O Marechal Lott e o General Mourão

No longínquo passado tive, entre tantos outros professores do curso de mestrado na PUC-Rio, um coronel que se tornou um grande amigo meu. Era Professor competente na área de Controles, tanto na PUC-Rio, como no IME, Instituto Militar de Engenharia.

Quase por acaso fiquei sabendo que era genro do Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, que garantira a posse de Juscelino Kubitscheck, ameaçada por golpe acumpliciado pelo então Presidente da República, Café Filho.

Essas memórias me acodem por conta da notícia de alegado favorecimento ao funcionário de carreira do Banco do Brasil, Antonio Hamilton Rossel Mourão, guindado à posição da assessor especial do presidente daquela instituição, Rubem Novaes. Com esta ascensão - informa-se - Antonio Hamilton passara a ganhar R$ 36 300, 00 por mês, o triplo do que recebia antes da promoção.

Mas, o que tem esta promoção com a história do meu antigo professor na PUC-Rio? Prossigamos, então.

Aquele brilhante professor havia requerido licença (tudo dentro dos regulamentos do Exército) para fazer o doutorado na Bélgica - se não me falha a claudicante memória, era este o país. O pedido percorrera todas as instâncias, sempre com aprovação entusiástica. Até que... Até que o processo chegou, para a aprovação final, na mesa do Ministro da Guerra, Marechal Lott, e foi negado.

Desconcertado, meu antigo professor foi à noite, com a esposa, à casa do sogro para saber o que ele havia observado de negativo no seu currículo, para negá-lo. “Meu genro, o seu mérito é patente. Mas você tem um grande problema na pessoa que deveria aprova-lo. Esta pessoa é seu sogro. Não haveria nada de irregular ou desonesto em eu aprova-lo. Mas, meu genro, você sabe: não basta à mulher de César ser honesta; ela tem também precisa de parecer honesta. E para alguns esta aprovação poderia parecer nepotismo, coisa que não posso admitir no Exército.”

E assim meu antigo professor e amigo teve que adiar sua saída para o doutorado, até que outro Ministro da Guerra assumisse no lugar de seu sogro. Esta história me foi contada anos após o retorno deste amigo, por ele mesmo, após concluído brilhantemente o doutorado.

Não alimento qualquer juízo de valor em relação ao filho do atual Vice-Presidente da República. Tomo como absolutamente possível que tenha, à semelhança do meu antigo professor, mérito para o cargo a que foi nomeado. Creio também na informação do Vice-Presidente de que o filho fora perseguido dentro do BB nos governos passados. O problema é sempre a lição de Caius Julius Caesar, imperador romano, exigindo, como Lott, não só que a sua mulher seja honesta, mas que também pareça honesta.

Esses são tempos excepcionais. A oposição lulopetista, derrotada e despeitada não perde tempo para atacar. Não precisa de um fato real, basta um pretexto. Quem não se peja em afirmar que Lula é inocente, que foi condenado por um juiz a serviço da CIA e por outros oito magistrados, todos preocupados em barrar o clamor da nação que quer Princeps Corruptorum na Presidência, não espera fatos reais para bater no governo. A liderança petista acredita piamente, como Goebbels, que uma mentira, repetida mil vezes, torna-se verdade.

Ao Presidente da República cabe zelar para que tais ataques (que sempre existirão, com ou sem motivo) não tenham bases fáticas para serem exploradas. Sempre que a mulher de César não parecer honesta – e não existem varões de Plutarco à vista -, o governo estará abrindo a guarda para ataques. E, como diz o povo, água mole, de tanto bater na pedra dura, acabará por perfura-la.

É bom ter o exemplo do Marechal Lott sempre presente.

José J. de Espíndola

Engenheiro Mecânico pela UFRGS. Mestre em Ciências em Engenharia pela PUC-Rio. Doutor (Ph.D.) pelo Institute of Sound and Vibration Research (ISVR) da Universidade de Southampton, Inglaterra. Doutor Honoris Causa da UFPR. Membro Emérito do Comitê de Dinâmica da ABCM. Detentor do Prêmio Engenharia Mecânica Brasileira da ABCM. Detentor da Medalha de Reconhecimento da UFSC por Ação Pioneira na Construção da Pós-graduação. Detentor da Medalha João David Ferreira Lima, concedida pela Câmara Municipal de Florianópolis. Criador da área de Vibrações e Acústica do Programa de Pós-Graduação em engenharia Mecânica. Idealizador e criador do LVA, Laboratório de Vibrações e Acústica da UFSC. Professor Titular da UFSC, Departamento de Engenharia Mecânica, aposentado.

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