O Natal e a natalidade: reflexões teológico-políticas a partir do Êxodo

“Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt. 6, 21)

A celebração do Natal visa a não perdermos de vista Deus que se fez presente no mundo, o início da auto-revelação do Verbo, que foi concebido no seio puríssimo da Virgem Maria e que primeiro se mostrou aos pastores, e depois aos doutores, e que marca o começo de uma nova História para a Humanidade, que antes andava "sem esperança e sem Deus no mundo" (Ef. 2, 12). Ele significa um novo começo e uma nova esperança.

Contudo, ao olharmos em volta, surpreendemo-nos ao notar que muitas pessoas do nosso tempo pretendem ver o Natal banido da face da Terra. Trata-se de uma geração que parece, seja por palavras, seja por ações, entoar ad nauseam a famigerada cantilena daquele refrão de um rock dos anos 80: “I want it all, I want it all, I want all, and I want it now!”. Tal frase, mais do que a geração de uma década, parece representar todo o espírito de uma época.

Não surpreende que aqueles que pretendem esgotar tudo nesta vida não queiram saber de esperança. Por outro lado, em sua atitude paradoxal, não é que eles não queiram deixar nada para a próxima geração – pelo contrário, parecem expressar um desvelo cada vez maior pela preservação dos recursos naturais. O que eles simplesmente não querem deixar é uma próxima geração.

Poder-se-ia mesmo dizer que se trata de uma atitude nova; que os pagãos, no tempo de Cristo, limitavam-se a viver segundo aquele bordão, de sabor dionisíaco, mencionado nas Escrituras: “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (I Co. 15,32) Talvez assim até fosse, na Europa. Entre os povos semíticos, narra-nos inclusive a Bíblia, praticavam-se obscuros rituais sacrificiais de crianças a Moloque. Mas algo da atitude contemporânea já se prenunciava na América do Norte, em Tenotchtitlan, onde milhares de sacrifícios humanos eram praticados, tudo em nome da preservação da Terra. (Cf. https://www.sciencemag.org/news/2018/06/feeding-gods-hundreds-skulls-reveal-massive-scale-human-sacrifice-aztec-capital, e também Joseph Ratzinger. Fé, verdade, tolerância, p. 72)

Até o advento da modernidade, porém, todos estes tipos de paganismos pareciam conviver afastados. Com o descobrimento da América, observa-se a emergência de um novo paganismo que, fruto da união com o da Europa e o pior do Oriente Médio, e de uma pitada de cristianismo distorcido, sintetiza-se, de certo modo, na postura religiosa das nações que parecem haver, acima de todas as outras, moldado o imaginário cultural moderno: o puritanismo.

Deste modo, não surpreende que, durante a ditadura de Cromwell, o governo puritano – classificado por Voegelin dentre aquelas primeiras manifestações de uma linhagem que haveria de desembocar nos totalitarismos do século XX – tenha chegado a proibir, tamanha era sua austeridade, os festejos do Natal. (Cf. A nova ciência da política – Cap. V, O caso puritano). Tampouco surpreende que a nação puritana por antonomásia, os Estados Unidos, sejam os campeões da prática do aborto e os pioneiros na sua disseminação e facilitação no mundo inteiro.

O puritanismo, como explicou Max Weber, consiste numa atitude paradoxal. Ele prega uma estrita moral negativa da lei: uma moral da abstenção, que se revela sobretudo como parcimônia. O desperdício e o consumo, a suntuosidade e a exuberância, devem ser rechaçados em nome da moderação dos apetites corporais. Diversos autores, como Pierre Manent (La cité de l’homme), Claude Polin (L’esprit totalitaire) e David C. Schindler (Freedom from reality) dissertaram com maestria sobre o assunto.

