O discurso da ‘diversidade’ e o vilipêndio da universidade

“A decadência moral é a principal causa dos flagelos individuais e sociais que enfrentamos (...) Se olharmos retrospectivamente veremos a contínua decadência da Universidade e seus efeitos sobre a sociedade civil mediante a cultura. Quem sabe não olhamos também prospectivamente e não tentamos evitar desde agora que a barbárie se torne incontrolável?”

Hoje, mais do que nunca, talvez seja importante nos lembrarmos daquela criança do conto “A roupa nova do imperador”, de Hans Christian Andersen. Diante do imperador, que marchava nu no meio de uma multidão que elogiava seus inexistentes trajes, eis que a criança exclama: "Mas ele não está usando nada”. Acredito que essa seja a conclusão de muitos que são hoje colocados diante de boa parte daquilo que nossas Universidades produzem. Exemplos? Lembrem-se da “semana da diversidade”, promovida em Agosto pelos alunos do centro acadêmico da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Dentre os tópicos estão as já bem conhecidas pautas da agenda de esquerda, cujo propósito é, ao fim, dissolver a cultura moral ocidental, uma cultura, segundo eles, “heteronormativa”, “racista”, “patriarcal”, etc. Ou seja, eles insistem em fundamentar os debates em torno de “vivências” subjetivas, como se todo o conhecimento se restringisse a como nos sentimos, independentemente da realidade e daquilo que podemos justificar racionalmente (objetivamente, portanto).

Afinal, haveria estratégia melhor do que vilipendiar o ensino superior para, então, degradar a cultura e promover a irracionalidade?
Muitos autores têm reiteradamente, e há décadas, apontado para a decadência de nossa cultura e dos flagelos oriundos dessa degeneração. E hoje vemos que essa degenerescência tem uma fonte: a Universidade. Isso está plenamente documentado por autores como Thomas Sowell, Roger Kimball, et al. Uma agenda antiocidental, anticristã, antiliberal, (dir-se ia, “anti-humana”), tomou conta das Universidades e hoje seus efeitos nefastos se fazem sentir na cultura em geral (Sim!!! Como demonstrou Richard Weaver, as ideias têm consequências).

E, desgraçadamente, embora o imperador esteja nu (e, admitamos, seja horrível), ainda há muitos elogiando suas novas, lindas e abstratas roupas (embora muitos também estejam, graças ao bom senso, apontando para sua nudez e feiura).

Mas quando falamos em cultura ocidental estamos falando em uma cultura cristã. Sim, os pilares de nossa cultura são cristãos, ainda que eles possam ser tomados de uma perspectiva secular apenas (como o faz, dentre outros, o ateu Bruce Sheiman, que argumenta em defesa do cristianismo afirmando que ele é incomensuravelmente benéfico para a humanidade).

Nesse sentido, com sua obsessão para corroer os alicerces da civilização ocidental, a mentalidade esquerdista (“progressista”) há décadas fomenta, desde a Universidade, ações como a que podemos ver na programação da tal “semana da diversidade” (diversidade, aliás, que não inclui aquilo que não esteja de acordo com sua agenda: qualquer um que critique tal agenda – ainda que recorrendo a fatos e razões - é imediatamente chamado de ‘fascista’, ‘racista’, ‘homofóbico’, ‘misógino’, ‘heteronormativo’, etc). No entanto, é preciso que cada vez mais deixemos de lado nossa “paralisia moral” (a mesma paralisia ocorrida enquanto Hitler avançava, célere, em seu projeto de dominação da Europa) e reconheçamos o seguinte: A decadência moral é a principal causa dos flagelos individuais e sociais que enfrentamos. Qual a alternativa?

Bem, julgo que o historiador Christopher Dawson, após estudar a história da civilização ocidental, apontou para a resposta, ao dizer:

“Acredito que o estudo da cultura Cristã é o elo perdido essencial a ser suprido se a tradição da educação e cultura ocidentais deve sobreviver, pois é somente mediante esse estudo que podemos entender como a cultura ocidental veio a existir e quais são os valores fundamentais sobre os quais ela se apoia”.
Assim ao invés de recorrermos a nossas “vivências” (ou a como nos sentimos), quem sabe não vamos aos fatos? Dentre os pilares da civilização ocidental temos, por exemplo, o papel do Cristianismo na conversão dos bárbaros. Há, também, o papel fundamental da vida monástica na preservação da civilização ocidental: os primeiros monges e freiras estavam dentre as pouquíssimas pessoas alfabetizadas na Europa, as quais preservaram a cultura copiando, a mão, os livros clássicos e transmitindo seu conteúdo (o Cristianismo incorporou e sobretudo elevou a tradição recebida dos gregos, dos judeus e dos romanos).

