A universidade e sua rejeição seletiva da intolerância

A ilusão da imparcialidade da Universidade

Recentemente li uma nota (de 11/10/2018) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) em que sua atual administração “repudiava a intolerância”. Até esse ponto estou plenamente de acordo. Devemos, sim, repudiar a intolerância. No entanto, o que a referida nota não esclareceu foi sua parcialidade acerca daquilo que ela entende por “intolerância”.

Objetivamente, o que temos acompanhado, aqui na UFPEL e em outras instituições de ensino “superior”, é o avanço da intolerância antirreligiosa, antiocidental, antiliberal, anticonservadora, etc. A pauta, aqui, não é significativamente diferente daquela adotada por outras Universidades, especialmente pelas públicas.

Não obstante, o ponto é que algumas polêmicas ocorridas aqui na UFPEL nos últimos anos revelam exatamente de onde vem a intolerância. E essa intolerância, a intolerância real, simplesmente não tem sido combatida pela Universidade.
Na citada nota, por exemplo, lemos sobre supostos “gestos violentos”, os quais aparecem, na nota, de forma abstrata, parecendo sugerir uma intolerância da “direita”, especialmente se levarmos em conta que essa nota se refere a supostas ameaças contra professores que estariam defendendo ideias de esquerda, bem como menciona, também, alegados (não podia faltar) atos de homofobia.

Ou seja, faz referência a casos que deveriam, se verídicos, ser denunciados e investigados. Mas a nota não acrescenta qualquer fato concreto para subsidiar suas ilações. O que ela faz é levantar acusações sobre atos tradicionalmente usados, de forma falaciosa, contra os conservadores e liberais.

Mais: as acusações levantadas pela nota assemelham-se, “coincidentemente”, às acusações que têm sido reiteradamente feitas contra o candidato à presidência pelo PSL, Jair Messias Bolsonaro. Não apenas contra ele, mas frequentemente também contra seus correligionários.

E, a exemplo do que ocorre com as acusações feitas ao candidato do PSL, tais acusações mais se assemelham a fantasmas. Ou seja, são incorpóreas. Isso porque a nota, como podemos depreender de sua leitura, não coloca conteúdo em suas insinuações. Ela simplesmente insiste em levantar acusações que fazem parte da tradicional narrativa usada contra a “direita” (liberais e conservadores) e, especialmente no atual momento, contra o candidato Jair Bolsonaro.

Mas façamos o seguinte: vamos, aqui, colocar conteúdo nessa nota e apontarmos para exemplos concretos de intolerância. Vejamos, assim, apenas alguns exemplos suficientemente documentados para que observemos em que sentido a Universidade costuma ser seletiva em seu discurso contra a intolerância, preferindo se referir a uma “intolerância fantasma” e ignorando, seletivamente, a real intolerância, frequentemente apoiada por ela.

O primeiro exemplo ocorreu no dia 26 de Outubro de 2015. Nesse dia testemunhei um dos mais grotescos atos de barbárie dentro de uma Universidade.
Diversas feministas (“estudantes” da UFPEL) fizeram uma “manifestação” no Campus das Ciências Sociais e Humanas/UFPEL, a qual aparentemente envolveu, conforme testemunhos, drogadição, bebidas, etc. Resultado? Ao final da tarde estavam todas nuas e sujas, se masturbando, urinando em baldes e jogando urina contra as paredes, ameaçando homens que porventura passassem pelo local, ofendendo, gritando palavrões, agredindo, debochando, etc. Nesse dia não houve aulas no Campus. Muitos alunos de outras cidades da região, por exemplo, perderam a viagem e suas passagens. Sem falar na perda das aulas.

Mais uma vez vimos um pequeníssimo grupo violar impunemente (além da lei mesma) os direitos de todos os demais.

Quando perguntei a uma então participante da gestão administrativa se ela chamaria a Polícia Federal para que pudéssemos entrar no prédio para ministrarmos nossas aulas, ela apenas desconversou e foi embora.

