A história de José Dirceu contada por quem o conheceu de perto: Uma história de vida

O líder já nasce feito, a ocasião faz com que ele se manifeste. É um processo natural em todos os tempos da história da humanidade. No período entre 1965 e 1968, na pós-revolução, ou pós-golpe, três jovens acadêmicos de direito, classe média abastada, abalaram o sistema político brasileiro dando as condições que os militares queriam para endurecer o regime. Levaram para as ruas suas atuações internas, antes restritas aos diretórios acadêmicos e disputas de grupos. Era um movimento romântico, descontraído, alegre que, devido às circunstâncias políticas, recebeu o apoio popular e a pesada repressão do aparato militar.

Os jovens tinham o carisma e o dom da comunicação de massa, eram líderes natos, empolgando os populares.

Travassos, Palmeira e Zé Dirceu
Travassos, Palmeira e Zé Dirceu

Luís Travassos, faculdade de direito da PUC-SP, então presidente da UNE, José Dirceu de Oliveira e Silva, também da PUC, e Vladimir Gracindo Soares Palmeira, presidente do Centro Acadêmico da Faculdade Nacional de Direito (Universidade do Brasil, hoje UFRJ), organizaram (com o apoio de intelectuais e políticos contrários ao governo) a “Passeata dos 100 Mil”, em junho de 1968, no centro do Rio de Janeiro. Transformaram-se em personagens nacionais, chamando a atenção da mídia internacional.

Em outubro do mesmo ano, por ocasião do 30º Congresso da UNE,

30º Congresso da UNE
30º Congresso da UNE

realizado em Ibiúna-SP, foram presos por ações consideradas subversivas e contrárias ao regime. Ficaram encarcerados no 4º RI, em Quitaúna, em condições precárias. No ano seguinte, em setembro, foram deportados do país com mais 12 presos políticos em troca do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado em setembro de 1969. Travassos e Palmeira não queriam ir porque achavam que as coisas por aqui seriam passageiras, por isso os três apanharam, levaram coronhadas e chutes.            

Durante dez anos Travassos ficou exilado em Cuba e na Alemanha, e Palmeira morou no México, em Cuba, no Chile e na Bélgica. José Dirceu foi deportado para o México e, posteriormente, exilou-se em Cuba. Fez cirurgia plástica, retornando a São Paulo, clandestinamente. Voltou para Cuba e retornou ao Brasil em 1975, estabelecendo-se (clandestinamente) no Paraná. Com a publicação da Lei de Anistia (1979) Travassos e Palmeira retornaram ao Brasil e José Dirceu legalizou sua situação. Aqui chegando se reintegraram às atividades políticas e ajudaram a fundar e organizar o PT.

Travassos morreu aos 37 anos em um acidente de carro no Aterro do Flamengo.

Eram os tempos da “guerra fria” e dos “anos de chumbo”. Passaram-se os grandes movimentos culturais da Bossa Nova, da Jovem Guarda, da Tropicália e do Cinema Novo, que eles não desfrutaram. A vida não foi muito confortável para eles que ficaram distanciados dos demais jovens e da vida em comum que continuou com normalidade.

Vladimir Palmeira. Irreverente como nos tempos dos movimentos estudantis, foi candidato ao Senado Federal (1982) pelo Rio de Janeiro e elegeu-se deputado federal constituinte em 1986, onde teve um papel de destaque.

Vladimir Palmeira
Vladimir Palmeira

Foi reeleito em 1990. Em 1993 e em 1998, apesar de ter vencido nas disputas internas, o partido rejeitou sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro, sendo preterido em nome das alianças como é comum no PT. Em 2006 foi candidato a governador, mas não se elegeu. Desligou-se do PT em 2011, desgostoso com a história do mensalão. Continua sonhando com a “revolução socialista” até os dias de hoje.

José Dirceu, o maquiavélico articulador político, foi eleito deputado estadual constituinte em São Paulo, em 1986, tendo boa atuação. Foi eleito deputado federal em 1990 e depois (1992) foi candidato ao governo de São Paulo, ficando em terceiro lugar. Em 1995, com o apoio de Lula, se elegeu presidente do PT, se reelegendo em 1997 e 2001 – estruturou o partido à sua cara e semelhança. Os petistas o adoravam e, para mostrarem uma intimidade, que na maioria das vezes não existia, o chamavam simplesmente de “O Zé”. Era assim em todo o território nacional.