Porém, como o dinheiro não pode perecer e tampouco ser consumido, quando ele está sendo acumulado, não está sendo nem malbaratado, nem consumido sem moderação, porque não é objeto de fruição. Por isto, pela lógica puritana, seu acúmulo ilimitado torna-se a expressão máxima desta virtude. Pecunia pecuniam non parit, diz o adágio. Deste oxímoro, desta “moderação imoderada”, supostamente baseada nas Leis de Deus, brota uma atitude essencialmente anti-cristã: o lucro das atividades comerciais deve ser sobretudo poupado e investido em atividades que reverterão em mais dinheiro para os detentores desse dinheiro, sobretudo se for a usura. O objetivo da vida passa, então, da recapitulação de todas as coisas em Cristo à recapitalização de todas as coisas.

O fenômeno da busca pelo dinheiro como fim último da vida não era desconhecido na Antigüidade. Platão e Aristóteles haviam, cada qual à sua maneira, encarado tal atitude com desprezo. O primeiro deplorava a pleonexia. O segundo alertava para a degeneração da economia (ciência do melhor emprego dos bens para uma vida boa) em mera crematística (ciência da aquisição) (Cf. Política 1257b-1258a). Esta última, explica o Filósofo, é fruto de uma solicitude pela vida indeterminadamente, e não pela vida boa. Como esse desejo pela vida é ilimitado, as pessoas que centraram seu desejo na vida indeterminadamente também desejam ilimitadamente os meios para “produzir” esta vida. Trata-se, portanto, de uma atitude fundamentalmente contrária à esperança.

Muito interessante a este respeito é o complemento feito por S. Tomás a esta questão, em sua obra Do Reino: “só são partes de uma multidão congregada os que se comunicam entre si no viver bem. Se, com efeito, os homens conviessem em só viver, os animais e os escravos seriam parte da congregação civil. Se, contudo, o fizessem em só adquirir riquezas, todos os negociantes pertenceriam simultaneamente a uma só cidade.” (Editora Armada, Cap. XV, p. 159-160). Desta maneira, não chega a surpreender que as mesmas pessoas e organizações que se beneficiam de um metacapitalismo global sejam justamente aquelas que tanto se empenham por promover os direitos dos animais, as mesmas que se esforçam em estender ilimitadamente a vida e a vontade humanas, e as mesmas que subvencionam sandices como o transespecismo o transgenerismo e outras sortes de transgressões intelectuais à Criação. (Estes temas foram amplamente tratados por Rémi Brague em Le propre de l’homme e Les ancres dans le ciel, bem como por Chantal Delsol em La haîne du monde)

Porém, como nos ensina o Papa Bento XVI, erram os que querem viver aqui para sempre, e que acham que o problema da vida é a falta de um limite. Em sua encíclica Spe Salvi, ele escreve: “viver sempre, sem um termo, acabaria por ser fastidioso e, em última análise, insuportável. É isto precisamente que diz, por exemplo, o Padre da Igreja Ambrósio na sua elegia pelo irmão defunto Sátiro: « Sem dúvida, a morte não fazia parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus não instituiu a morte ao princípio, mas deu-a como remédio. Condenada pelo pecado a um trabalho contínuo e a lamentações insuportáveis, a vida dos homens começou a ser miserável. Deus teve de pôr fim a estes males, para que a morte restituísse o que a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça ». Antes, Ambrósio tinha dito: « Não devemos chorar a morte, que é a causa de salvação universal ».” (§10, fine)

A postura de Santo Ambrósio, contudo, encerra um paradoxo: “é certo que a eliminação da morte ou mesmo o seu adiamento quase ilimitado, deixaria a terra e a humanidade numa condição impossível e nem mesmo prestaria um benefício ao indivíduo. Obviamente há uma contradição na nossa atitude, que evoca um conflito interior da nossa mesma existência. Por um lado, não queremos morrer; sobretudo quem nos ama não quer que morramos. Mas, por outro, também não desejamos continuar a existir ilimitadamente, nem a terra foi criada com esta perspectiva. Então, o que é que queremos na realidade? Este paradoxo da nossa própria conduta suscita uma questão mais profunda: o que é, na verdade, a « vida »? E o que significa realmente « eternidade »?” (§11)

