O episódio é hoje reconhecido como um dos maiores exemplos de histeria coletiva das Américas, em que diversas mulheres foram enforcadas por associação com a bruxaria, episódio que, contudo, teve nenhuma relação com a Igreja Católica. Nesse sentido, a caça às bruxas na América foi em sua maioria um movimento adjunto da Igreja Protestante. Não o bastante, diversas pesquisas publicadas nos últimos anos estipulam que pelas mãos da Igreja Protestante, 150 mil bruxas tenham sido julgadas na Europa.

Outro exemplo de incoerência histórica e desinformação acerca da Igreja Católica, foi o do famigerado Malleus Maleficarum, “O Martelo das Feiticeiras”, um manual que endossava o extermínio das feiticeiras, prescrevendo práticas e teorias teológicas acerca da metodologia de perseguição. Este livro, escrito pelo clérigo católico Heinrich Kramer, e publicado na Alemanha em 1487, foi amplamente rejeitado pela Igreja Católica, e do mesmo modo, as tentativas de Kramer para obter apoio de inquisidores e teólogos reconhecidos foram amplamente rejeitadas. Seu livro foi condenado pela Faculdade de Cologne como antiético e ilegal, além de inconsistente com a doutrina católica. Kramer foi considerado louco e herege, tendo sido expulso de onde vivia pelo bispo do local. Contudo, Kramer utilizou-se de uma bula papal, na qual o Papa Inocêncio VIII reconhecia, três anos antes da criação do livro, a existência de feiticeiras. A utilização da bula, uma terrível falsificação e manipulação de Kramer, conferiu legitimidade ao Malleus Maleficarum, e um suposto apoio de Roma. De resto, o tempo e a desinformação fizeram sua parte em difundir as mentiras e inconsistências da caça às bruxas medieval.

Não o bastante, a Inquisição espanhola, que durante muito tempo foi tida como a mais cruel e violenta, teve, na verdade, sua imagem distorcida por movimentos protestantes engajados em difamar a Igreja Católica e sua associação com o Reino da Espanha, que na época era a maior potência da Europa. Longe de ter sido aquilo que pintam as historietas, durante a Inquisição espanhola, na vanguarda do direito moderno, cada processo inquisitorial foi devidamente registrado e arquivado, compondo um arquivo legal que se estende ao longo de 300 anos. Documentos que somente nos últimos anos tem vindo à tona, sendo hoje analisados por pesquisadores comprometidos com a verdade. A Santa Inquisição está longe de ser a fábula cabulosa para crianças na qual querem que você acredite.

Atualmente, o jovem brasileiro, um verdadeiro idiota útil, tem grande dificuldade de enxergar para fora das viseiras que veste. Além de não possuir nenhum tipo de interesse genuíno pela verdade histórica, e de não estar comprometido com o conhecimento senão no mínimo do que é exigido, ele anda sem eira nem beira, perdido no vácuo infecundo de sua consciência destruída. Isto se deve em grande parte à educação esquerdista nos parâmetros do MEC, um sistema de ensino que oferta uma educação única e enviesada, marxista e doutrinária. Mas não é de hoje que sabemos da precariedade do sistema educacional brasileiro. Um dos maiores indícios desta precariedade, está no fato de que estudos e pesquisas, principalmente no campo da história, chegam aqui com décadas de atraso, e quando finalmente chegam, são olhados com esnobismo por pessoas que não sabem mais que o Grilo Falante. (Faço um adendo: se é que estes estudos um dia chegam, senão através de material importado por preços absurdos).

Como dizem, um dos requisitos essenciais para você ser massa de manobra, consiste primeiramente em não saber que você é massa de manobra. Por isso, devemos estar engajados em difundir a verdade histórica; o conhecimento como ele é. Do mesmo modo, cabe a nós interessarmo-nos pela busca destas verdades, jamais aceitando de bom grado aquilo que nos impõem, principalmente quando isto vem tal e qual difundido por governos corruptos e incapazes.

Entre todas as grandezas da Idade Média, bem como entre todas as suas tragédias, talvez seu maior fracasso resida em que, apesar de todos os seus esforços pela preservação do conhecimento, eles não tenham sido suficientes para evitar que chegássemos ao fatídico ponto do Homo Ignarus (o homem ignorante) de hoje em dia.

Guilherme Rasador

Guilherme Rasador é acadêmico de Relações Internacionais.

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