Em janeiro de 2003 se licenciou da Câmara dos Deputados e assumiu a chefia da Casa Civil do governo Lula, onde era chamado de super-ministro porque a ele cabiam, efetivamente, as decisões políticas.

O então ministro em reunião no Planalto
O então ministro em reunião no Planalto

Era o grande articulador bajulado pelas lideranças da chamada “base aliada”. Distribuía favores e benesses como se fosse proprietário único dos cofres públicos. Pediu demissão da Chefia da Casa Civil em junho de 2005 devido às acusações de corrupção feitas pelo deputado federal Roberto Jefferson, no caso dos Correios, reassumindo o cargo de deputado federal.

Ele foi substituído por Dilma Rousseff, a gerentona vinda do PDT em 2001. Mas o Zé continuou articulando com os políticos e empresários amigos, dentro e fora do país, e no exterior com os governantes bolivarianos, em nome do esquema montado dentro do poder petista. Aos poucos o emaranhado foi ficando inadministrável.

José Dirceu, que era considerado o sucessor natural de Lula na Presidência da República para as eleições seguintes, em dezembro de 2005 teve seu mandato cassado por quebra de “decoro parlamentar”. O procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, denunciou 40 pessoas ao Supremo Tribunal Federal como participantes do esquema do “mensalão”, por crimes graves, como corrupção ativa, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e peculato. Entre eles foram indiciados os ex-ministros José Dirceu (Casa Civil), Anderson Adauto (Transportes) e Luiz Gushiken (Comunicação Estratégica). Três importantes dirigentes do PT também foram indiciados: José Genoíno (presidente), Delúbio Soares (tesoureiro) e Silvio Pereira (secretário).

Vaidoso, como se fosse personagem de um filme de ficção dos anos 60, após sua cassação, Zé investiu pesado nos cuidados com sua imagem política tendo a militância petista como pano de fundo. Montou uma cara estrutura profissional de jornalistas, publicitários e cineastas para rastrear e responder as notícias divulgadas a seu respeito. Mas de nada adiantou porque o ex-líder estudantil e ex-quase-guerrilheiro tem seu nome envolvido em quatro grandes escândalos de corrupção, de acordo com a justiça: mensalão (onde foi condenado em 2012), dossiê, bingos e petrolão – além dos acertos menores.

Em agosto de 2015 foi preso na “Operação Pixuleco” da operação Lava Jato que investiga os desmandos do petrolão e poderá ser tratado como réu reincidente.

Zé Dirceu, preso na Operação Pixuleco
Zé Dirceu, preso na Operação Pixuleco

A expectativa do Ministério Público é que a sua pena seja de no mínimo 30 anos, correndo o risco de morrer na prisão, longe da família e dos antigos liderados. Ao que parece só restou um enorme patrimônio material, muito dinheiro e nada mais. Os sonhos da juventude e o enorme poder político da maturidade se esfarelaram, só ficando a solidão.

Quando José Dirceu foi preso pela primeira vez, na Papuda, foi tratado pela militância do PT como um heroico preso político e Lula mandou-lhe um recado: “Estamos juntos!” Era o velho romantismo revolucionário nos moldes do grande chefe Che Guevara, de outros tempos. Agora, aos 69 anos, ele está só, foi ignorado pelo PT e Lula recomendou sua desfiliação para não contaminar as eleições de 2018. Entretanto, tudo indica que ele poderá fazer um acordo de delação premiada, o que poderá complicar muito a vida do ex-presidente Lula.

Conheço pessoalmente Vladimir Palmeira e Zé Dirceu, também conheci Travassos, desde os tempos dos movimentos estudantis no Rio de Janeiro. Em várias ocasiões tive oportunidade de conversar com o Zé, quando militante do PT. Inteligente, raciocínio lógico e rápido, palavra fácil, se impunha e era respeitado. Confesso que o admirava e cheguei a duvidar de que ele fosse o maquiavélico articulador denunciado no mensalão, e que ele tivesse a mente criminosa denunciada pela justiça.

Tenho em minha biblioteca um exemplar do livro “ABAIXO A DITADURA – o movimento de 68 contado por seus líderes”, de autoria de José Dirceu e Vlademir Palmeira, com a dedicatória: “Landes, com um abraço petista do Zé Dirceu. Julho/99”.

Melancólico final de história de vida de um líder nacional. E agora, Zé? Resta a realidade de que no futuro todos estaremos mortos.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

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Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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