Carta Aberta ao ministro Gilmar Mendes

EXCREMENTÍSSIMO SR. MINISTRO GILMAR MENDES,

Mais uma vez o Brasil assistiu atônito, perplexo, boquiaberto outro round da sua guerra pessoal contra o Juiz Marcelo Bretas, que na verdade já se transformou numa demonstração de força contra as instâncias da Justiça que são inferiores à essa casa de saliências chamada Supremo Tribunal Federal.

Com a soltura de quatro doleiros presos num dos desdobramentos da operação Lava Jato, pelo desvio de meros US$ 1,6 bilhão do dinheiro público, agora somamos 19 quadrilheiros que Vossa Excrecência pôs na rua sem um pingo de decência ou qualquer resquício de pudor. Aliás, falar em "pudor" seria falar de algo que Vossa Excrecência desconhece completamente, por ser um termo que não consta no dicionário jurídico que o senhor usa.

Pois bem, graças à sua caneta mágica foram para a rua os doleiros Rony Hamoui, Paulo Sérgio Vaz de Arruda, Athos Roberto Albernaz e Osvaldo Prado Sanches, todos ao seu ver, vítimas do terrível sistema jurídico e de juízes pérfidos que cometem a atrocidade de fazer um judiciário minimamente decente e operativo.

Sua justificativa para soltar os presos? Foi a mais "coerente" e "compreensível" do mundo: Eles não cometeram tais crimes sob violência ou grave ameaça. Apenas roubaram.

Isso, Excrecência, equivale a dizer que milhares de pessoas que hoje se encontram encarceradas também foram vítimas dessa inquisição que é a nossa Justiça, e do qual Vossa Excrecência se colocou como "honroso redentor" e absoluto monarca. E dentre esses presos posso citar dentro da sua linha de raciocínio, aqueles que estupraram mas não bateram, os que roubaram mas não mataram e os que cometeram pedofilia mas deram doces.

Mas com a vossa "data máxima vênia", Excrecência, como assim não houve violência e nem ameaça? Quando seus protegidos desviaram essas quantias bilionárias, todos nós brasileiros fomos lesados! Crianças deixaram de ter escolas melhores; postos de saúde deixaram de ter medicamentos e leitos equipamentos; nossas rodovias deixaram de receber melhoramentos e no final, ainda teremos que pagar uma conta que não é nossa, inclusive o seu salário que também não é escolha nossa, já que se pudéssemos demiti-lo, o faríamos sem qualquer delonga.

Complemento dizendo que suas atitudes é que de verdade são uma grave ameaça ao nosso já combalido Judiciário, ao nome já bastante maculado da Casa de Saliências a que o senhor pertence.

Em tempo, não sei o que quer dizer esse tal de "data máxima vênia" porque não sou advogado, mas também não me interessa saber o latim que o senhor gasta para fazer aquilo que em palavras claras eu não faria. Em contrapartida eu sei o que é honestidade, decência, pudor e hombridade, que não constam no seu vocabulário e menos ainda nas suas atitudes, tendo em vista que Vossa Excrecência se vale do seu corroído e corrompido latim apenas para lesar uma nação inteira, e que é aquela que te dá assento na Casa de Saliências (ou permissões).

Sei que o senhor deve conhecer as famosas citações que transcreverei agora (embora não as compreenda), mas vale à pena relembrá-las, pois caberiam numa reflexão que viesse, talvez, a transformá-lo de Excrecência em Excelência, embora hoje o Brasil duvide de tal capacidade e não acredite nem que por obra divina esse milagre possa acontecer;

A primeira citação é do Talmude Babilônico: "Infeliz da geração cujos juízes merecem ser julgados." Infeliz realmente é a nossa geração.

A segunda, do grande jurista Ruy Barbosa, que com tanta propriedade e atualidade diz que "de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

A julgar pelo seu caráter, Excrecência, não desejo ao meu pior inimigo que, se preso, tenha a desonra de ser solto por um habeas corpus assinado pelo senhor. Seria como a vergonha de ser batizado por criminoso, o que me faz pensar não mais em quando a Justiça será feita, mas por quanto.

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