Uma fórmula gera diversas tragédias

O lamentável acidente da queda de base do viaduto da rodovia Marginal Pinheiros (SP – 2018), nada mais retrata do que o “acordo” das autoridades (?) com as entidades (que patrocinam suas campanhas eleitorais) que manipulam as vidas das populações em todos os estados deste país. Obras que foram erguidas antes de 1970 (e as recentes também) fora das especificações, sem a manutenção adequada (devido aos impostos desviados), pressa da inauguração antes das eleições e sem as fiscalizações rígidas, hoje se tornam armadilhas letais contra a população que transita e habita dentro destas áreas.

Dentro deste rastro seguem-se as pequenas empresas que são abertas antes das demoradas autorizações e acabam funcionando de forma inadequada, sem segurança para seus funcionários, clientes e vizinhos em volta. Sabem que a fiscalização é falha e a Lei (?) é frouxa. Em caso de um evento sinistro, fecham a dita cuja, criam uma nova razão social e abrem um negócio similar em outro bairro ou Estado.

Além disto, o apoio às famílias prejudicadas é apenas peça de manchete de jornais, pois a ajuda é 80% menor do que o anunciado e demora anos para chegar a este ponto aquém. Bem diferente do que acontece quando o acidente ocorre com aviões e equipamentos que atingem a classe rica. Aí o suporte é rápido e de boa qualidade.

Podemos recordar fatos trágicos sem ordem cronológica que ceifaram dezenas de vidas pelo descaso dos responsáveis, pela falta de fiscalização adequada e pela ausência de penalidades exemplares.

Rompimento da represa de Mariana (MG). Queda das vigas do Rodoanel (SP). Explosão de uma “fábrica” de fogos de artifícios em bairro residencial de Santo André (SP) com 3 vítimas fatais, dezenas de outros feridos e várias residências abaladas pela onda de choque. Desabamento da represa do Algodão (PI), queda do teto da igreja Renascer (SP), obras do metrô com 8 mortes (SP), queda da arquibancada do Estádio da Fonte Nova (BA), queda do viaduto Paulo de Frontin (RJ), explosão em Santo Antonio de Jesus (BA *) queda do Palace II (RJ), incêndio do Joelma (SP) e do Serrador (RJ), afundamento do Bateau Mouche (RJ), queda da Gameleira (MG), plataforma P36 da Petrobras (RJ), rompimento do emissário de Ipanema (RJ), das barragens de lama (MG), de pontes, estradas, escolas e hospitais públicos, encostas de morros acumulando favelas (BR) e aviões que poderiam ter sido evitadas (BR). Fora outras dezenas de tragédias espalhadas pelo país e nem sempre destacadas na imprensa controlada.

(*) O responsável por esta tragédia em 1998 está solto e abriu novo negócio de manuseio de explosivos na mesma localidade. Eita terra boa!

O viaduto (dois andares) que vai do Joá até o túnel Zuzu Angel no RJ, exibe dezenas de pontos com ferrugens em suas estruturas. Uma Engenheira denunciou isto na imprensa, mas as providências cabíveis (manutenção) não foram tomadas de forma adequada. É um grande candidato a desabar nos próximos 10 anos.

Todos estes fatos acontecem por duas razões básicas:

1 - a corrupção que começa no topo e já contaminou o nível mais baixo de qualquer construção ou prestação de serviço;

2 – a impunidade que não castiga os mentores e executores destas picaretagens.

A fórmula de manipulação das verbas públicas basicamente é esta:

Preço real de uma obra/serviço: R$ Y milhões (ou bilhões).

Preço a ser faturado (sai de nossos impostos) em nota “suplementar”: R$ 5Y MI.

Distribuição do excedente (R$ 4Y MI):

R$ 2Y MI para os que assinam o contrato. Com direito a coquetel e aparição na imprensa, anunciando o “novo marco da cidade”.

R$ Y/5 MI para entidades “esquecerem” pendências e fiscais fecharem os olhos em relação às anormalidades, principalmente as relativas à segurança dos operários e futuros usuários.