E quanto ao papel do Cristianismo na Renascença Carolíngia, no incentivo dado às letras, às artes e à educação, quando tivemos a abertura de escolas e mosteiros, bem como a tradução e cópia de manuscritos antigos, preservando e propagando a cultura da antiguidade clássica? Não apenas isso, e quanto ao seu papel na magnífica arquitetura medieval e na criação das Universidades (um fenômeno até então inédito na história da humanidade)? Costuma-se falar que a “idade da razão” começou no século XVIII, mas ela já estava presente nas Universidades medievais (estando em grande medida ausente nas Universidades de hoje, como fica claro na tal “semana da diversidade”).

E seu papel na Revolução científica, um fenômeno exclusivo de uma Europa Cristã? E quanto ao seu papel na criação do ius gentium, do ‘direito internacional’? Muitos de nossos “direitos”, por exemplo, derivam dos desenvolvimentos do direito canônico.

Poder-se-ia mencionar também o fomento à ideia de caridade, uma das virtudes teologais (as outras são fé e esperança) que assoalhou o caminho para a criação de quase todas as instituições caritativas ao longo da história. E, claro, há também a moralidade que herdamos dessa tradição.

Foi o Cristianismo que solidificou as bases da ideia de ‘direitos humanos’ (inalienáveis), de ‘direito natural’ e de ‘dignidade da pessoa humana’. Especialmente do Cristianismo veio a defesa da “sacralidade da vida”, de todas as vidas humanas em todos seus momentos, desde a concepção até a velhice, incluindo inclusive os pagãos (coerente com essa ideia o Papa Francisco recentemente condenou a pena de morte). Foram incontáveis as contribuições do Cristianismo para que chegássemos à civilização da qual hoje nos beneficiamos, às Universidades das quais hoje usufruímos.

E não é sequer necessário crer em Deus para reconhecer isso. Basta crermos nos fatos e no bom senso. Mas, em um comportamento que expressa uma vil ingratidão, eis que de dentro da Universidade muitos agem com vistas à sua dissolução, à dissolução de seus fundamentos.

Com isso colapsam não apenas os princípios fundamentais das Universidades, mas as bases da civilização ocidental mesma. É a civilização ocidental o paraíso? Certamente não. Não vivemos (nem viveremos) em Utopia (vivemos na realidade). Não obstante, o ocidente assentou as bases da civilização que promoveu de forma incomensurável o desenvolvimento humano. Mas justamente da Universidade vêm os mais degradantes exemplos de degeneração intelectual e, inclusive, moral, como o mostra outra terrível (mas não surpreendente) notícia divulgada à época da divulgação da tal “semana da diversidade”, a saber, a do professor de geografia e política da Unesp preso em flagrante por tráfico de drogas.

Aliás, dirão que isso também é parte da “liberdade de cátedra”, como costumam fazer as Universidades para justificar as mais absurdas e ultrajantes afrontas ao bom senso por parte de seus professores e alunos??? Talvez não. Talvez ainda haja um limite. Mas e quanto ao futuro? Se olharmos retrospectivamente veremos a contínua decadência da Universidade e seus efeitos sobre a sociedade civil mediante a cultura. Quem sabe não olhamos também prospectivamente e não tentamos evitar desde agora que a barbárie se torne incontrolável?

Sejamos como a criança da fábula de Hans Christian Andersen e reconheçamos que muito do que se faz na Universidade hoje é contrário à ideia mesma de Universidade. Não apenas isso, é uma violação do bom senso, da razoabilidade, bem como uma negação dos fatos e uma agressão à natureza humana mesma, o que apenas nos aprofunda na barbárie cuja causa é principalmente moral.

(Texto de Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito)

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