O legado do Eunício

Derrotado na tentativa de se reeleger, Eunício de Oliveira, presidente do Senado, anunciou sua despedida da vida pública. Foram 20 anos quase que passados em branco, sem qualquer gesto que pudesse inscreve-lo na história do Brasil. Assim, antes de pendurar as chuteiras parlamentares, Eunicio considerou que precisava deixar um legado que marcasse sua presença em Brasília. E conseguiu!

No futuro, quando meus netos quiserem saber quem foi Eunicio de Oliveira, ele será sempre lembrado por ter explodido as contas do país.

- Eunicio – dirá alguém a um dos meus netos – foi aquele político sórdido e sorrateiro que na calada de uma noite de novembro de 2018 botou em votação um projeto que causou um prejuízo de 4 bilhões de reais ao país que já estava endividado até o pescoço. Um mau caráter irresponsável!
O Senado aprovou no “abafa” – 41 votos a favor,16 contra – o projeto de reajuste dos salários do STF que por “efeito cachoeira” aumentará também todos os vencimentos do funcionalismo (incluído aí os Três Poderes). O presidente eleito bem que pediu um “gesto de grandeza” do Senado para não votar, agora, a proposta de aumento. Mas os 41 senadores se lixaram para as preocupações de Bolsonaro e – pior – para a situação do país.

Eunicio, na maior cara de pau, declarou – está nas folhas – que não recebeu nenhuma ligação do presidente eleito pedindo para evitar a votação, e concluiu: “Ele podia ter me ligado”. E precisava? Será que Eunicio só saberia do tamanho do estrago através de um telefonema do presidente eleito? Ele vive há quantos anos fora do país? E se Bolsonaro ligasse, Eunicio recuaria de sua decisão? Duvido! Existem interesses maiores por trás desse reajuste do STF.

Se Eunicio não recebeu ligação do presidente eleito, recebeu vários apelos de ministros do STF para desengavetar o tal projeto. Fico aqui imaginando o chamado de Tofolli para Eunicio:

- Por favor, senador, bota logo em votação esse reajuste. Nosso salário não está dando mais para nada! Ou o senhor acha que alguém pode viver com 33,7 mil reais por mês? Já viu o preço do combustível?
- Mas ministro, quem paga o SEU, o MEU, o nosso combustível é o contribuinte!
- Que bom que ele pode pagar. Graças a Deus! Vota logo esse reajuste...
- Só mais uma coisinha, ministro. O senhor sabe que estou sendo investigado pela PF sobre propina da Odebrecht? Ano que vem vou perder a imunidade parlamentar...
- Fica tranquilo Eunicio. Qualquer problema o Gilmar tira você da cadeia.
Esse diálogo – não custa lembrar – é fruto da minha imaginação (existe liberdade de imaginação, não?) De qualquer modo vamos aguardar o que a realidade nos dirá, mais à frente.

(Texto de Carlos Eduardo Novaes)

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