Divisão social e fisiologismo político

O velho Karl Marx, lá no passado, dizia que “A sociedade inteira divide-se, cada vez mais, em dois grandes grupos inimigos, em duas grandes classes diametralmente opostas uma à outra: a burguesia e o proletariado”. É uma visão materialista que considera o nível de renda e o nível de acumulação de riquezas. O pedagogo Ney Lobo tem uma visão bem diferente de classes sociais. Para ele “são grandes conjuntos historicamente determinados, homogêneos e estratificados de Espíritos encarnados, diferenciados pelos graus de evolução já atingidos”.

Os filósofos iluministas, por sua vez, afirmavam que no princípio havia uma igualdade primordial e que, ao longo dos tempos, aconteceu uma desigualdade crescente devido à ganância e ao livre arbítrio dos homens. Eles acreditavam que essa desigualdade atingirá um ponto de inflexão, a partir do qual acontecerá uma desigualdade decrescente até se atingir um estágio de igualdade de oportunidades.

A história mostra que os excluídos da distribuição da riqueza (o populacho, segundo o marquês de Lafayete e Napoleão Bonaparte), em determinados momentos, não suportando a opressão e a miséria, revoltam-se na tentativa de reencontrar algo parecido com a igualdade social sonhada. Então acontecem as grandes e sangrentas batalhas, tais como a Revolução Francesa (ou burguesa), a Revolução Russa e a Revolução Chinesa, ambas chamadas de comunistas, e outras revoluções menores.

Entretanto, a sonhada igualdade social ainda não foi atingida em consequência dessas dramáticas convulsões, apenas mudaram-se as elites dominantes e, consequentemente, o direcionamento dos privilégios. Os teóricos falaram sobre a ganância humana mas não filosofaram sobre as desigualdades “fisiológicas” dos políticos que em épocas eleitorais prometem “igualdade de oportunidades”.

A estrutura social brasileira é perversa e a conjuntura econômica vai mal. As diferenças sociais são profundas, escandalosas e quase insuportáveis. O desemprego (segundo o IBGE 65,6 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais estão fora da força de trabalho - não trabalham ou desistiram de procurar emprego); o déficit das contas públicas está previsto em R$ 159 bilhões; o estoque da dívida da União, em junho, era de R$ 5.523,6 bilhões (82,8% do PIB); e o desembolso do governo federal para o pagamento de dívidas de estados e municípios com a União terá um impacto de R$ 90,3 bilhões ao longo de três anos.

Mesmo com essa dramática situação orçamentária, o STF concedeu ao Poder Judiciário um reajustamento salarial da ordem de 16,38% (a remuneração dos Ministros passa de R$ 33,8 mil para R$ 49,3 mil, além de outras vantagens adicionais). O Ministério Público também se concedeu o mesmo reajuste, que será acompanhado pelo Poder Legislativo (de vereador a senador) e parte do Executivo (prefeitos, governadores, presidente da República, secretários e ministros de Estado). O presidente da Associação Nacional de Procuradores da República foi objetivo: “Nós também temos direito a 16,38% de aumento”.

A repercussão total nas contas públicas do País ultrapassará os R$ 8 bilhões, já no exercício de 2019. Está na hora de os governantes brasileiros (de todos os poderes, incluindo o Ministério Público) lerem o livro “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores de Harvard, e refletirem sobre o tema.

A corrupção política e a criminalidade em geral estão em escala crescente e mostram-se incontroláveis. Esses fatos são inexplicáveis e inaceitáveis para um país de tantas riquezas como o nosso. Está na hora, também, de o povo (de todas as classes sociais) sair para as ruas gritando: “Assim o Brasil não aguenta!”

Por outro lado, a conjuntura política está sendo bombardeada pelo radicalismo inconsequente e totalmente irracional. Aproximadamente, segunda as pesquisas eleitorais divulgadas, 35% da população está a favor da extrema esquerda e 35% defende a extrema direita, os restantes 30% apoiam a barafunda existente, não sabe o que fazer e tenderá deixar tudo como está. A choradeira continuará, com o retorno do mesmo Congresso Nacional, a mesma corrupção e a mesma demagogia.

