Luiz Tarcisio Brito Filomeno

Médico. Professor-Doutor. Ex-Cirurgião Supervisor do "Serviço de Cirurgia do Tórax" do Hospital das Clínicas da F.M-U.S.P.; Ex-Professor-Doutor da Disciplina de Cirurgia Torácica da Faculdade de Medicina da USP; Ex-Cirurgião Torácico e Chefe da Broncoscopia do Hospital Sírio-Libanês; Ex-Intensivista da UTI do Hospital Osvaldo Cruz (São Paulo); Cirurgião Torácico e Intensivista da Equipe Médica a Presidência da República.

O "suicídio" de Tancredo

Eram cerca de 11:40hs do dia 20 de março de 1985, uma quarta-feira. Como soía acontecer, nesse momento eu estava participando da Reunião Semanal entre as Disciplinas de Cirurgia Torácica e a de Pneumologia, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Nesse momento, a secretária da clínica abriu a porta e anunciou: “Telefonema de Brasília urgente para o Dr. Tarcísio!”...

Isso não me surpreendeu, pois lá morava um tio que vivia adoentado. Na certa queria pedir-me alguma orientação. Mas quem estava ao telefone era o meu colega do H.C., Dr. Ivan Cecconelo (atual Titular da Disciplina do Aparelho Digestivo da FMUSP) e então Chefe da UTI do Hospital Osvaldo Cruz, onde eu era plantonista às sextas e domingos à noite.

“Vamos reoperar o Dr. Tancredo (que era bacharel em Direito) às 14 horas e precisamos de você aqui imediatamente, para nos ajudar a cuidar dele no pós-operatório!!”.

Sabendo que naquela tarde eu não tinha nenhuma cirurgia marcada, disse-lhe que, sem dúvida, eu iria à Brasília, porém, não poderia ser “imediatamente”, pois não tinha a menor ideia de a que horas haveria um voo para lá...

“Não seja caipira ele disse, vá a Congonhas AGORA MESMO e apresente-se à “Vaspinha!”. E desligou!

Não entendi completamente o recado, mas fui até em casa, meti uma muda de roupas numa mochila, tomei um táxi e fui para o aeroporto. No caminho pensei “bom... Vaspinha deve ter alguma coisa a ver com a VASP”... (Viação Aérea São Paulo, que ainda existia naquela época e pertencia ao Governo Estadual).

Lá chegando fui direto ao balcão de atendimento da VASP e perguntei à recepcionista por detrás dele se ela poderia me esclarecer o que era “Vaspinha”.

Ela pressurosamente respondeu: “Ah, o senhor é o Dr. Filomeno”? Fiquei um tanto quanto perplexo... Como é que ela poderia saber o meu nome e pedir essa confirmação? Mais tarde naquele dia pude compreender.

Quando o Professor Pinotti (então o Titular da Cirurgia do Aparelho Digestivo da FMUSP, e que fora encarregado de cuidar do Presidente-Eleito Tancredo Neves após sua 1ª. mal sucedida operação) comunicou ao seu Assistente, Dr. Ivan, que iria reoperar o Tancredo, ele disse que então precisaria chamar mais alguém para ajudar nos cuidados e vigília do pós-operatório, ou seja, para poder revezar os plantões de 12 horas ao lado desse ilustre e grave paciente, e deu-lhe o meu nome.

Após comunicar a família sobre a necessidade da reoperação, disse-lhes também que, “com a máxima urgência”, providenciassem minha vinda à Brasília. A família, muito assustada, logo foi falar com o então Presidente-em-Exercício, o “ganster maranhence" José “Corleone” Sarney. Este, incontinenti, ligou para o Governador de São Paulo, Franco Montoro, solicitando que liberasse o ‘jatinho’ do seu Governo para me levar à Brasília, pedido esse ao qual ele prontamente atendeu.

Mas... voltando ao balcão da VASP. A funcionária que me recebeu explicou-me que “Vaspinha” era um departamento da VASP que cuidava exclusivamente das aeronaves do Governo do Estado que, naquela época, contava com dois Learjets e dois Helicópteros. E a seguir disse “Queira me acompanhar, que sua aeronave já está pronta para partir”...

Atrás do balcão havia uma porta, que ela abriu, e que dava acesso direto à pista do aeroporto. Caminhamos por ela e, cerca de 50m à frente, entramos num hangar onde um daqueles jatos estava já com as turbinas zunindo alto no meu ouvido. A escadinha estava abaixada e, ao lado dela, fui simpaticamente recebido pelo comandante do avião, batendo continência!