Responde, então, o Papa, valendo-se do mais destacado discípulo de Santo Ambrósio, Santo Agostinho: “ “Cristo morreu por todos, para que os viventes não vivam para si, mas para Aquele que morreu por todos” (cf. 2 Cor 5,15) ».[21] Cristo morreu por todos. Viver para Ele significa deixar-se envolver no seu « ser para ». Para Agostinho, isto significou uma vida totalmente nova. Assim descreveu ele uma vez o seu dia-a-dia: « Corrigir os indisciplinados, confortar os pusilânimes, amparar os fracos, refutar os opositores, precaver-se dos maliciosos, instruir os ignorantes, estimular os negligentes, frear os provocadores, moderar os ambiciosos, encorajar os desanimados, pacificar os litigiosos, ajudar os necessitados, libertar os oprimidos, demonstrar aprovação aos bons, tolerar o maus e [ai de mim!] amar a todos ».[22] « É o Evangelho que me assusta »[23] – aquele susto salutar que nos impede de viver para nós mesmos e que nos impele a transmitir a nossa esperança comum. (§§28-29)

Assim, continua o mais sábio dos santos, Tomás de Aquino: “porque o homem, ao viver segundo a virtude, se ordena ao fim ulterior que é a fruição divina, […], é necessário que o fim da multidão seja o mesmo que o de um só homem. O fim último da multidão congregada, portanto, não é viver segundo a virtude, mas mediante uma vida virtuosa, alcançar a fruição de Deus. […]. Porque, todavia, o fim da fruição de Deus o homem não o consegue pela virtude humana, mas pela virtude divina, segundo aquilo do Apóstolo [Rom. 6, 23]: “A graça de Deus é a vida eterna”, chegar a tal fim não é próprio do regime humano, mas do divino. Tal regime, portanto, pertence àquele rei que não só é homem, mas também Deus, a saber, Nosso Senhor Jesus Cristo, que tornando os homens filhos de Deus os introduziu na glória celestial.” (Do Reino, Ed. Armada, cap. XV, p. 160-161)

“Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.” (Mt. 2,11) Ouro: os magos trouxeram-lhe ouro, símbolo da realeza. Ao encarnar em forma humana – e não na de qualquer outro animal –, Cristo assumiu a humanidade na sua dignidade infinita. Além disso, poderia ter nascido no lar de um rico comerciante. Porém, nasceu no de um artesão que não dispunha, para repousar, na ocasião do Natal, senão de um estábulo.

O ouro. Durante sua provação no deserto, após a fuga do Egito, o povo de Israel resolveu, com ele, fazer para si um bezerro para adorar. E o Senhor disse a Moisés: “Vai, desce, porque se corrompeu o povo que tiraste do Egito.” (Êxodo, 32,4-7)

Numa época em que pessoas querem boicotar uma rede de supermercados, arriscando a saúde financeira de diversas famílias que dele dependem, por causa de um cão que foi – não se pode negá-lo – brutalmente espancado até à morte, e em que uma mãe – uma mãe! – matou o próprio filho, de cinco anos, porque este havia chutado um cachorro, a narrativa do Evangelho de São Mateus, lida à luz do livro do Êxodo, parece encerrar, ainda nos nossos dias, uma importante lição: que o nosso ouro seja dado para o Deus-homem, principalmente naqueles que, pelas circunstâncias da vida, parecem ter sido condenados a ocupar o lugar dos animais, e não que o holocausto do homem seja dado para o ouro em forma de animal que, nos nossos dias, parece ter sido elevado ao lugar de Deus. Somente com o reconhecimento do Reinado Social de Cristo, isso será possível.

Marcos Paulo Fernandes de Araujo

Graduado e mestre em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e doutorando em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Seus principais temas de estudo são as origens históricas do conceito de Direitos Humanos e o problema teológico-político.

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