As seitas farsantes: a do nepotismo neopentecostal e a dos companheiros militontos

‘Nós temos que aproveitar que Deus nos deu a oportunidade de estar na prefeitura para esses projetos andarem’, disse o prefeito, a portas fechadas, sem se dar conta de que os celulares são onipresentes, e tudo gravam.

Os “projetos” não eram de moradia digna, transporte eficiente, saneamento básico, ensino de qualidade, saúde da família ou segurança pública. Tampouco se destinavam à população em geral, mas a um povo escolhido pelo critério do nepotismo neopentecostal: os “irmãos”. Eram só para seus olhos, pernas e canais deferentes as facectomias, escleroterapias e vasectomias pagas com os impostos de todos. Era só falar com a Márcia, uma espécie de despachante das oportunidades divinas.

Quase ao mesmo tempo, outra seita também não resistiu à janela de oportunidade que lhe foi concedida ao ter de plantão, a seu dispor, nada menos que um desembargador. Não um qualquer, desses que desembaraçam decisões de instância inferior, mas um militante, a serviço de outro povo escolhido: os “companheiros”.

“Nós temos que mudar este país”, disse o prefeito. A fala poderia estar no despacho do desembargador, empenhado em mudar não só o país, mas o dicionário, aceitando como “fato novo” algo já velho de meses, e estreitando o significado do verbo “desembargar”.

Se no Rio é “só falar com a Márcia” e cataratas serão sugadas, veias estarão preenchidas e espermatozoides não verão mais a luz no fim do túnel, em Curitiba bastava recorrer ao Rogério e as portas se abririam.

Márcia e seus pacientes, assim como o paciente do habeas corpus de Rogério, pertencem à categoria dos que se consideram eleitos – um, de forma literal; os outros, metaforicamente.

Padecem todos da mesma doença, o oportunismo. Cometem o mesmo pecado, a prevaricação, que, para a justiça dos homens, é praticar ato contra disposição expressa de lei, a fim de satisfazer interesse ou sentimento pessoal; para a divina, é adulterar, perverter, trair.

Não se envergonham, uns e outros, de conceder ou usufruir de privilégios incompatíveis com seu discurso de ética cristã ou de valores democráticos.

O messianismo do prefeito (“É esse Brasil evangélico que vai dar um jeito na pátria”) não difere muito do sebastianismo dos que esperam ver retornar, mais vivo que antes e três meses depois de perdida a batalha da prisão, o líder que um dia achou que daria um jeitinho brasileiro na pátria.

Contra a chicana jurídica, já se levantaram a presidente do Superior Tribunal de Justiça e a Procuradora Geral da República. Contra gincana das cirurgias, a Câmara Municipal do Rio.

“Entre nós não há corrupção. Nós somos a esperança”, disse o prefeito – agora candidato ao impeachment. Poderia ter sido o candidato – agora, como antes, prisioneiro das narrativas que criou.

São duas seitas, cada uma com suas márcias e rogérios, e há muito deixaram de ser um partido de companheiros em torno de um projeto de país ou uma congregação de irmãos de fé. Não estão à direita ou à esquerda, mas centradas em si mesmas e em seus planos de poder.

O que tivemos, nos últimos dias, foi só mais uma chance de conhecê-las melhor. Não devíamos desperdiçar esta oportunidade.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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