Além do piloto, do copiloto e de uma aeromoça (que já não era tão ‘moça’... e nem de longe se parecia com uma daquelas dos filmes “Aeroporto”...) só havia eu naquele avião. O jatinho logo ganhou a pista e decolou. E em apenas 50min aterrissamos em Brasília. Como tratava-se de uma “missão oficial”, segundo o comandante, o avião pousou na Base da Aeronáutica e não no Aeroporto Internacional.

Havia já na pista uma limusine me aguardando, a qual prontamente me levou ao “Hospital de Base", onde me comunicaram que Tancredo estava sendo reoperado.

Fiquei aguardando instruções na sala de espera do Centro Cirúrgico, até que, cerca de 40 minutos depois, abriram-se as portas e de lá saiu uma maca transportando o Dr. Tancredo, tendo ao seu lado direito o Prof. Pinotti e o anestesista que participou da cirurgia, e à sua esquerda os dois assistentes do professor.

Quando o Dr. Ivan me avistou, apressou-se a me encontrar e disse baixinho: ”Olha aqui meu amigo, estamos em Brasília há 72 horas e sem pregar os olhos nem por um segundo. Portanto, vamos para o hotel descansar e você assuma o caso. Antes de sair contou-me resumidamente o que se passara antes: na terça-feira dia 5 de março (10 dias antes da posse, que seria em 15 de março de 1985) o Dr. Tancredo começou a sentir um “desconforto” abdominal e chamou o médico clínico da família. Após fazer a Anamnese e o Exame Físico o facultativo não notou nada de anormal e medicou-o com analgésicos.

Porém, dois dias depois, o “desconforto” evoluiu para uma dor abdominal severa, e o clínico foi novamente chamado. Ao examiná-lo novamente, dessa vez sentiu algo “estranho”... e achou melhor chamar um Cirurgião Geral para avaliar o caso. Este, assim que começou a palpar o abdome do paciente logo parou e disse algo como “O senhor deveria ter sido operado anteontem, pois está com “Abdome em Tábua” e isso é indicativo de peritonite”!! [nessas condições os músculos da parede abdominal se retesam tanto que, ao se palpar o abdome, não se consegue aprofundar a mão, como se faz numa pessoa normal, pois a parede está tão dura “como se houvesse uma tábua sob a pele”...].

Para surpresa e espanto dos dois médicos, entretanto, a resposta do paciente foi a seguinte: “De maneira alguma! Ninguém vai me internar em hospital algum e muito menos me operar, pois dentro de oito dias vou assumir a Presidência do Brasil e não poderei fazer isso num hospital! O senhor me dê aí uns antibióticos, anti-inflamatórios e o que mais puder, que eu vou levando”...

É claro que sua condição de saúde e seu sofrimento só fizeram piorar com o passar dos dias. Tanto, que na véspera da posse, durante uma missa celebrada na Catedral de Brasília, combinada adrede para “Comemorar o fim da Ditadura Militar”, Tancredo ajoelhou-se para rezar, mas não conseguiu se levantar! Uma ambulância foi chamada, ele foi urgentemente removido para o Hospital de Base e rapidamente operado pelo Dr. Pinheiro da Rocha, um homem probo, digno e respeitado profissional, na faixa dos seus 50 anos, um cirurgião bem experiente, portanto.

O que ele encontrou ao abrir o abdome do paciente foi um “Divertículo de Meckel” já perfurado, daí a peritonite!... Esse divertículo é uma má-formação congênita, localizado no final do intestino delgado, na porção denominada íleo, que tem a forma de uma pequena bolsa [1 a 2cm] e que habitualmente é assintomática. Porém, quando o seu colo [ou o pescoço que o liga ao intestino] é obstruído por um fecalito, [pequeno fragmento de fezes], por exemplo, as bactérias normalmente ali presentes se multiplicam à vontade e, aos poucos, vão destruindo suas paredes, até que, uma vez perfuradas, bactérias e fecalitos ganham livre acesso à cavidade peritoneal, causando uma Peritonite que, se não tratada logo, evolui para uma Septicemia que costuma ser fatal em praticamente todos os casos.

A evolução geral e abdominal no pós-operatório imediato não foi favorável. Os intestinos continuavam paralisados, isto é, o paciente não estava eliminando gases nem fezes, o que é um mau sinal. Foi por este motivo que, cinco dias após esta primeira operação (20 de março de 1985), o Prof. Pinotti decidiu reoperá-lo.

Desta vez o problema era outro. Uma alça do intestino delgado entrou no estreito espaço que existe entre o baço e o diafragma, ficou dobrada e, portanto, “fechou o trânsito”... Bastou então desfazer essa obstrução e fechar a incisão abdominal.

Todavia, em virtude do estado de “Sepsis” (septicemia, ou seja, bactérias circulando por TODO o corpo e atacando TODOS os órgãos!..) ao chegar na UTI o paciente estava bastante descompensado: Pressão arterial [PA] = 180 x 120mmHg, Pulso = 140bpm, oxigenação do sangue muito baixa, com distúrbios hidro-eletrolíticos ... etc.

