Transporte Coletivo em Campo Grande – MS – sobre o aumento anual

É nauseante ver todos os anos "maior número de passageiros" ser argumento que justifique o aumento do preço da passagem.

Os Fatos e A Náusea

Até meados de 2014, os carros das linhas troncais (080, 081, 070, 072, e todas que ligam o centro da cidade aos terminais periféricos) passavam nos pontos na área central da cidade de 10 em 10 minutos o dia todo, e de 5 em 5 minutos nos horários de pico.

Os carros "azuis", que circulam nos bairros e conduzem o cidadão ao terminal periférico pra ir ao centro, também tinham frequência regular que atendia malemá às necessidades da população.

Aquele ano, 2014, houve um aumento escandaloso - o que nos anos seguintes tornou-se praxe.

A população gritou, a prefeitura ensaiou objeção, e as empresas de ônibus, por sua vez, endureceram o trato com o passageiro, retirando os carros novos das linhas, colocando pra circular as latas-velhas enferrujadas; alegando que pra adequar os custos operacionais ao preço antigo, reduziu à metade o número de carros nas linhas, o que para usuário representou na prática, o dobro tempo de espera nos pontos de ônibus.

Dois Aumentos - um concedido outro velado

Depois de muita cachorrada, puxa-e-estica, morde-e-assopra, tendo o povo como objeto dos efeitos nocivos dessa briga imoral, a Prefeitura amolece, concede o aumento. Mas os ônibus jamais voltaram a circular com a mesma frequência (10 em 10 minutos).

Manipulação Asquerosa

A situação nos bairros é ainda mais dramática, ao ponto de haver casos em que há três oportunidades no dia de sair do bairro de ônibus, e três de retornar pra casa. Acredite.

Ocorre que, tão logo comece a vigorar o novo preço da passagem, não mais as empresas devolvem às linhas os carros que retiraram como forma de pressão à prefeitura gerando uma situação caótica para o usuário, principalmente no que tange à segurança e integridade física.

É nojento.

O Usuário Sente No Bolso e Na Carne

Poucos amigos meus usam transporte coletivo e podem estar se perguntando agora: "Pôxa, acho que o João Henrique tá exagerando. Que tem a ver segurança pública com demora do busão?"

E eu vos digo: tudo.

Ocorre que nas linhas em que os carros passavam de 10 em 10 minutos o dia todo, hoje espera-se até 25 a 30 minutos, quando passa, passam três juntos, não há intervalo regular entre um e outro; os pontos de ônibus ficam repletos de usuários do sistema, quase a totalidade senhoras de idade e idosos – já que as moças e rapazes empregados podem pagar facilmente consórcios de motocicletas de baixo custo - e se esquivam com certa autonomia da dependência do transporte coletivo.

Aí pro zuqueiro* que está fissurado, sem grana e sem droga, passar por um ponto de ônibus repleto de pessoas indefesas, ele ja faz a conta rapidinho:

"Mano, 15 pessoas, uns 10 celulares. Tomo tudo desse povo, levo pra boca** e sumo dois dias!"

E são cada vez mais comuns os "arrastões" de zuqueiros* em plena luz do dia, com requintes de crueldade e covardia.

Não se trata de uma situação hipotética. É um testemunho.

Eu mesmo fui assaltado na Avenida Júlio de Castilhos, no ponto que fica na altura da sede da Polícia Federal, em 2016, às 14h, em serviço.

Tive um revolver apontados no meu roso, vi o cão da arma ser acionado e a munição falhar, a um palmo do meu nariz.

No mesmo momento uma senhora foi esbofeteada pelo comparsa do que tentara me balear, pelo fato de que seu celular era de um modelo que não interessava aos criminosos.

O Artifício Seboso e A Cara de Pau

A aberração é ver que a cada ano, mais ou menos no meio do contrato, as empresas de ônibus reduzem ainda mais a frota circulante alegando aí “que os carros circulam vazios".

Ao fim do contrato, reduzem mais ainda como forma de pressão a fim de criar artificialmente uma justificativa para o aumento que pleiteiam com a balela já manjada de que "Aumentou o número de passageiros".

Não aumentou, os carros estão sempre lotados por que tem cada vez menos carros rodando nas linhas. No fim do contrato, a qualquer hora do dia os ônibus estão lotados.

É um absurdo, é um absurdo...

A Conclusão e O Vômito

Quer dizer: aumentam abusivamente os preços gerando gordura extra na margem de lucro; depois, ao reduzir a frota circulante (e os custos até à metade) essa gordura converte-se numa confortável manta de lucro que mima com luxo e conforto gente que talvez jamais tenha entrado num busão.

É grave, é real e é nojento.

Acontece todos os anos em Campo Grande.

Isso tem de acabar.

Um lenço, por favor...

*Zuqueiro - é como são chamados os usuários de pasta-base de cocaína, também conhecida como "Zuca". É matéria-prima da cocaína e substância análoga ao crack;

** Boca - local onde o usuário de entorpecentes adquire a droga mediante pagamento em espécie ou permuta por objetos.

João Henrique de Miranda Sá

Jornalista independente em Campo Grande - MS.

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