As fases de Lula como escritor: do artigo para o Le Monde ao bilhete para o Wagnão

Temos fases, como a lua.

Quem escreve, principalmente.

Por vezes, amanhecemos inspirados, com as frases fluindo pelos dedos. Outras, depois de meia hora batucando esterilmente no teclado, não conseguimos mais que começar um texto com um clichezão desses, o das fases da lua.

Paciência.

O que consola é saber que isso acontece com todo mundo. Até com gênios como o Lula.

Há manhãs em que ele acorda em modo textão, senta-se ao ‘lepitope’ e redige um artigo de 5.427 toques para o Le Monde, dizendo

“tenho certeza de que posso resgatar a credibilidade do governo, sem a qual não há crescimento econômico nem a defesa dos interesses nacionais”.
Em outras, talvez após sonhos intranquilos, pega uma bic e uma folha de caderno, e rabisca
“Wagnão diga bem alto prá todo mundo ouvir, sou candidato a Presidente porque tenho certeza que posso Recuperar o Brasil recupera empregos, salários escola, saude autoestima, dignidade, e a soberania do nosso povo”.
São as fases.

Num dia você sabe que “quem tem certeza” tem certeza “de” alguma coisa – dias depois, essa certeza do uso da preposição argumental já foi por água abaixo.

No artigo pro Le Monde, é capaz de articular dados estatísticos:

(“Em dezembro de 2014 o desemprego no Brasil era 4,7%. Hoje está em 13,1%”), mencionar o G-8, o G-20 e elencar os BRICS (“reunindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul").
No papel pautado, trata a História como se fosse estorinha infantil
(“O Imperador Dom Pedro I criou o dia do Fico”).
Pode ser o frio.

O primeiro inverno em Curitiba a gente nunca esquece.

Pode ser o excesso de leitura.

Ou pode ser a lua mesmo.

Lua cheia, neste frio, e tendo apenas livros por companhia, faz qualquer um que tenha escrito

“Para me prender, e tentar me impedir de disputar as eleições ou fazer campanha para o meu partido, tiveram que ignorar a letra expressa da constituição brasileira”
passar a escrever
“Os adverçarios sabem que quando governei o Brasil, foi o melhor momento, da nossa historia”.
Há que considerar que o lepitope tenha corretor ortográfico e não deixe passar Ç por S, maiúsculas, acentos etc. E que o moço do Le Monde tenha marretado alguma coisa para ficar nos conformes com o Manual de Redação e Estilo da firma.

Mas, entre altos e baixos, sejam tempos de vacas obesas ou anoréxicas, o essencial do autor permanece: a fantasia.

No Le Monde: “(...) tivemos a maior inclusão social da história, que teve continuidade no governo da companheira Dilma Rousseff. Tiramos 36 milhões de pessoas da miséria extrema e levamos mais de 40 milhões para a classe média. (...) prometi, lutei e cumpri a promessa de que todo o brasileiro teria direito a três refeições por dia, para não passar fome que passei quando criança. ”
No papel de carta:
“E eu vou criar o dia do Volto para junto com o povo fazer o Brasil Feliz outra vez. ”
Quem escreve percebe, mais que qualquer outro, o quanto se oscila ao sabor dos hormônios, dos contratempos, da Musa que não dá as caras, do bloqueio criativo que insiste em não arredar o pé.

Dos apostos entre vírgulas às vírgulas ao acaso, das “concessões” aos “porisso”, do textão concatenado pro Le Monde ao bilhetinho rasurado pro Wagnão.

Todos temos fases, como o Lula.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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