Das 16hs dessa tarde às 10hs da manhã seguinte fiquei cuidando dele sozinho, exceto pela presença de uma enfermeira, e tomando as muitas providências necessárias para normalizar suas funções vitais.

O maior incômodo não foi passar a noite em claro, tendo que fazer reavaliações e intervenções a toda hora, mas sim estar sendo observado (ou seria “vigiado?”...) continuamente por quatro pessoas que passaram toda a noite sentados bem em frente ao leito e bem próximos a mim. Eram elas a Dna. Risoleta Neves (esposa), o Dr. Aluísio Neves (irmão mais velho de Tancredo, médico, mas há muito que se aposentara), a Sra. Maria do Carmo Neves (filha) e o ‘filhinho promissor’ dela, 'Aecinho' (à época com 25 anos de idade).

Na manhã seguinte, quando o Prof. Pinotti e seus dois assistentes retornaram à UTI, encontraram o paciente numa situação bem diferente da qual o haviam deixado: a PA estava agora em 120 x 80mmHg, o pulso em 84bpm, e a oxigenação do sangue tão boa que logo foi possível suspender a Ventilação Mecânica e remover o tubo endotraqueal, de maneira que, num átimo, Tancredo pode conversar com seus familiares.

Uns 3 dias depois dessa noite o Dr. Aluísio, muito educado, calmo e cordial, me confidenciou o seguinte: após haver me observado em ação por algum tempo, a Dna. Risoleta lhe teria dito “Aluísio... quem é esse menino que não para de dar ordens e mexer no Tancredo?”... Ao que ele me disse ter-lhe respondido: “Risoleta, se o Professor Pinotti o escalou para ficar aí, é porque ele o conhece bem e sabe da sua competência”...

A evolução clínica de Tancredo após esta segunda operação foi ‘lisa’, isto é, sem incidentes. A cada dia ele se sentia melhor. Já não passava os dias no leito, mas sim numa poltrona, mas ainda dentro da UTI.

Aliás, lembrei-me agora de um outro curto diálogo que tive com o Dr. Aluísio. Realmente, durante todo o decorrer daqueles dias, havia um frenético entra-e-sai de ministros, senadores e dePUTAdos naquela UTI, que chegavam a atrapalhar nosso trabalho, pois todos queriam de-ta-lhes do que se passava. Mais tarde, à noite, conversando ‘abobrinhas’ com o Dr. Aluísio, ingenuamente comentei: “Puxa, como o Dr. Tancredo é querido... não há um político de Brasília que não tenha vindo visitá-lo ao menos uma vez”. E o comentário dele foi o de quem conhecia bem o “Lupanar” que era, e sempre foi, sempre viria a ser e sempre SERÁ Brasília, a menos que a classe política seja extinta para sempre e, ao invés de termos des-Governos, passemos a ter uma Administração do País. O que ele me disse foi: “Meu filho, não se engane, eles não vieram aqui para ver o Tancredo, e sim para serem vistos”...

No sábado (23/03/1985) Tancredo levantou-se e, caminhando, percorreu o corredor de cerca de 7 metros que separava o boxe em que estava da sala de espera daquela UTI, local onde foi tirada aquela famosa e destratada foto oficial, que saiu em todos os jornais do país, e quiçá em alguns internacionais também. Muitos diziam que era um embuste, que era outra pessoa ali, que a foto fora maquiada... Ou seja, a sempre presente “Teoria da Conspiração”... Tais notícias não eram mais que elucubrações e mentiras.

Nesse dia Tancredo já não tinha sonda naso-gástrica, nem drenos abdominais, nem sonda vesical. Mantínhamos nele apenas um soro fisiológico conectado ao cateter intravenoso, para que este não fosse obstruído por pequenos coágulos sanguíneos. Mas seus intestinos ainda não tinham peristaltismo, isto é, não tinham as contrações rítmicas que impulsionam gases e fezes para fora.

Porém, no dia seguinte, domingo 24/03/1985, no final da tarde Tancredo chamou um enfermeiro e solicitou que lhe trouxesse a ‘comadre’ (vaso sanitário portátil). Houve um rumor de entusiasmo entre familiares, equipe médica e os muitos políticos que viviam aos bandos por ali (acho que ‘Bando’ é o coletivo mais adequado aqui, né...).

