Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

A intrínseca ligação entre a herança de um milionário africano e os HCs de Lula

Como você sabe que aquele e-mail do banco pedindo para atualizar a senha é uma cilada, que a herança deixada por um milionário africano é duvidosa, ou que o pedido de amizade da modelo de olhos súplices e seios arfantes (mesmo na foto dá para ver que os seios são arfantes) é ‘feique’?

Pode ser um pressentimento, um sexto sentido, falta de fé na Humanidade, dedo podre para oportunidades imperdíveis – mas eu fico com um pé atrás.

Até acreditaria na modelo se ela, com aquela autoestima toda (750 ml, no mínimo) não fosse tão tímida a ponto de dizer apenas “hi” na primeira investida. Timidez e um biquíni daqueles, sei não.

Até acreditaria na herança africana ter vindo justamente para mim, entre sete bilhões de terráqueos, se não houvesse pelo mundo tanta modelo de olhos súplices e seios arfantes em busca do amor verdadeiro, muito mais merecedoras do que eu.

E até acreditaria que corro o risco de perder o acesso à minha conta num banco em que nunca tive conta, se o mail não tivesse tanto erro de português.

Pelo mesmo motivo, a presidente do STJ deve ter analisado com cautela os 143 habeas corpus padronizados pedindo a soltura de Lula.

Eles contêm mais erros gramaticais que os mails do banco, os motivos apresentados são menos convincentes que os do defunto nigeriano, e sua sinceridade e falta de malícia são páreo duro para os olhos arfantes e os seios súplices da modelo de biquíni que tem um crush por mim.

No HC de papelaria, Lula é qualificado como “brasileiros”, no plural (será erro de digitação ou mensagem subliminar de que somos todos Lula, como afirmou uma filósofa?) e, feito mão boba, a vírgula entra onde não devia (“cumprimento antecipado da pena, de reclusão”).

Assim como na política confundem o público e o privado, confunde-se no HC “esta” e “essa” (“será anulado por esta 5ª Turma”), “porque” e “por que” (“por que supostamente estaria pacificado”), maiúscula e minúscula (“paciente” e “Paciente” usados indistintamente, “pessoa física, Cidadão comum”, “com o Direito previsto na Constituição”, “lesão a Direito de ir e vir”, “garantir o Direito Constitucional de ir e vir”, “atuando como legislador Positivo”, “roga pela concessão do presente remédio Heroico”).

Os plurais que o prisioneiro não usa são compensados (“esta Colenda Corte Superior detêm competência”) e, como se fosse literatura contemporânea, muda-se da primeira pessoa (“NÃO ACEITO QUE SEIS MINISTROS DO SUPREMO TRIBUNAL REVOGUEM” – assim mesmo, em capisloques) para a terceira (“roga pela concessão”, “pede deferimento”), sem nem dar seta.

Segundo o Santander, eu só preciso clickar no link abaicho.

Segundo a viúva nigeriana, os milhões de dólares do seu “atrasado marido” continuam me esperando (incrível como todos os maridos morrem atrasados quando se usa Google Tradutor).

Segundo a modelo de arfantes 750 ml, ela só quer mesmo a minha amizade.

“Segundo diversos juristas” e “segundo o Professor Afrânio Silva Jardim, dentre outros renomados juristas”, Lula tem que ser solto porque Lula não pode ficar preso.

Ainda bem que, como eu, a presidente do STJ aparentemente também sofreu opressão linguística desde o ensino fundamental, e não cai facilmente nesses golpes. E olha que não deve faltar militar americano de meia-idade servindo no Afeganistão querendo a amizade dela.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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