Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Magistério: coragem e sacrifício

Um estudo promovido pela Fundação Lemann e pelo Instituto Futuro Brasil, que veio a público pelo jornal Folha de S. Paulo, desnuda com toda crueza uma das mais sacrificadas profissões na história da humanidade. É velha e sempre lembrada em época de eleições, com promessas vãs e quase nunca cumpridas: a política educacional e seu instrumento principal, o professor. A triste realidade, segundo este estudo baseado em dados oficiais, é que esta profissão atrai com frequência jovens com dificuldades acadêmicas e sociais. Ou seja, são originários de famílias de baixa renda e escolaridade sofrível. Isto, com certeza, refletirá mais tarde nas dificuldades do dia a dia em sala de aula.

Este estudo, pela sua seriedade, deve ser encarado como um assustador alerta às autoridades educacionais brasileiras, se realmente desejarem fazer uma necessária e urgente revolução educacional.

Só que não. De lá para cá, a coisa só piorou. Hoje um dos maiores problemas dos professores é a violência dentro das escolas, entre os seus próprios alunos.

A mudança educacional não passa primordialmente por avanços tecnológicos e inclusão da escola na era digital, como é comum se ver em pronunciamentos governamentais. Parece que a existência de computadores nas escolas é panaceia para todos os males da educação brasileira. Mas está aprovado que o principal elemento que deve ter a atenção do governo é o instrumento humano da educação, ou seja, o professor. Se não houver uma profunda preparação do professor com educação continuada, e acima de tudo, com elevação do seu status social, melhor consideração por parte da sociedade e, em seu bojo, uma remuneração condigna, não haverá máquina que elevará a auto-estima e o nível intelectual dos professores.



Pois bem. Em alguns países, ainda segundo este jornal, como Coréia e Finlândia, que contam com os melhores sistemas educacionais do mundo, os que se dedicam ao magistério são escolhidos entre os alunos com melhores pontuações no ensino básico. Aqui, porém, ocorre o inverso. Os melhores alunos procuram outras profissões, ditas de excelência, com mais status e remuneração. Parece até, infelizmente, que o magistério significa uma opção para quem não tem opção. O professor Roberto Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, certa vez fez uma triste e trágica visão desta realidade, ao afirmar que a “profissão é desprestigiada, a maioria daqueles que escolhem trabalhar como professor o faz porque o curso superior na área é mais fácil de entrar, barato e rápido”.


Mas esta situação deve e pode se modificar. Mesmo porque neste turbilhão de desesperança, o país conta com excelentes e corajosos professores, que superam dificuldades inúmeras, incluindo a precariedade de infraestrutura. A isto vem somar um novo componente contemporâneo a ser enfrentado pelos professores: a violência de uma sociedade em crise que com frequência ultrapassa os muros das escolas.

Porém, no cotidiano do sistema educacional, existem grandes atitudes, dignidades e coragem que servem de bandeiras aos novos professores. Lembro do meu velho mestre, infelizmente já falecido, o sociólogo Maurício Tragtemberg, que influenciou gerações e gerações de estudantes com suas aulas magníficas, só para citar alguns deles. Tragtemberg foi um intelectual ímpar e lecionou por muitos anos, nos tempos da repressão da ditadura militar, em escolas do ensino fundamental.



O jornal citado entrevistou sobre este assunto, o conhecido mestre, filósofo e educador, Dermeval Saviani. Lembro-me deste colega, pequeno e franzino que se agigantou com o tempo na área de educação, e no começo, já formado, dava aulas de filosofia no Colégio e Escola Normal “Plínio Barreto”; e eu, ainda estudante, carregava a bandeira da História, dando aulas como professor contratado em regime precário na mesma escola.

Saviani, com a sua sensibilidade costumeira fez na ocasião da reportagem uma síntese da evolução histórica da educação brasileira, afirmando que com o período republicano o professor adquiriu um elevado status social na sociedade, em especial nas pequenas cidades, e tinha o respeito de todos. Com a massificação do ensino, a educação deixou de ser elitista e passou a atender cada vez mais alunos. A tragédia dos professores começou assim. Salviano diz, com muita coragem que “a opção dos governos foi atender mais gente com praticamente os mesmos recursos. Por isso, os salários foram reduzidos, e o prestígio dos professores diminuiu muito. O docente virou um simples funcionário público”.

Esta discussão merece ser levada à toda sociedade, que deve exigir dos governantes, mais seriedade e compromissos com a educação e com a dignidade profissional de seus mestres.

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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