O monetarismo voltou com força total

Em julho de 1944, 730 delegados de 44 nações aliadas, se reuniram em conferências para definirem as regras que regeriam as relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados do mundo. A Segunda Guerra Mundial estava em seus estertores e os vencedores se preparavam para reconstruir o capitalismo. As conferências aconteceram em Bretton Woods, New Hampshire.

A delegação brasileira foi chefiada (presidente de honra) pelo empresário Euvaldo Lodi, da Confederação Nacional da Indústria. A equipe técnica era liderada por Arthur de Souza Costa, Ministro da Fazenda, pelo professor Eugênio Gudin, criador dos cursos de economia no Brasil, por Octávio Gouveia de Bulhões (assessorado por Roberto Campos).

O sistema estruturado se impôs ao mundo, apesar da resistência da URRS e a intensa especulação financeira que pressionava o dólar e o Tesouro norte-americano. O monetarismo liberal sempre foi contestado pelo estruturalismo desenvolvimentista, pelos keynesianos e pelos marxistas. Até que, em 15 de agosto de 1971 aconteceu o “Choque Nixon”, quando os EUA, unilateralmente, acabaram com a convertibilidade do dólar em ouro (tornando o dólar uma moeda fiduciária) extinguindo, na prática, o Acordo de Bretton Woods.

Na década de 1950 os professores que lecionavam no Departamento de Economia da Universidade de Chicago, apoiados pela Escola Superior de Administração e pela Faculdade de Direito, cristalizaram uma teoria acerca de assuntos econômicos, baseada na “teoria de preços”. Esse grupo de estudiosos ficou conhecido no mundo ocidental como “Escola de Chicago”.
Os economistas George Stigler e Milton Friedman (ambos receberam o Prêmio Nobel de Economia), defensores da teoria neoclássica de formação de preços e do liberalismo econômico, eram professores e referências teóricas da Universidade de Chicago. Defendiam o monetarismo e rejeitavam o Keynesianismo. A partir de 1980 passaram a defender a “teoria das expectativas racionais” e a rejeitar a regulamentação dos negócios, em favor de um laissez-faire quase absoluto.

A Escola de Chicago, em termos metodológicos, enfatiza a “economia positiva” (estudos empíricos baseados em estatísticas, com menor ênfase à teoria econômica), e se notabiliza pela ampla gama de interesses, dedicando-se a estudos que vão desde a regulamentação do casamento até à demografia geral. Suas teorias se refletiram nas políticas do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e do Departamento do Tesouro Americano fundamentando as diretrizes do “Consenso de Washington” e do neoliberalismo.

Os discípulos de Eugênio Gudin, Mario Henrique Simonsen, Roberto Campos, Delfin Netto e Reis Velloso, entre outros de menor expressão, adotaram o pensamento monetarista liberal. Os estruturalistas, por sua vez defendiam o desenvolvimentismo via substituição de importações criando um choque teórico que ficou conhecido como sistema “centro-periferia” aceito pela CEPAL e pela UNCTAD.

Os monetaristas eram contra a participação do estado no processo produtivo (não queriam empresas estatais como a Petrobras e a Eletrobrás) e defendiam a ampla participação do capital estrangeiro na economia nacional. Os banqueiros apoiaram, com êxito, a super valorização do capital monetário em detrimento do capital real. Os estruturalistas, apesar de bem aceitos, eram vistos sob certa suspeita de serem estatizantes em excesso.

Joseph Stiglitz, ex-Vice Presidente do Banco Mundial, e James Tobin, professor da Universidade de Yale, ambos prêmios Nobel de Economia, criticaram as ideologias defendidas por Chicago e pelo Consenso de Washington. Na América Latina economistas de peso, como Raul Prebisch, Celso Furtado e Ignácio Rangel, líderes do desenvolvimentismo-estruturalista adotado pela CEPAL, sediada no Chile, também combateram o pensamento da “Escola de Chicago”.

As teorias da “Escola de Chicago” embasaram a administração econômica do Chile na ditadura de Pinochet, na década de 1970 (vinte e cinco “chicago boys” - pós-graduados na Universidade de Chicago, incluindo José Piñera) exerceram cargos de ministros nessa época. Essas teorias, na década de 1980, foram adotadas por Margaret Thatcher na Inglaterra (thatcherismo) e por Ronaldo Reagan nos EUA (reaganomics). Os governos de Fernando Collor de Mello e de Fernando Henrique Cardoso seguiram as diretrizes do Consenso de Washington.

A partir de 1980, grande parte das empresas estatais dos países do terceiro mundo foram privatizadas sob pressão do FMI, fortalecendo o neoliberalismo.
Paulo Guedes, em 1979, segundo Giba Um, levou uma cópia de sua tese de doutorado (abordava política fiscal, déficit público e endividamento externo) feito em Chicago, para Mário Henrique Simonsen, o “papa do monetarismo” sul-americano. Simonsen, depois de ler o documento, teria dito que o autor era inteligente, mas que aplicara uma fórmula errada para desenvolver sua tese acadêmica.

Paulo Guedes que, segundo seus amigos mais próximos, é um bom formulador de políticas, mas não é um gestor (não sabe executar), assumirá o Ministério da Economia (que terá três subministérios: Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio, comandados por gestores). A nova pasta terá cerca de 66 mil funcionários e quase 90 secretarias, autarquias, colegiados, empresas públicas e sociedades de economia mista.

Guedes trouxe um grupo de “chicago boys”, incluindo Joaquim Levy, doutor pela Universidade de Chicago (trabalhou no governo de Lula, no governo de Dilma e foi um dos esteios da administração financeira de Sergio Cabral no Rio de Janeiro), presidirá o BNDES. O economista Roberto Campos Neto (neto do ex-ministro de Planejamento de Castelo Branco em 1964) será o presidente do Banco Central, e o economista Mansueto de Almeida permanecerá como 1º secretário do Tesouro.

É uma estrutura excessivamente pesada, e que dependerá das decisões de um Congresso composto de políticos que ainda não se desvencilharam do fisiologismo que caracteriza as 35 facções partidárias. Resta aguardar os acontecimentos.

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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