O sofrimento estritamente pessoal de uma pessoa decente ante a farsa de um governo corrupto

Ontem e hoje foram dois dias muito tristes em minha vida profissional. Aquela tristeza da constatação de que algumas pessoas que cruzaram minha reta trajetória simplesmente não prestam, são pilantras.

Eu sei: todos estamos sujeitos a isso na vida pública. Mas, esse saber não exclui a dor triste, o lamento de olhar algumas páginas escritas, só hoje sei, em companhia de vagabundos.

Contar-lhes-ei um pedacinho dessa história...

Certo dia, em meados de outubro de 2009, encaminhei ao então Secretário-Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Rio de Janeiro os pedidos de autorização de pagamento de Diárias de Viagem para mim e outros dois membros da equipe do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente - RJ.

Durante quatro dias, acompanharíamos o então ilustre Presidente do CEDCA-RJ, Dr. Carlos Nicodemos, em agendas institucionais que arduamente construí, na função de Assessor Político e Institucional, com os titulares do Ministério da Justiça e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, além de uma ampla reunião no Conanda - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, todas em Brasília. Nicodemos pretendia lançar uma fortíssima campanha contra o abuso sexual de crianças e adolescentes e precisávamos do apoio do Governo Federal.

No entanto, por motivos absolutamente pessoais, eu não poderia acompanhar a equipe no último dia da agenda, devendo regressar ao Rio de Janeiro (onde eu morava) na noite anterior aos demais.

Mas, por erro meu, solicitei Diárias de Viagem iguais para todos!

Quando percebi o erro, havia passado cerca de três horas desde que enviara a solicitação do Gabinete onde eu trabalhava (no 11° andar da Sede Administrativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro, edifício do antigo Banerjão, na Rua da Ajuda, Centro) para a Casa Civil, no Palácio Guanabara.

Imediatamente, enviei um e-mail institucional para o Chefe da Casa Civil e para a responsável pelo setor de Diárias comunicando meu erro e informando que levaria naquela mesma tarde uma nova solicitação, afinal, eu deveria receber menos R$ 367,00.

Isso mesmo, pessoal! Estamos falando de uma diferença de trezentos e sessenta e sete reais que eu não deveria receber.

Quando cheguei ao Palácio Guanabara com a solicitação retificada, um dos Assessores do Secretário olhou para a minha cara e disse: "Tava querendo levar um a mais, né?! Aqui não tem isso não, rapaz!"

Naquele momento, eu queria uma privada para enfiar minha cabeça e dar descarga de tanta vergonha. E pior: vergonha por algo que eu não fiz de propósito e que consegui verificar e consertar antes até que chegasse às mãos do Secretário para ser autorizado e ter os recursos liberados, por ínfimos que fossem.

Mas, quem tem vergonha na cara, sabe o que estou falando...

Eis que ontem e hoje leio no jornal O Globo matéria assinada pelos jornalistas Aguirre Talento e Bela Megale sobre as supostas "mesadas" que o então Governador Sérgio Cabral Filho distribuía do Secretariado ao office boy do Palácio.

Incluídos na lista de agraciados publicada pelo jornal estão Secretário da Casa Civil (R$ 150 mil por mês), o tal Assessor do Secretário (R$ 40 mil/mês) e a responsável pelo Setor de Diárias (R$ 30 mil/mês), além de outros 29 safados.

Mas, eu não permiti que o Governo do Estado do Rio de Janeiro me pagasse R$ 367,00 indevidos e, por isso, tenho a consciência limpa e durmo tranquilo todas as noites.

Resta apenas esse gosto amargo na boca quando leio notícias tão tristes, de gente tão vagabunda que saqueou meu Estado e o mergulhou num lodaçal sem fim.

Segue a vida...

Helder Caldeira

Escritor, Colunista Político, Palestrante e Conferencista
*Autor dos livros “Águas Turvas” e “A 1ª Presidenta”, entre outras obras.

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