Matemática em casa ajuda alunos na escola

Matemática em casa ajuda na alunos na escola, o bom momento que vive a matemática brasileira que a cada dia buscam atraírem mais jovens para esta matemática. Só para ilustrar como a nossa matemática está em evidência, recentemente, a equipe de estudantes brasileiros recebeu quatro medalhas de bronze e uma de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática na Romênia. Além disso, o Rio de Janeiro foi sede do congresso mundial de matemática, que, pela primeira vez, foi realizado no hemisfério sul do planeta. Aproveito essa oportunidade, também, para lançar um desafio aos colegas matemáticos, desafio que se encontra no final desse artigo. Quem chegar lá, lerá! Entre os dias 2 e 4 de agosto, ocorreu em São Paulo o primeiro Encontro da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), uma rede com cerca de 120 pesquisadores brasileiros, de diversas áreas do saber e regiões do país, que realizam estudos que visam contribuir para a melhoria da educação do país. O que interessa agora é que, neste Encontro, foi recebida a Dra Susan C. Levine, que proferiu a conferência de abertura. A Dra Susan é professora da Universidade de Chicago do Departamento de Psicologia, onde estuda, há muito tempo, o interesse de crianças e adolescentes pela matemática. “Fiquei muito impressionada com a sua apresentação e decidi por escolher um dos trabalhos da Dra Levine como tema do artigo deste mês para prestigiar a matemática. Conto-lhes aqui os achados de seu estudo publicado em 2015 na revista Science (Science 350, 196-198).”, Disse Débora Foguel do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis – UFRJ.

Neste estudo, o grupo da Dra Susan adotou uma estratégia muito interessante para responder o título desse artigo: Será que desenvolver alguns conceitos da matemática em casa ajuda na aprendizagem dos alunos na escola?

Já é bem aceito que a leitura de livrinhos pelos pais influencia positivamente no desenvolvimento escolar das crianças. Entretanto, ainda não havia sido determinado se os pais (usarei o termo “pais” mas quero me referir àqueles que cuidam das crianças), ao interagirem com seus filhos em atividades relacionadas à matemática, poderiam influenciar no aprendizado dessa disciplina na escola. De forma geral, a maior parte de nós acredita que o aprendizado da matemática é restrito ao ambiente escolar e a família pode contribuir pouco para isso. Errado! Foi essa a conclusão desse estudo conduzido pela Dra Susan. Vamos aos dados!
A equipe da Dra Susan acompanhou durante um ano o rendimento em matemática de 587 crianças (de escolas de 22 áreas distintas de Chicago) que estavam na alfabetização. Para isso, foi utilizado um aplicativo gratuito que trabalha de forma lúdica e simples alguns conceitos da matemática em crianças dessa idade. Infelizmente, não me foi possível acessar o aplicativo, mas, pelo que ouvi na palestra dela em São Paulo e pelo que está descrito no artigo, o aplicativo apresenta atividades com números (contagem numérica), formas geométricas, noções de espaço (a frente de, embaixo de, acima de, ao lado de etc), noções de fração, probabilidade e etc. O aplicativo foi desenhado, inclusive, para ser usado por pais que dominam pouco a matemática.
As famílias foram divididas em dois grupos: Grupo I – composto por 420 famílias que usaram o aplicativo matemático e Grupo II – composto por 167 famílias que usaram um iPad para ler historinhas para seus filhos. Esse foi chamado de Grupo controle, pois os pesquisadores queriam descartar qualquer possibilidade de que os resultados fossem influenciados pela simples interação dos pais com seus filhos. Essas historinhas não tinham qualquer conteúdo numérico ou espacial para não interferir nos resultados.
Durante um ano as famílias utilizaram ou o aplicativo matemático ou o iPad com atividades de leitura e o conhecimento matemático das crianças dos dois Grupos foi monitorado por pesquisadores treinados para tal. Certamente, o conhecimento de matemática de cada uma das crianças dos dois grupos foi avaliado antes do início da pesquisa para servir como referência ou ponto de partida.

Vamos aos resultados!