Dada a repercussão nacional da barbárie, a UFPEL se limitou a publicar, no dia seguinte, uma nota em que não se comprometia em investigar o caso. Na verdade, a nota medíocre e veladamente apoiava a manifestação.

Nunca houve, portanto, qualquer punição pelo ocorrido. Na verdade, foram punidos apenas os que queriam suas aulas e, claro, a própria imagem da UFPEL.

Em junho de 2016 tivemos a invasão do mesmo Campus. Um pequeníssimo grupo de estudantes ocupou o prédio e passou, então, a impedir (com apoio institucional) ditatorialmente o acesso ao mesmo.

Tal invasão durou semanas e eles saíram quando lhes foi conveniente. Por semanas não houve aula e demais atividades acadêmicas.

Os alunos que tentaram dissuadi-los para que pudessem ter aulas foram humilhados, agredidos, ofendidos, etc. Não surpreendentemente a então gestão da Universidade e suas Unidades, novamente, apoiaram a invasão (com cartas de apoio, inclusive).
Mais recentemente eis que voltamos às páginas policiais. No dia 07 de Abril/2018 uma “professora” do curso de história publicou, nas redes sociais, posts com diversas incitações à violência, nos quais líamos, por exemplo, frases como:
“meu ódio é revolucionário e é ódio de classe, sim. Odeio burguês. E você, cuide-se para saber de que lado está”.
“Fascistas têm de morrer, um a um, e me inscrevo para essa missão”.
Se referindo aos seus estudantes que apoiaram o impeachment de Dilma ela dizia que eles “serão cobrados com juros pela vida”.

Não apenas isso, lemos:

“Quero ver almofadinha coxinha levando pau, patricinha quebrando a unha e a cara e quero arrebentar um fascista a pau”.
Quando instada a se manifestar sobre o caso (que ganhou repercussão nacional) a atual gestão se referiu a essas mensagens como “liberdade de cátedra”, ao afirmar que “a liberdade de expressão é um direito fundamental, garantido pela Constituição Federal, sendo um dos pilares das sociedades democráticas”.

Desde então o caso (ocorrido há seis meses) está no (talvez intencional) esquecimento.

A mesma universidade que, a exemplo das demais, exalta a ‘publicidade’, a ‘democracia’, a tolerância’, etc, simplesmente fez até esse ponto o mesmo que ocorreu nos demais casos aqui referidos: deixou de lado.

Ora, deixar de lado situações como as descritas acima é apoiá-las, estimulá-las. Não apenas isso, é tomar partido em defesa desses atos que são incompatíveis com aquilo que entendemos por “Universidade”. Isso significa apoiar a intolerância, a barbárie, a violência, a degenerescência da Universidade, etc.

Portanto, uma nota como a publicada em 11/10/2018 deveria não apenas se referir a situações reais de intolerância, mas prestar contar sobre elas, como quanto ao caso da infesta e belicosa “professora”.

E quanto às reais vítimas de intolerância, que foram hostilizadas e ameaçadas (de morte, inclusive)? Bom, essas vítimas reais de intolerância não têm liberdade alguma. No atual estado de coisas, questionar os verdadeiros intolerantes é, pasmem, sinal de intolerância.

Afinal, ser intolerante é ir contra o establishment universitário, o qual é majoritariamente adepto de todas as pautas da esquerda.

No exemplo da “professora”, tanto UFPEL quanto ADUFPEL insistiram (e seguem insistindo) que ela era a vítima, tal como ocorre com o estuprador que coloca a culpa na vítima.

A UFPEL repudia a intolerância? Sim. A questão é que em nosso contexto, em que os valores civilizacionais foram invertidos de forma vil, ser intolerante é ousar questionar a barbárie que tomou conta de nossas Universidades.
(Texto de Carlos Adriano Ferraz. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, no qual orienta dissertações e teses com foco em ética, filosofia política e filosofia do direito)

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