O rombo que Mandetta deixou na Santa Casa de Campo Grande

A Santa Casa de Campo Grande é um hospital mantido por uma entidade filantrópica, uma Associação Beneficente. Foi fundada em 1928. É considerada a quarta maior Santa Casa do país, ficando atrás apenas de Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. É considerada um dos maiores hospitais do Brasil e também um dos mais renomados do centro-oeste, sendo a referência em alta complexidade em Campo Grande, no estado e nos países vizinhos.

Em janeiro de 2005, a Prefeitura de Campo Grande, na gestão do prefeito Nelson Trad Filho, decretou a intervenção da Santa Casa, comandada pelo seu secretário de saúde Luiz Henrique Mandetta. A alegação era de que o hospital enfrentava grave crise, prejudicando o atendimento à população.

As causas da crise seriam a deficiência da direção da entidade na gestão e na interlocução com os trabalhadores e médicos e uma enorme e impagável dívida.

O ato, no início, parecia algo bem intencionado, uma ação realizada para melhorar o atendimento à população e sanear as finanças da entidade. Tanto é verdade que obteve o apoio de toda a sociedade, do Ministério Público Estadual, do Ministério Público Federal e da Justiça.
O tal saneamento tomou novos rumos quando uma engendrada engenharia foi montada para que muita gente se enriquecesse através da saúde. A coisa tomou outras dimensões e um grande e terrível esquema foi montado envolvendo, além da Santa Casa, o Hospital Universitário, Hospital do Câncer e o Hospital Regional Rosa Pedrossian, todos em Campo Grande.

O objetivo passou a ser “ganhar dinheiro” com o “esquema” e para tal precisavam manter a intervenção da Santa Casa, deixando a entidade fora das mãos da sociedade mantenedora.

Um conluio, capitaneado pelo prefeito de Campo Grande, por seu secretário Mandetta, com o apoio do governador, todos eles médicos, conseguiu manter a medida por longos sete anos e hoje pouca gente sabe qual foi o resultado da intervenção.

Pois bem, o resultado foi catastrófico.

Aniquilaram o patrimônio da Santa Casa de Campo Grande, diminuíram sua capacidade de atendimento, detonaram sua saúde financeira e, com isto, causaram enormes prejuízos à saúde da população de Campo Grande e do Mato Grosso do Sul.
Na época da intervenção a dívida total da entidade girava em torno de trinta e dois milhões de reais, montante que justificou a tal intervenção. Quando entregaram, ultrapassava a bagatela de cento e sessenta milhões de reais.

Ao longo desse período que perdurou a intervenção, o número de ações trabalhistas se multiplicou, a Santa Casa foi esgotando os recursos protelatórios e angariou uma quantidade enorme de execuções. Assim, as penhoras online passaram a acontecer diariamente, de modo que quando a Santa Casa foi devolvida para a sociedade mantenedora não podia mais sequer movimentar suas contas bancárias. Um dinheiro entrava na conta da entidade, um repasse do SUS, por exemplo, imediatamente precisava ser sacado, sob pena de efetivação de alguma penhora.

Antes da intervenção, apenas sete serviços da Santa Casa eram terceirizados, após a passagem de Mandetta passaram a ser mais de trinta. Antes da intervenção, a Santa Casa possuía 750 leitos, após a intervenção nefasta sobraram 500. Antes da intervenção o prédio estava em condições razoáveis de conservação, após a devolução estava uma lástima, totalmente depredado.

O atual deputado federal e futuro ministro da Saúde, primo do ex-prefeito, transformou o hospital num gigantesco comitê eleitoral, onde realizava reuniões, pedia votos descaradamente, encaminhava pessoas para atendimento, sempre utilizando a estrutura do local, que diga-se, ainda foi utilizada por outros quatro primos (Nelsinho, Fábio, Marcos e Otávio) e pelo então vereador Paulo Siufi, primo do quarteto e primo do Dr. Adalberto Siufi, o moço que protagonizou o “Escândalo do Hospital do Câncer”, uma outra história macabra envolvendo a mesma turma.

O parentesco existente entre os envolvidos, provavelmente foi preponderante para a formação do esquema.

O rombo deixado foi enorme.

José Tolentino

Jornalista. Editor do Jornal da Cidade Online.

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