R$ Y/5 MI para que membros do judiciário sabotem possíveis processos indenizatórios mais lentos do que a média atual que é de 15 anos.

R$ Y/5 MI para “acalmar” donos de jornais não darem ênfase a algum fato negativo descoberto oriundo das mutretas montadas.

R$ Y/5 MI para os responsáveis diretos (engenheiros, por exemplo) não fazerem alarde pelo uso de material de 3ª. categoria no lugar do previsto em contrato nem da redução do tempo de secagem do concreto.

Para a obra sobrou o valor inicial: R$ Y MI.

Como não foi prevista uma “cota” para a turma dos explorados lá de baixo (capatazes, motoristas, operários, cozinheiros, grupo da limpeza), eles são contaminados pelos exemplos passados pelos escalões acima. Criam seus mecanismos de desvios e substituição furtiva de material. Isto acaba consumindo R$ Y/4 do valor que seria usado para o projeto. Caso ele não desabe antes da entrega, será condenado pela Natureza dentro de algum tempo pela baixa qualidade do material, falta de manutenção adequada e pela ação das intempéries.

Resta esclarecer se somos cúmplices passivos (somos sim) por ficarmos assistindo a estas barbaridades sem que nossa indignação seja despertada para mudar de forma contundente este cenário que nos denigre perante nossos herdeiros! Quando falta energia elétrica, protestamos com veemência. Não pelos alimentos estragados na geladeira, mas pela perda do capítulo da novela que prometeu mostrar dois atores (até do mesmo sexo) rolando na cama. Mas isto é facilmente contornado pela tv que “gentilmente” repete o capítulo perdido.

Quantos estádios, viadutos, escolas e hospitais terão de desabar matando gente para que a população esqueça a anestesia oriunda de processos “Bordel-Big-Besta-Brasil” e tenha consciência de que precisa aprender a cobrar seus direitos de sobreviver com um mínimo de qualidade? Quantas “fábricas” terão de explodir e barcos saturados terão de afundar?

Nota complementar - lá acima, onde você leu “Y” milhões, parta da seguinte teoria:

“Y” nunca é menor que 100.

Se a empreitada se referir a algo do porte de uma represa ou dragagem de um rio, no lugar de milhões, leia BILHÕES. Aí eles fazem uma verdadeira dragagem nas contas públicas e não há represa que aprisione nosso dinheiro.

E mortes continuarão ocorrendo sem prisão de culpados, devolução das verbas desviadas nem ressarcimento adequado aos parentes das vítimas (pobres).

Ninguém será penalizado porque tal ação educativa abriria um perigoso precedente e parlamentares que matam dirigindo carro a mais de 150 km/h, que levantam prédios com cimento de 5ª qualidade e torturam desafetos com serras elétricas teriam de ser encarcerados também.

Vamos aguardar o próximo evento macabro a ser apresentado no picadeiro do circo Brasil. Similar aos demais circos, com uma única diferença: os palhaços (nós) observam tudo docilmente da arquibancada enquanto as feras (abutres, raposas, lobos) nos devoram rindo.

Dentro de um mês a população naturalmente esquecerá este lamentável fato. Ou até mesmo em 15 dias, desde que as mídias orquestradas preparem alguma manchete exaltando as virtudes de um jogador que faça um gol de canela ou de uma “popozuda” com baixos neurônios que exiba suas nádegas desnudas (mesmo com celulite) num programa de “alto” nível da tv.

E o último ato de todas estas peças de terror que o povo assiste anestesiado, finaliza com o velho jargão: “A Previdência está falida por culpa dos aposentados”.

Uma nova filosofia de governo a ser adotada a partir de 2019 será capaz de asfaltar a estrada da cidadania (educação) para posteriormente possamos buscar a recuperação de nossa dignidade esfolada pela podre elite do poder que enriquece com nossas tragédias?

Haroldo Barboza

Matemático. Profissional de TI, autor do livro Brinque e Cresça Feliz.

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