A última viagem dos heróis

Nos anos vinte do século passado, o professor de história e capitão do exército Pedro Cordolino de Azevedo, da Escola Militar de Realengo, iniciou uma campanha de grande repercussão objetivando arrecadar fundos para a construção de um “Monumento aos Heróis da Resistência à invasão de Mato Grosso”. Foi criada uma Comissão Central para a sua realização, formada por militares, políticos, professores e que se foi renovando no período de 1920 a 1926. Neste belo monumento, resultado de concurso público, estariam representadas em bronze as figuras de Antonio João, do Guia Lopes e do coronel Camisão.
A partir de então, a preocupação era encontrar o local onde foi enterrado o defensor do núcleo militar de Dourados, Antonio João, resultando inicialmente em pesquisas infrutíferas do engenheiro Armando de Arruda Pereira e do general Valentin Benício da Silva. Décadas depois, nos anos quarenta, o corumbaense Francisco de Paula Achilles, que foi diretor do Departamento de Imprensa Nacional na ditadura de Getúlio Vargas, voltou ao mesmo assunto. Depois de passar pela região da antiga Colônia de Dourados, num estilo literário e lírico bem a gosto da política de engrandecimento do Estado, reforçou o sentido épico deste acontecimento em livro. Enfim, todos esses esforços não foram em vão.
Em 6 de novembro de1941, o Jornal do Comercio, de Campo Grande, noticiava que “os restos veneráveis dos heróis de Dourados e Laguna passarão amanhã por Campo Grande para irem repousar no monumento erguido pela nação em sua honra”. Com esta notícia, havia uma convocação cívica para a participação dos campo-grandenses nas homenagens durante a parada do trem na estação ferroviária. Segundo comunicado do Quartel General, “realizar-se-á amanhã, 7 de setembro, a translação para o Rio de Janeiro, onde serão depositados na cripta do monumento erigido na Praia Vermelha, das urnas que contém as ossadas do coronel Camisão, tenente-coronel Juvêncio, tenente Antonio João e de Francisco José Lopes, guia da histórica e legendária coluna que escreveu páginas de sacrifício, bravura e patriotismo da Retirada da Laguna”. Essas ossadas foram transportadas pelo trem da NOB desde o I/5º Regimento de Artilharia da Divisão de Cavalaria, em Aquidauana.
No dia 8 do mesmo mês, o jornal registrou a grande repercussão do evento com a chegada do trem noturno, com o carro especial que conduzia as urnas com os restos mortais desses heróis da guerra com o Paraguai. Segundo esta notícia, estavam presentes nesta homenagem o general José Maria Pinto Guedes, comandante da Região, seu Estado Maior e altas patentes do exército, o juiz de direito Eurindo Neves, o prefeito Vespasiano Barbosa Martins, o promotor militar Waldemar Torres, o médico Nicolau Fragelli, diretor do jornal O Progressista e o redator do Jornal do Comercio, Osvaldo Freitas, além de uma grande massa popular e de um contingente do exército. Ainda sobre este evento, o jornal registrou a presença de Risoleta Lopes Novais, neta do Guia Lopes. 
O meu estranhamento é o fato de não existir em Mato Grosso do Sul um memorial sobre este conflito, que envolveu grande parte do território sul-mato-grossense. Esse memorial deveria contemplar um centro de pesquisas, um repositório de arquivos documentais, uma biblioteca sobre o conflito e um museu de peças históricas. Enfim, um espaço de conhecimento e de encontro de amigos brasileiros e paraguaios, para homenagear os seus heróis. Ressalto que em Corumbá existe uma estátua do general Antonio Maria Coelho e numa praça de Nioaque há um pequeno monumento sobre a guerra, onde será instalado outro, no próximo dia 19 de setembro de 2015, homenageando o coronel Pedro José Rufino.
Aos poucos, a história dessa guerra e de seus combatentes vai sendo valorizada. Pelos enormes dificuldades e heroísmo diante de um conflito que acarreou muito sofrimento aos militares e civis envolvidos, toda a população desta fronteira está a merecer um panteão de heróis.   
Valmir Batista Corrêa

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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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