A mais perfeita ilustração do movimento de resistência

- Mãe, eu me recuso a comer esse jiló!

- Que jiló, Nina?

- O jiló desse almoço horrível, indigesto, intragável.

- Filha, são 7 da manhã. Aqui tem pão, manteiga, café, geleia de... deixa eu ver... geleia de morango... Não tem jiló.

- Eu não aceito jiló. Eu não admito.

- Nina, minha filha, você está bem?

- Eu serei a resistência ao jiló. Zoé, não solte da minha mão!

- Nina, deixe sua irmãzinha tomar a mamadeira dela em paz. Não tem jiló nenhum aqui. Acho que nem na geladeira. Pode ser que a Odete compre quando for à feira, porque seu pai...

- Jiló nunca mais!

- Nina, você jamais comeu jiló na vida. Não sabe nem que gosto tem. Seu avô é que gostava, e, mesmo assim, tem anos que não se faz jiló nesta casa.

- Jilós não passarão. O jiló não me representa. Morte aos produtores de jiló.

- Filha, eu nem sei o que vai ter pro almoço. É possível que a Odete faça abobrinha, berinjela, couve flor. Ou quiabo, que você também odeia, mesmo sem ter provado. Se tiver jiló, aí, sim, você...

- Jiló é retrocesso. Jiló é barbárie. O jiló fere a minha existência.

- Tá bom, Nina. Acabe de tomar o café antes que esfrie e na hora do almoço, se tiver jiló, a gente conversa.

- Vou bloquear a passagem pela sala. Vou queimar crocs e havaianas no corredor. Ocuparei a área de serviço. E não ouse arrancar esta faixa que eu vou estender aqui na cozinha, em protesto.

- Tá bom, Nina. A faixa fica. Lembrando que "autonomia" não é com L, "fascismo" tem um S antes do C, e "jiló" é com J. Agora largue a mão da Zoé que ela já está ficando assustada.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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