A análise da entrevista de Dirceu do ponto de vista de um ex-marxista

Li a entrevista de José Dirceu ao El País.

Eu já fui como José Dirceu. Já pensei como ele. Naquela época, eu era um grande admirador dele. É talvez a melhor cabeça pensante da esquerda brasileira.

Ele faz algumas constatações óbvias: não há (havia em 2003) espaço orçamentário para fazer política distributiva. Na verdade, até há, mas dependeria ou de medidas que o PT não pode tomar para não trair fatalmente sua base, os privilegiados nas estatais, no Estado e nos sindicatos, ou o confisco, roubo, usar o poder do Estado para tirar de "a" para dar a "b".

Ele o diz com todas as letras e não há nada de errado na declaração dele sob o ponto de vista de um marxista: quem não reconhece a propriedade privada não tem por que preservá-la ou deixar de tomá-la de assalto.

Na prática, sabemos que o que sai de "a” acaba não chegando a "b", seja porque a economia como um todo definha, seja porque a classe dirigente come tudo no caminho. Cuba e Venezuela são exemplos bem próximos.

Sobre a diferença entre tomar o poder e ganhar as eleições, mais uma vez coerência: a democracia não é um valor para a esquerda senão um valor instrumental enquanto não "se toma o poder".

O que Haddad fará com o poder ele não sinaliza claramente. Está nas entrelinhas: ou parte para "tomar o poder" e aí será derrubado, ou vencerá pela força, ou fará um governo muito semelhante ao que faria um Alckmin, com a desvantagem de ter de vencer a desconfiança dos agentes econômicos, e a desvantagem adicional de isso não significar benefício nenhum para a esquerda.

Não há novidades na fala de Dirceu. Nenhuma. Há sinceridade no que pode ser dito, sinceridade também para omitir o que não deve ser dito por alguém tão importante na estrutura do PT.

O que me pasma, portanto, não é o que diz Dirceu. O que me pasma é ver tanta gente achar que o projeto do PT é a social-democracia convencional, respeitadora de todos os princípios jurídicos de uma economia de mercado.

Se a estratégia de Dirceu der certo, o Brasil será um país socialista, com a miséria existencial e material que isso significa. Se não der certo, bem, a ameaça sempre existirá.

Em morrendo Dirceu, outros o sucederão. Se com a mesma capacidade intelectual é impossível se prever. Tomara que não.

Aurélio Schommer

Membro do Conselho Curador na Fundação Cultural do Estado da Bahia - Funceb e Membro Titular no Conselho Estadual de Cultura da Bahia.

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