A democracia não corre perigo, não está em xeque-mate, mas o establishment político precisa fazer algumas concessões ao povo que paga impostos e sustenta as mordomias dos “eleitos” pelo esdruxulo sistema de facções partidárias. Entre as pequenas concessões está a liberdade de votar ou não votar sem ser criminalizado.

Hoje com o voto obrigatório as pessoas são obrigadas a serem coniventes com a escolha de dois tipos de governantes: os corruptos tradicionais (Calheiros, Barbalho, Padilha e outros) e os cacarecos (Tiririca, Romário, Marum e parceiros).

Os discursos antilulista ou antibolsonarista são as duas faces da mesma moeda: o vazio ideológico, a ausência de programas políticos que satisfaçam as necessidades dos mais de 200 milhões de brasileiros que habitam este “paraíso de imensas riquezas naturais”. A rejeição mútua dos extremos em nada ajuda porque o que resta no “centrão” não serve, praticamente, para nada, a não ser para aumentar a politicalha e a corrupção que está destruindo a sociedade e o aparelho produtivo.

Às vezes o tom de voz de alguns protagonistas assusta, para logo voltar ao bom senso. Quando o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército disse que a legitimidade do próximo mandatário pode ser questionada gerou um mal-estar institucional, levando Ciro Gomes a jogar gasolina na fogueira com a declaração de que se fosse presidente mandaria prendê-lo. Quando do ataque à caravana petista no sul do país, Bolsonaro e alguns militantes ironizaram grosseiramente o fato mas, frente, a irascível reação dos atacados, desviaram seus focos de ação. Correligionários do Capitão, os mais sensatos, suavizaram a questão dizendo que era apenas brincadeira de alguns afoitos. Entretanto, dias depois, Bolsonaro conclamou pelo “fuzilamento da petralhada”, e um militante (médico veterinário) esbravejou: “Serão esmagados como baratas”. Foram ovacionados.

Após o atentado a faca, parecia que a “fera da irracionalidade” estava solta, segundo as palavras do deputado Major Olímpio (PSL): “Os que apostam que atentados nos intimidam não nos conhecem. Estamos dispostos a morrer pelo que acreditamos”. O próprio general Hamilton Mourão, candidato a vice, foi duro: Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”, depois voltou atrás e afirmou que estava orientando “o pessoal a raciocinar e abaixar o tom”.

Washington Quaquá, presidente do PT do Rio de Janeiro, chamou Bolsonaro de “fascista, frouxo de merda”, afirmando que a facada era apenas uma canivetada. Obscuros militantes do PT e de inexpressivos nanicos (PSTU, PCO, PSOL, entre outros) fizeram manifestações favoráveis ao ataque dizendo que o “anjinho fascista não merece solidariedade", acirrando as postagens nas redes sociais. Entretanto, dois importantes personagens do petismo, Eduardo Suplicy (candidato ao Senado) e Fernando Haddad (candidato à presidência) foram à público dizer que o ato era muito grave e que a vítima merecia a “solidariedade” de todos.

O futuro Presidente (seja da direita, da esquerda ou do centrão) encontrará o mesmo Congresso Nacional, com a mesma composição de hoje. As diferenças “fisiológicas” continuarão dividindo o Brasil e dificultando a implantação de qualquer regime político que traga paz, harmonia e condições apropriadas para a alavancagem do desenvolvimento econômico e social. A luta continua, dirão os radicais dos extremos.

As duas principais lideranças políticas de hoje não participam diretamente da campanha presidencial porque ambas estão impedidas de manterem contato direto com o povo. Isto porque o líder das pesquisas está encarcerado em uma cela da PF (Lula) e foi substituído por um preposto, e o segundo colocado encontra-se internado em um hospital (Bolsonaro). Mesmo assim, tudo indica que os brasileiros terão que decidir, em um segundo turno, entre Bolsonaro e Haddad.

Fica a triste realidade de que algumas gerações (três ou quatro) de brasileiros ainda serão sacrificadas até que impere a razão e o bom senso entre as elites nacionais. O que dirão os cientistas políticos de 2050 a respeito das eleições de 2018? E os estudiosos de 2100 o que escreverão a respeito destes nebulosos tempos?

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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