Por coincidência, era eu quem estava de plantão naquela tarde. Sim, ele eliminou gases e 'fezes', mas o principal conteúdo dessa evacuação era constituído por cerca de 1 litro de sangue puro, vermelho-rutilante, ou seja, ele havia tido uma volumosa e grave hemorragia intestinal (enterorragia) há poucos instantes, e sua Pressão arterial caiu de 120 x 80 para 90 x 60mmHg. Como a enfermagem estava muito ocupada higienizando o paciente, liguei 1 litro de substituto artificial de plasma no cateter que havia nele e fui pessoalmente ao Banco de Sangue do hospital para obter as bolsas de sangue necessárias para a transfusão que reporia suas perdas. Entretanto, quando lá cheguei, não havia ninguém para me atender! Então eu mesmo encontrei na geladeira as bolsas etiquetadas que continham seu tipo sanguíneo, fiz nas lâminas de vidro e no microscópio as reações de compatibilidade, e voltei às presas para a UTI. Lá chegando, soube que naquele ínterim ele havia tido outra enterorragia, desta vez menor, pois evacuou 'apenas' cerca de meio-litro de sangue puro.

Com a infusão do plasma artificial e das bolsas de sangue sua PA voltou aos níveis normais e assim se manteve daí em diante, ou seja, a enterorragia havia cessado.

Foi somente então que pude telefonar ao hotel onde se hospedava o Prof. Pinotti para lhe comunicar o ocorrido. Minutos depois ele chegou à UTI com seus dois Assistentes, para avaliar a situação. Com o paciente agora estabilizado, providenciou uma reunião urgente com os familiares e assessores da Presidência, na qual ficou decidido que iriam transferir o paciente para São Paulo. Depois de tomadas as medidas oficiais e protocolares necessárias, o Dr. Ivan e eu fomos levados à Base da Aeronáutica com a missão de montar uma UTI provisória no avião da Presidência, um BOEING-747. Por volta das 7 horas da manhã levantamos voo e aterrissamos no aeroporto de Congonhas cerca de 90 minutos depois. Desde a estabilização que ocorrera na UTI, Tancredo não teve mais hemorragias e viajou plenamente consciente e sem necessidade de Ventilação Mecânica.

Quando chegamos ao INCOR o paciente foi imediatamente encaminhado para ser submetido a um exame de imagem (Cintilografia abdominal após injeção intravenosa de hemácias marcadas com radioisótopos) o qual mostrou que a hemorragia intestinal persistia. Então, da sala de exames, foi levado diretamente ao Centro Cirúrgico onde foi operado pela 3ª vez. Nessa cirurgia o que se encontrou foi uma pequena artéria rompida, localizada bem na sutura do local onde o tal divertículo de Meckel havia sido removido na 1ª operação. A correção desse pequeno problema, todavia, foi fácil, rápida e definitiva.

O pós-operatório, contudo, não foi como o anterior. Mas essa evolução desfavorável não tinha nada a ver com os procedimentos cirúrgicos, e sim com os repetidos episódios de bacteremia (quando as bactérias circulam aos milhões por todo o organismo) que ocorriam por várias vezes todos os dias, a despeito dos 6 antibióticos mais modernos e potentes que ele vinha recebendo. Com isso o estado de Tancredo foi se deteriorando. Alguns dias depois os rins pararam de funcionar e ele necessitou ficar ligado a uma máquina de hemodiálise contínua. Os pulmões também estavam dando sinais de falência progressiva, pois a cada dia era necessário aumentar a concentração do oxigênio que o aparelho lhe enviava a cada ciclo respiratório.

Diante de uma evolução dessas o resultado não costuma ser outro senão o “êxito letal”. No caso dele, por extrema coincidência, isso ocorreu exatamente na manhã de 21 de abril, “Dia de Tiradentes”...

Em março de 2005 (20 anos depois...) recebi um telefonema de um jornalista da Rede Globo. Sabendo que eu havia participado daquela saga, ele perguntou:

“Afinal, de que morreu o Tancredo Neves?”.

“De Mineirice”... respondi.

COMO? ele redarguiu. Aí tive que contar a ele tudo o que acabo de escrever aqui.

Quem porventura se interessar em saber mais detalhes sobre esse importante episódio da História do Brasil contemporâneo poderá encontrá-los num Diário completo, escrito pelo então porta-voz da presidência Antônio Brito, que publicou um livro com o título de “Assim Morreu Tancredo”, poucas semanas depois.

Luiz Tarcisio Brito Filomeno

Médico. Professor-Doutor. Ex-Cirurgião Supervisor do "Serviço de Cirurgia do Tórax" do Hospital das Clínicas da F.M-U.S.P.; Ex-Professor-Doutor da Disciplina de Cirurgia Torácica da Faculdade de Medicina da USP; Ex-Cirurgião Torácico e Chefe da Broncoscopia do Hospital Sírio-Libanês; Ex-Intensivista da UTI do Hospital Osvaldo Cruz (São Paulo); Cirurgião Torácico e Intensivista da Equipe Médica a Presidência da República.

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