Primeiramente, o desempenho em matemática das crianças foi comparado usando-se crianças da mesma escola, ou seja, crianças do Grupo I comparadas com crianças do Grupo II sendo ambas da mesma escola. Isso evita que se compare crianças que receberam aulas de matemática com diferentes conteúdos e profundidade em escolas diferentes. De forma muito evidente, as crianças do Grupo I, que desenvolveram com seus pais atividades relacionadas à matemática, tiveram um desempenho muito melhor em matemática que as crianças do Grupo II, que trabalharam a leitura. E, o melhor desempenho em matemática foi proporcional ao número de vezes em que o aplicativo foi utilizado, ou seja, nas famílias que usaram poucas vezes o aplicativo, o desempenho foi bem menor do que nas famílias que usaram muitas vezes o aplicativo na mesma semana. Resultados idênticos foram obtidos quando os pesquisadores compararam o conjunto completo das crianças dos dois Grupos (587 crianças). Esse resultado demonstra que não é qualquer atividade que as crianças desenvolvam com seus pais em casa que leva ao aumento de suas habilidades em matemáticas, mas, sim, aquelas desenhadas para tal.

E o estudo não parou por aí! Todos nós sabemos que existe o que se chama ansiedade, medo ou até pavor da matemática. Muita gente quando vai fazer uma simples soma já começa a suar frio e desenvolve um bloqueio para essa disciplina. Os autores desse estudo se perguntaram o quanto crianças que são filhas de pais que têm ansiedade pela matemática acabam por serem influenciadas por esse comportamento e se o aplicativo utilizado no estudo poderia ajudar a superar essa barreira.

Para responder a essa questão, os pesquisadores dividiram os pais dos alunos da presente pesquisa em dois Grupos: Grupo A – pais que tem grande ansiedade/desconforto pela matemática e Grupo B – pais que não tem ou tem baixa ansiedade/desconforto. A expectativa dos pesquisadores era de que as crianças filhas de pais do Grupo A pudessem ser beneficiadas pelo uso do aplicativo.

E qual foram os resultados?

Comparando as crianças do Grupo A que usaram o aplicativo com as crianças do Grupo A que usaram o iPad de leitura, mais uma vez foi muito evidente a melhora no desempenho em matemática ao longo do ano.
Além disso, os pesquisadores também compararam o efeito do número de vezes em que as famílias usaram o aplicativo, ou seja, famílias que usaram menos que uma vez por semana (122 famílias), famílias que usaram, em média, uma vez por semana (153 famílias) e famílias que usaram 2 ou mais vezes por semana (119 famílias). Interessantemente, as crianças filhas de pais com alta ansiedade para matemática que usaram o aplicativo uma única vez por semana se saíram muito melhor em matemática que as crianças que usaram menos que uma vez por semana. Curiosamente, não se observou diferença significativa entra as crianças filhas de pais ansiosos em matemática que usaram o aplicativo uma vez ou mais que uma vez por semana, o que indica que basta usá-lo um vez por semana que os benefícios já são observados.
Já no grupo das crianças que são filhas de pais com baixa ansiedade pela matemática, só houve benefícios quando se comparou o desempenho das crianças que usaram o aplicativo mais que duas vezes na semana e aquelas que usaram o aplicativo em média uma vez por semana. É possível que nessas famílias onde os pais se relacionam bem com a matemática, as crianças já estejam sendo expostas a um ambiente rico em elementos matemáticos que possam diminuir o efeito do aplicativo.

Em conclusão, esses estudos nos traz dados muito importantes que mostram como é possível, dentro de casa, desenvolver habilidades matemáticas nas crianças, através da interação com seus pais. E, o uso de aplicativos, como o aqui descrito, pode, inclusive, ajudar os pais que tem medo ou ansiedade pela matemática. Essas crianças que se saem bem em matemática na escola, certamente, têm mais chances de gostarem dessa disciplina, quiçá optando por carreiras que incluam a matemática como seu instrumental.

Agora, deixo o desafio: que tal desenvolvermos um aplicativo, efetivo como esse, para nossas crianças, - em especial para aquelas que estão nas escolas públicas-, usarem com seus pais, mesmo aqueles que tem baixa escolaridade? Valem muitas medalhas essa conquista!

Fonte: Matemático Sousa

Valdivino Sousa

Prof. Ms Valdivino Sousa é Contador, Matemático, Pedagogo, Psicanalista, Bacharel em Direito, Escritor e Mestrado em Ciências da Educação Matemática.

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