Sobre o discurso do ÓDIO na política

Ao contrário daquele japonês de Akira Kurosawa, eu não “vivo com medo”; vivo com ódio – a minha será, pois, uma “Anatomia do Ódio”; não do medo.

Eu não disse ainda o que é “ódio” e nem porque eu “vivo com ele”, mas já despertei no leitor o psiquiatra e o padre adormecidos. O psiquiatra me declara “doente” e o padre um “pecador” que deveria perdoar seu inimigo.

Eles o fazem parecendo ignorar que “viver com ódio” não é o mesmo que viver “no ódio”, que este ódio pode ser de uma determinada dimensão, que pode ser uma particularidade da minha vida da qual nem eu nem ninguém consegue escapar – a minha vida política.

Eu não defini também, naquilo que escrevi acima, a história do meu “ódio” - eu não o apresentei como espontâneo nem reativo, eu não disse em que contexto social e cultural (além de evidentemente político) ele se insere.

Afirmo inicialmente que, ao contrário do que prega a tradição romântica ocidental, o “ódio não é o oposto do amor”. Não! Sustento que o ódio nada tem a ver com amor nem mesmo como definição de seu contrário.

Ódio é, eu enfatizo, a ausência do perdão e não originalmente um ato de volição, de uma vontade clara de agredir, perseguir ou ofender e é desta definição que partiremos para fazer aquilo que, erroneamente, pode ser compreendido pelo leitor como uma “apologia do ódio” - sobre fazer coisa assim digo ser ato típico dos espíritos pequenos e não desenvolvidos que, no seu sofrimento, precisam estimular o ódio dos outros para esquecer do seu. Quem odeia sofre – todo ódio é, pois, um tipo de paixão. Paixão foi, é e sempre será, em Filosofia, a impossibilidade da Razão.

Tudo que escrevi até agora tem valor do ponto de vista do indivíduo e decorre da definição que usei – ódio como ausência do perdão – que o ódio é, também e fundamentalmente, a ausência da felicidade pois, se é possível viver como eu vivo (com ódio), não é possível viver NO ódio.

Ditas estas coisas iniciamos agora um segundo questionamento – é válido isto que eu acabei de escrever quando aplicado à Política?

A Política, eu já o disse uma vez, nasce “oficialmente” em cerca de 431 A.C. quando Péricles fez seu famoso “Discurso em Homenagem aos Mortos na Guerra do Peloponeso”, discurso este que, tragicamente, me parece ter confundido para sempre a ideia de Política com Democracia – coisa que foi de grande valia para Política e uma tragédia para aquilo que tinha sido, até então, a Filosofia Política.

É, pois, no campo da Filosofia Política, naquilo que restou de toda Filosofia Política, que devo agora prosseguir nossa investigação.

Quando Catherine Colliot-Thélenè escreveu “Filosofia Política: Poder e Democracia” na “História da Filosofia” de Jean François Pradeaus, ela mostrou o perigo que se corre ao fazer das instituições democráticas dos países ocidentais um modelo perfeito e inquestionável de Democracia.

Catherine, assim eu o creio, mostrou que, ao tornarmos o discurso democrático uma espécie de soteriologia, uma doutrina de salvação, nós inquestionavelmente encerramos com o projeto da própria Filosofia Política – investigar a origem, a melhor forma, a justificativa da obediência civil e as consequências de e num determinado tipo de governo.

Se eu vivo numa sociedade democrática (e ao meu redor todos assim o dizem) não deveria haver espaço para o ódio na Política. Ai de mim, pois, que permiti que o conceito de “sociedade democrática” fosse privilégio de alguns que hoje me acusam de fazer o “discurso do ódio”.

Ontem eu escrevi que a pior, a mais dramática, irresponsável e terrível coisa que nós podemos fazer em público quando militantes Petistas, do PSOL e PC do B dizem que nós “temos ódio deles” é negar!

Nós não devemos negar nosso ódio não por uma questão de falta de caridade com o nosso inimigo, mas porque se odiar é sofrer, é nossa obrigação expor e registrar na História do Brasil o nosso sofrimento.

Como é que nós não temos ódio deles? Nós temos, sim! Temos e muito! Apropriando-se de uma determinada versão, de um determinado discurso sobre o que eles dizem ser democracia, eles destruíram nossas vidas profissionais, negócios, educação, segurança, saúde... roubaram o Brasil em trilhões e se definiram para sempre como nossos inimigos; não como nossos adversários.

O meu ódio, o nosso ódio político é, pois, um ódio legítimo. Ele não é a incapacidade de perdoar; ele é a deliberada vontade, a manifesta e declarada intenção, de não esquecer pois digo que se perdoar é deixar de odiar é, ainda e também, não esquecer.

Odeia todo aquele que não perdoa, mas quem perdoa não deixa de esquecer. Nós não podemos em hipótese alguma, neste momento, esquecer o que aconteceu no Brasil, do ponto de vista político, nas últimas décadas.

Se o preço a ser pago para termos uma História, se não podemos deixar de odiar porque no Brasil corremos o risco de tudo esquecer, nós devemos, sustento eu neste artigo, “odiar”.

A nossa tem que ser uma história do “discurso do ódio” do qual nos acusam para que ele possa, simplesmente, ser um discurso da nossa História. Um discurso diametralmente oposto ao “deles”.

Nós não lidamos com adversários políticos dentro de um processo democrático. Tratamos com forças que nos tem como inimigos.

Nossa situação é de guerra e a guerra não é, todos sabemos, um momento adequado para investigar as razões e a legitimidade do ódio de uma ou de ambas as partes em conflito pois a Política, certa vez o disse Mao Zedong inspirado por Carl von Clausewitz, é a guerra sem derramamento de sangue; a guerra é a política com derramamento de sangue.

Eu invoco, sim, a Guerra e o faço ainda em nome de uma “Teoria da Guerra Justa” que tem suas origens no pensamento de Cíero, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e Hugo Grotius.

Deus nos ajude, ao final de tudo, depois de escaparmos de nossos inimigos e mudarmos o nosso país, a escapar do nosso próprio ódio político pois este é, eu o garanto como um sobrevivente do século XX, capaz de engolir um povo inteiro como aquele ódio lá do início do texto, o ódio na vida do indivíduo que choca, que estarrece e perturba o padre e o psiquiatra.

É, desgraçadamente, o ódio a “paixão”, a única categoria do pensamento, que pode agora nos fazer diferentes e finalmente livres para construir um novo Brasil. Não seja ele algum dia a força capaz de nos tornar iguais aos nossos inimigos e, finalmente, nos destruir.

Possa um dia toda a nossa Nação ser capaz de perdoar mas de não esquecer e, se Deus Nosso Senhor assim o quiser, voltar a ser feliz.

Milton Pires

Médico cardiologista em Porto Alegre

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